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Home Notas

André está em Dongguan, na China

Martin Behrend Por Martin Behrend
27/10/2021 - 14:51
em Notas
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DE CAMPO BOM PARA DONGGUAN

Convidado: André Mendes de Oliveira, 41 anos.

De Campo Bom. Reside em Dongguan, na China

Filho de Adegildo Mendes de Oliveira e Melita de Oliveira

Casado com Vanessa Simone Schembida e pai de Caio, 8 anos, e Pedro, 2 anos

Estudos

Colégio Santa Teresinha de Campo Bom; Centro Tecnológico do Calçado Ildefonso Simões Lopes –
SENAI de Novo Hamburgo; Universidade Feevale/Design; e Unisinos/Comércio Exterior.

Quando foi morar no exterior?

Em 2004, na cidade de Dongguan, na China.

Como surgiu a oportunidade?

Após trabalhar durante anos na empresa de
calçados Schmidt Irmãos, em Campo Bom, pertencente ao estimado Tovar Eliezer
Schmidt, recebi a oportunidade de iniciar um trabalho em uma empresa americana
de exportação de calçados, com sede em Novo Hamburgo.

Devido às
dificuldades econômicas da nossa região na época, em razão da variação cambial
do dólar, a empresa resolveu mover toda a sua operação para a China, onde já possuía um escritório em funcionamento há cinco anos. Sendo assim, foi
dada a oportunidade de iniciar uma jornada completamente inimaginável até
então, que seria, em menos de duas semanas, preparar tudo, fazer as malas e mudar
para Dongguan, na China, em meados de abril de 2004.

Na época, eu e minha esposa,
Vanessa Simone Schembida, estávamos namorando. Para ter a bênção de seus pais
para mudar para um outro país com o namorado, adiantamos nosso plano e
oficializamos o noivado. Tudo aconteceu muito rápido. Fui viajar sozinho
para passar os primeiros seis meses dessa jornada. Após esse período voltaria
para regozijar de férias e, então, voltar juntamente com a minha noiva Vanessa
para a China.

Novamente, tudo aconteceu rápido e, quando piscamos, já
estávamos acostumados com o cheiro, a comida, os costumes e tradições do povo
chinês. Os anos foram passando e sempre pensávamos em voltar para o Brasil,
porem as condições gerais de vida na China são muito boas, tudo é muito seguro. Encontramos hoje em dia produtos para cozinhar nossa comida – o que, em 2004, não
havia. Temos poucos, mas excelentes amigos.

Na foto abaixo, está dona Lorena, minha sogra, no mercado de peixes em Dongguan.

Então, resolvemos aumentar a família e, em
2013, nosso primeiro filhote nasceu, o Caio Mendes de Oliveira (hoje com 8 anos). Preparamos tudo e tivemos ele em Hong Kong. Tudo mágico, pais
de primeira viagem, surpresas, emoções fortes, imprevistos, porém muita alegria.

Os anos foram passando, cada vez mais acostumados com a China, e em março de
2019 tivemos a bênção de ter o segundo filhote, Pedro (hoje com 2 anos e
meio de idade), também nascido em Hong Kong.

Como está sendo lidar com a pandemia?

Em dezembro de 2019, viemos ao
Brasil de férias para visitar nossos pais. Perto da virada tivemos a surpresa,
da mesma forma que o mundo teve: na cidade de Wuhan, na China, havia sido
descoberto um vírus, que havia vitimado cerca de 20 pessoas, porém não estava
sendo encontrada uma solução para o problema.

Considerando que o nosso Pedro
ainda era bebê na época, e o Caio também jovem, resolvemos que, no
início de 2020, eu viria para a China para trabalhar e ver como estaria a
situação com relação ao vírus; e, em meados de março de 2020, iria voltar com
esperanças de que já estaria tudo tranquilo, que essa doença já teria sido
banida com o avanço da tecnologia e medicina.

Tudo foi mero engano. Na verdade, iniciou-se um pesadelo, pois o governo chinês decretou, a partir do
final de fevereiro de 2020, que ninguém mais seria autorizado a entrar na China,
fechando as fronteiras para o mundo tentando controlar a doença. Sendo assim, eu não pude voltar ao Brasil para buscar a minha família. Caso fosse, teria de
abandonar meu trabalho pois não havia possibilidades de voltar para trabalhar.

Foram, no total, 18 meses que vivemos uma história que poderia escrever um
livro. Nos falávamos duas vezes ao dia, manhã aqui na China (noite no Brasil )
e noite aqui na China (manhã no Brasil). Essa era a única forma de estarmos
presentes, virtualmente juntos, já que não era possível, até então, aquele abraço
apertado e aquele beijo tão esperado.

Em julho de 2021, após preparar uma série
de documentos, ter recebido as duas doses da vacina contra a Covid-19 na China, e
após conversar com meus supervisores na empresa onde trabalho, fui ao Brasil
para visitar meus amados filhos e esposa. Foi um momento mágico, que durou
pouco, pois logo precisei iniciar a jornada de volta a China.

Eles tiveram de ficar no Brasil em razão do consulado da
China no Brasil não estar emitindo vistos (mesmo já morando 17 anos na
China) e, portanto, a Vanessa, o Caio e o Pedro não puderam voltar comigo.
Nesse momento já finalizei os primeiros 14 dias de quarentena em Hong Kong em
total privação (sem sair do quarto, nem abrir janela ou sequer sair para fora
no corredor).

Aqui eles controlam de forma muito rigorosa para evitar
que o vírus se espalhe. Durante os 14 dias, fiz oito testes de PCR no nariz e boca. Após ter passado esses dias em quarentena fechada, de acordo com o governo, são
necessários mais sete dias de quarentena compulsória, onde eu preciso ficar
em outro hotel em Hong Kong, porém posso sair do quarto e ir a mercados, lojas, etc.

Somente após esse período e mais três testes PCR estarei apto a cruzar
a fronteira e entrar na China, na cidade de Shenzhen. Lá, novamente, precisarei
ficar em quarentena por duas semanas, em hotel do governo, sem acesso exterior,
somente dentro do quarto. Após esse período será mandatório mais sete dias em
casa, além de testes a serem feitos em hospital do governo.

É um processo muito
frustrante, porém é a única forma de poder voltar a trabalhar e tentar uma vida
normal em Dongguan, já que a minha família não teve como voltar comigo
para a China. Falamos novamente duas vezes ao dia. A saudade é algo inexplicável, porque já são três semanas que estamos separados.

No entanto, somos focados e acreditamos que tudo tem um propósito, e que tudo sempre passa, e
logo estaremos juntos morando aqui na China por pelo menos mais uns oito anos.

Onde reside atualmente?

Continuo a residir na cidade de Dongguan. Assim
que o governo chinês iniciar as atividades de emissão de vistos, minha família
irá voltar para que possamos ficar juntos e, por mais alguns anos, viver
aqui.

Além da segurança, outra vantagem que a China nos proporciona é o acesso
a outras culturas, especialmente para nossos filhos. O Caio fala fluentemente
chinês, já escreve em mandarim. Fala e escreve fluentemente inglês, sem contar
outras experiências didáticas em que ele é exposto por viver numa cidade tão
diversa, como Dongguan. Queremos que nosso Pedro também tenha a oportunidade de
crescer e se desenvolver sendo exposto a tudo que o irmão mais velho foi. Essa
bagagem é algo que eles irão levar para o resto da vida.


Qual sua atividade atual?

Nascido numa família de sapateiros, meus pais trabalharam a
vida inteira no ramo do calçado (ambos estão merecidamente aposentados). Primeiramente, na indústria de calçados Reichert, em Campo Bom e na cidade da
Feliz. Posteriormente, administraram por 42 anos seu próprio ateliê de
calçados trabalhando para várias indústrias do Vale.

Após eu ter concluído o curso técnico do SENAI, fui exposto a
várias atividades na Schmidt Irmãos Calçados. Onde me encontrei
profissionalmente foi na área de pesquisa, desenho, modelagem, detalhamento e
venda de calçados femininos.

Atualmente, atuo como diretor de desenvolvimento de produto
de uma marca de calçados femininos contemporânea, chamada Franco Sarto, que
oferece produtos para as consumidoras entre 20 e 50 anos de idade. Essa marca
conceito faz parte da empresa americana chamada Caleres.

Juntamente com o time
da China e dos Estados Unidos, realizamos um trabalho excepcional na tradução
da visão e conceito do designer italiano Gionata Pagni, que assina a linha. É
um trabalho intenso, com muitas horas diárias de dedicação, porém gratificante, pois a marca está vivendo ascensão de mercado não vista
anteriormente pré-pandemia.

Qual local sente saudades de frequentar na cidade/região?

Nossa, eu gostava muito de um antigo bar em Campo Bom chamado
“Cartão Ponto”. Era numa época em que ainda era seguro sair à noite na região.
Também gostava do boliche Adams Street Bowling Bar. Eu e minha esposa
gostávamos do Abbey Road Bar, da Moinho, em Campo Bom, da Factory, em São
Leopoldo, e do Alternativo, em Novo Hamburgo, na época das antigas.

Sentimos saudades
de poder pegar o carro nos finais de semana e ir tomando chimarrão e comendo
rapadura para Gramado, Ivoti, Presidente Lucena, naquelas ruas com aquelas árvores de plátanos, ir para a praia… Ir no Parcão de Campo Bom sem o
sentimento de que pode ser assaltado a qualquer momento.


Qual restaurante/comida /espaço
gastronômico da região que sente falta?

Como um bom aquariano taurino como minha esposa diz, eu adoro comida. Tenho saudades da Bier, da Padaria Brasil, da
Trentin, do Galeto D’Itália, da Pizzaria Kronhardt, da Vanilla & Louro (sanduíche maravilhoso), do K-Churrasco, de ir no Bourbon.

Muita saudade
do churros com Mu-Mu que a tiazinha vende na frente da Igreja Santa
Teresinha, de Campo Bom, da empada de frango da Padaria Ideal de Campo
Bom, das delícias que tem no Empório 26, do + Pastel, da pizza do Bavária,
do cachorro-quente e xis da lanchonete Free Way, de Campo Bom…


Tem algum habito/costume/rotina que levou da região para o
exterior?

Na China, tomamos chimarrão de forma habitual da mesma forma
que era no Brasil. Comemos nossa pipoca com frequência que trazemos do Brasil – Yoki é a melhor -, trazemos o preparo para fazer pão de queijo Fleischmann. Ouvimos
online as rádios, especialmente a Atlântida (Pretinho Básico), e a União, com músicas de bom ambiente para trabalhar ou em casa.



Pensa em voltar a morar na região ?

Penso em ficar na China por mais alguns anos e após, sem
sombra de dúvidas, voltar a morar em Campo Bom. É a cidade onde tenho morando
atualmente, além dos meus pais e irmã (tenho mais uma irmã que vive na Índia), muitos amigos e pessoas queridas que trabalharam comigo durante
anos. Cidade que ainda é das mais seguras de morar, ruas limpas e iluminadas,
graças a bela administração do nosso prefeito Luciano Orsi. Campo Bom é Sempre
Bom, hehehe – não sou candidato a nada…



Qual atrativo ou destaque da cidade/região onde mora?

Dongguan é uma cidade que não para. A maioria dos
estabelecimentos funcionam 24 horas por dia, e todos os lugares são
muito seguros. Podemos ir ao banco na madrugada e sair contando o dinheiro, por
exemplo, em razão de tamanha segurança.

Viver em Dongguan é estar constantemente em
contato com pessoas e realidades de várias partes do mundo: colegas de
trabalho da Itália, de Taiwan, da Bulgária, vizinhos da Espanha, Coréia do Sul, Japão,
Estados Unidos, Inglaterra…É um ambiente multicultural.

Em razão de toda essa
diversidade e sentimento de que não se pode parar é que sentimos falta de Campo Bom, mais calma, sem muito agito, trânsito não caótico, pessoas
que te encontram no mercado mesmo sem te conhecer e mantém um diálogo
saudável…


Qual ensinamento/lição/prática que tem na sua atual
cidade e que gostaria de ver ser aplicada na cidade onde viveu no Brasil?

Gostaria que o Vale do Sinos, de forma geral, fosse
mais seguro, que pudéssemos ter o sentimento de tranquilidade que temos na
China.

Entendo que as administrações municipais constantemente trabalham para
que os habitantes se sintam mais seguros, porem está embutida na população o medo de sair as ruas à noite, de que é imprescindível ter
segurança controlada na nossa casa ou no trajeto para casa quando muito tarde da
noite. Precisa de câmera na casa e portão para intimidar possíveis ladrões de
registro de água ou assaltantes, não parar na sinaleira após as 9 da
noite…

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Outra coisa que gostaria que fosse adotada na nossa região é o atendimento 24 horas. Isso iria gerar mais emprego e maior facilidade e
acessibilidade de toda a população a comércio e serviços.

Algo a mais que deveria ter na nossa região seria o
incentivo à educação e atividades extra curriculares para as crianças: cursos
de inglês, espanhol, francês, summer camp, winter camp, tênis, equitação,
esgrima, que fossem de fácil acesso financeiro a todas as pessoas.

Nas fotos abaixo, André, Vanessa, Caio e Pedro no Natal; e os pais de André, Adegildo e Melita, junto com Caio, e a decoração de Ano-Novo na China (decoração em comemoração ao Ano do Porco, em 2019).


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