O Paradoxo da Complexidade: por que o futuro dos negócios exige menos operação e mais julgamento humano.
Não é só o descompasso tecnológico que influencia e velocidade de adequação dos negócios a realidade dinâmica de mercado: é o equilíbrio entre o possível e o necessário.
O possível tem relação com as pessoas envolvidas, o necessário tem relação com o mercado. As duas questões envolvem uma visão clara e transparente de onde o negócio quer chegar.
Sabemos para onde ir?
A complexidade do mundo atual tem dificultado esta resposta. Muitos escolhem o caminho do cliente ao centro, com uma obsessão as suas dores e necessidades. A Amazon e Netflix são dois exemplos desta filosofia.
Ambas são bilionárias e com um ciclo de maturação de negócios de longo prazo. No caso da Amazon, foram 9 anos até que o primeiro resultado tenha aparecido. A Netflix demorou cerca de 6 anos para atingir seu primeiro lucro anual.
As duas companhias foram ‘disruptoras’ de mercado e sabiam onde desejavam chegar. Mas é preciso pagar o preço. E quem não tem este fôlego?
A convivência com a tecnologia
A Amazon tem mais de um milhão de robôs em suas unidades físicas. A Netflix opera 100% com algoritmos, robôs digitais, na sua plataforma.
Em termos de volume de pessoas humanas, a Amazon tem 1,55 milhão de pessoas e a Netflix tem 16000 funcionários. Por que estes números importam?
Por que na Amazon a relação é de 1 robô para cada 1,55 humano. Na Netflix, a relação é de 16 humanos para gerir cada microsserviço que atende milhões de pessoas simultaneamente. O humano aqui não opera a máquina, ele desenha o sistema.
Ainda estamos aprendendo sobre Inteligência artificial, quando deveríamos aprender como ter um ambiente híbrido, entre humanos e máquinas.
A uma rotina do descompasso
Milhares de tarefas são realizadas por pessoas e robôs nas empresas. Mas o pensamento da necessidade premente de ter somente humanos operando ainda é presente neste contexto.
Embora a automação avance, o mercado de trabalho atingiu o que especialistas chamam de Paradoxo da Complexidade: quanto mais tarefas simples um robô faz, mais vital se torna o humano para gerenciar o caos que sobra.
Empresas como a Netflix enfrentam um risco inesperado: o uso excessivo de IA para criar roteiros e capas gerou uma percepção de “conteúdo sem alma”.
- Dado: Previsões do Gartner para 2026 indicam que empresas líderes estão exigindo habilidades “livres de IA” (pensamento crítico puro) para evitar a atrofia da criatividade.
- Sustentação: a capacidade de “resolver ambiguidade humana” e criar soluções que a IA sozinha não concebe (o chamado Vibe Coding ou design estratégico) tornou-se a habilidade mais valorizada, com um déficit de 61,4% de profissionais qualificados. O Filtro da “Atrofia Cognitiva” (Gartner, 2026).
Embora a Amazon planeje substituir centenas de milhares de funções por robôs até 2033, ela descobriu que a destreza humana ainda é imbatível.
- Dado: Documentos internos de 2025 revelam que, embora a automação economize US$ 0,30 por pacote, ela falha em 15% a 20% das situações atípicas (como uma embalagem rasgada de forma irregular ou um item com formato exótico).
- Sustentação: A Amazon continua sendo o segundo maior empregador do mundo porque o “julgamento em tempo real” de um humano para problemas não padronizados custa menos do que programar um robô para cada exceção possível. O Teto da Substituição Física (Amazon, 2025-2026).
A Era do “Human-on-the-Loop” (Relatório Deloitte Tech Trends 2026)
O conceito mudou de “Human-in-the-loop” (humano fazendo parte da tarefa) para “Human-on-the-loop” (humano como supervisor ético e estratégico).
- Dado: até 2026, estima-se que 90% do conteúdo online será gerado por IA. Isso cria uma demanda urgente por auditores humanos para garantir que a IA não “alucine” ou tome decisões preconceituosas.
- Sustentação: setores como RH na Netflix e Logística na Amazon estão focando em “Veto Protocols”, onde a decisão final de um pagamento, uma contratação ou uma rota de entrega crítica precisa da assinatura de um humano por questões de governança e responsabilidade legal.
A realidade nem sempre reflete o desejo de quem cria a tecnologia. Há vários capítulos desta novela no jogo de mercado e suas dinâmicas.
Entendo que o foco do humano não deve ser de competição com as máquinas, que se reflete em necessidade frenética do seu uso e conhecimento. E sim, entender as razões de seu uso, o sentido em torno da operação e do comportamento do consumidor, assim como, a necessidade de resultados organizacionais consistentes com seus entendimentos do negócio e capacidade de discernimento.
A Apple, contrária a “vibe” da inteligência artificial, está se associando ao Google, integrando a seus produtos as soluções contratadas. Talvez ela tenha descoberto onde está o verdadeiro sucesso nesta relação.
Em resumo: a Apple escolheu o necessário (ter IA) através de uma parceria para preservar o possível (sua cultura interna de foco em design e privacidade, sem ter que construir um motor de busca do zero agora).
O tempo dirá. Ajustar suas rotinas para conviver com estas realidades em seu negócio não é nada fácil. Evoluir neste contexto, menos ainda. Empresas e pessoas acabam perdidas neste furacão inovativo.
Uma pergunta surge: quais as rotinas pessoais e de negócio que facilitam a convivência nesta era?
A resposta não é fácil, mas começa com uma boa análise do contexto envolvido. Este é um assunto para os próximos artigos…
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Artigo publicado no portal Martinbehrend.com.br
























