Para explicar a relevância e a qualidade de uma pesquisa, uma boa métrica é avaliar o interesse da imprensa em divulgar os resultados.
No caso da pesquisa que será apresentada nesta reportagem, ela ganhou destaque e espaços nos editoriais da renomada revista Ecology (Ecological Society of America), no The New York Times, no CBC (Canadian Broadcasting Corporation), no site MSN e ainda no portal do Smithsonian – maior complexo de museus e institutos de pesquisa do mundo. Isso somente em junho deste ano, na arrancada da divulgação.
Biólogo e doutorando em Biologia pela Unisinos, Giliandro Silva é quem liderando um grupo de pesquisadores, professores e parceiros em outros países numa pesquisa que traz uma importante confirmação. A questão proposta no início da pesquisa era: “Ovos de peixes sobrevivem ao passarem pelo trato digestório das aves? Estes ovos, engolidos pelas aves, são viáveis?”
Sem medo de perder a atenção para o restante de leitura, a reportagem já traz a resposta: sim!
Ovos de peixes, mesmo passando pela moela, pelo ácido usado na digestão das aves, e, após ser despejado junto com as fezes dos alados, podem chegar intocados, viáveis (fecundados em algum estádio de desenvolvimento) e, mais do que isso, em condições de alcançarem o estágio avançado de peixes. “Neste artigo, pela primeira vez é demonstrado que ovos de peixes podem
sobreviver e resistir mesmo após serem ingeridos por uma ave aquática, passar por
todo o seu trato digestório e ser expelido nos excrementos”, reforça Giliandro.
Com este resultado,
uma equipe liderada por pesquisadores brasileiros da Universidade
Unisinos ajudaram a responder uma das perguntas que há séculos é feita
por naturalistas, pesquisadores do meio acadêmico e, de certa forma,
também pela população em geral: Como peixes conseguem se estabelecer nas
cerca de 300 bilhões de lagoas isoladas existentes no mundo, isto é,
lagoas sem conexão com outras áreas úmidas? “Quantas
vezes ouvimos histórias de pessoas que abriram açudes e os peixes
surgiram do nada? Neste trabalho conseguimos encontrar uma peça deste
quebra-cabeças”, comenta Giliandro.
Essa pesquisa ajuda a abrir caminhos relevantes sobre questões ambientais e de povoamento de lagos, lagos açudes. Afinal, essa intrigante dúvida ainda hoje está presente na vida de muita gente: como tantos peixes diferentes apareceram em lagoas, lagos, açudes, etc, se jamais foram colocadas espécies naquele local?
Um das respostas vêm através dessa pesquisa: aves, que se alimentaram de ovos de peixes em outra região, carregam esse material que, agora, se comprova, não “morre”. E, quando as aves despejam as fezes em outros locais – que podem ser esses açudes, rios, lagos ou, até mesmo, poças de água, lá está os ovinhos sendo descartados e prontos para completarem o ciclo de desenvolvimento.
PESQUISA DE CAMPO
Nessa intrigante questão, havia já uma referência: a questão das aves que carregam sementes de árvores por longas distâncias em seus bicos. Lá pelas tantas, essas sementes caem em alguma região. E, no meio do nada, surge uma árvore sem identificação com a região ou com características diferentes da localidade. Pois é, os pássaros são grandes disseminadores dessas sementes.
Na questão das aves, também há pesquisas e estudos de que os ovos de peixes podem sem alojar nas penas/plumagens em regiões alagadiças, e serem transportadas para outro local nos voos.
Agora, nesse trabalho capitaneado por Giliandro Silva se tem evidências concretas desse “transporte” de ovos dentro do aparelho digestivo das aves. As coletas de campo foram realizadas em áreas alagadiças da Planície Costeira gaúcha, em Mostarda e Tavares, e na região de Lindolfo Collor, por exemplo. Entre as aves que tiveram seus “cocôs” pesquisados, estão cisne-coscoroba, marreca piadeira e cisne de pescoço preto.
A sorte acompanhou a pesquisa de Giliandro, que logo nas primeiras idas a campo, remexendo nos excrementos das aves, identificou um ovo de peixei viável. Ele foi trazido para a Unisinos, e precisou ser congelado em razão de circunstâncias inesperadas. Mas a resposta estava ali.
Dessa forma, foi realizado um trabalho em parceria com o Zoo de Sapucaia do Sul. Ovos de peixes foram misturados com as rações das aves pelos pesquisadores da Unisinos. Sem forçar, deixando a alimentação de forma espontânea. Era preciso esperar as aves fazerem a digestão. Quando isso ocorreu, lá estavam cinco ovos de peixeis ainda viáveis.
Desse quinteto, dois logo morreram. Dois quase chegaram ao estágio final. E, para grande satisfação, um ovo virou um peixe vistoso. “Nossa intenção inicial não era confirmar como seria essa fase final de desenvolvimento. Consideramos isso um bônus e nos anima pra seguir pesquisando”, afirma o pesquisador, que tem graduação pela Ulbra e mestrado pela UFSM.
FUTURO
Esses resultados abrem espaço para novas perguntas e respostas. Tem muito a ser explorado: desde a capacidade das aves em seguirem “distribuindo” e povoando espécies de peixes em diferentes regiões, muito em razão das mudanças climáticas do planeta, até pesquisas sobre as proteínas que envolvem esses ovos e qual aplicação pode ser dada em larga escala a esse material. “Tem muito a ser estudado. Nossa primeira pergunta foi respondida: os ovos de peixes ficam viáveis, mesmo passando pela digestão completa das aves. Essa resistência está confirmada”, comemora Giliandro, que também é consultor ambiental.
























