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Home O 5 de Abril

Após associar hamburguenses ao nazismo e fascismo, funcionário público da Secretaria de Cultura esclarece a expressão cadela fascista

Redação | Martin Behrend Por Redação | Martin Behrend
07/04/2018 - 12:24
em O 5 de Abril
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Leitores do Portal Martin Behrend entraram em contato
indigados com uma publicação no Facebook. Hamburguenses já falecidos e outros
em vida foram associados ao nazismo e fascismo por um servidor público da
Prefeitura de Novo Hamburgo.

De forma covarde e ignorando desdobramentos históricos,
ocorreu uma associação unilateral da comunidade a estes dois movimentos, como
se milhares de hamburguenses tenham sido coniventes e ferrenhos defensores do
extermínio de judeus, discriminação, autoritarismo, racismo, censura e milhões
de mortes. Uma absurda e desrespeitosa generalização.

A manifestação partiu do professor de História Paulo Daniel
Spolier, concursado e lotado na Secretaria Municipal de Cultura – que tem à frente Ralfe
Cardoso, ex-militante do PT e PSOL, e outros vários integrantes vinculados a movimentos de esquerda. Ligado ao lulopetismo e aos movimentos da
esquerda brasileira, Spolier publicou nesta quinta-feira (5), dia do
aniversário de Novo Hamburgo, no seu perfil no Facebook, o seguinte texto
envolvendo a presença do pré-candidato à presidência da República, Jair
Bolsonaro (PSL), em Novo Hamburgo:

“Amanhã, o candidato fascista à presidência fará uma
palestra na associação comercial de NH. Os convites acabaram em poucos dias. O
fascismo tem genealogia: em 1935, os avós lotaram cinemas e sociedades nos
programas patrocinados pelo O.G. Hamburg do partido nacional-socialista. Em
1964, os pais vibraram e apoiaram os desmandos do golpe militar. Hoje são os
filhos… Bertold Brecht já avisava que “a cadela fascista está sempre no
cio”.

Junto do texto, Spolier, que recebe cerca de R$ 3 mil
mensais pagos pelos hamburguenses, publicou uma foto de programação de
cinema contendo a suástica – símbolo do Partido Nazista. A associação entre
texto e imagem é direta: os hamburguenses foram grandes defensores e entusiastas
do nazismo, e tudo que cerca esse conceito.

A publicação teve mais de 15 compartilhamentos, várias
curtidas, e ataques aos hamburguenses. Só que, de forma maldosamente pensada
ou descuidada, o professor esqueceu de informar uma parte dos fatos. Um erro
gravíssimo para quem se apresenta como estudioso da História.

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No começo da ascensão de Hitler, os imigrantes alemães no
Brasil, por escassez de informações, não tinham a real noção do que estava
ocorrendo na Europa. Inclusive, a bandeira do Partido Nazista chegou a ser hasteada no
Monumento ao Imigrante. Só que, à medida que o nazismo avançou, destruindo
cidades, dizimando famílias, a própria sociedade brasileira foi mudando de
atitude. O governo de Getúlio Vargas também alterou posicionamento.

Tanto é verdade que, em 4 de maio de 1945, o jornal O 5 de
Abril abriu manchete: “Berlim Caiu. Hitler morreu. “Não bate mais sobre a terra
o coração feroz do nazi-fascismo”. O 5 de Abril foi o primeiro jornal de Novo
Hamburgo. Foi o porta-voz da cidade por 35 anos. Até hoje é fonte de consulta
do professor Spolier, que trabalha com pesquisas na Diretoria de Cultura. Ele omitiu
um fato histórico: maldade pensada ou descuido? A quem interessa desqualificar
o empreendedorismo e manchar a história de cidadãos que construíram uma das
cidades mais prósperas do Rio Grande do Sul?

Em 1945, Novo Hamburgo festejou a derrubada do nazi-fascismo. Novo
Hamburgo repudiou o nazismo. Novo Hamburgo repudiou o fascismo. Houve bailes e
festas nos clubes da cidade. Ocorreram desfiles e comícios para celebrar o fim
da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso registrado na história. Por que o servidor
municipal omitiu um fato histórico: maldade pensada ou descuido? A quem
interessa desqualificar o empreendedorismo e manchar a história de cidadãos que
construíram uma das cidades mais prósperas do Rio Grande do Sul?

No texto do jornal O 5 de Abril, de 4 de maio de 1945, está registrado: “Mussolini cremado em praça pública, Hitler morto, marcam o fim trágico da existência sobre a face da terra, dos dois principais criminosos da história do mundo, dois apóstolos sinistros das forças do mal”.

Aliás, é desse período da Segunda Guerra Mundial que a
língua alemã foi proibida em todo Brasil, esfacelando uma tradição cultural que
acabou enfraquecida e alterando violentamente costumes e hábitos dos
hamburguenses, envolvendo leitura, canto, conversações e a tradição oral.

Em nome dos hamburguenses que tanto se dedicaram ao
desenvolvimento do município, em nome de tantas famílias que sofreram com a
falta de informação e decisões radicais do governo federal, em nome do respeito
aos que não estão mais aqui para se defender de acusações indevidas, o Portal
Martin Behrend atendeu a sugestão de pauta de leitores para que a correção dos
fatos prevaleça.

A registrar: quando o governo do ex-prefeito Luis Lauermann (PT) promoveu censura e discriminação com o Portal Martin Behrend, práticas inquestionáveis do nazismo e fascismo, não recordo do professor de História ter escrito algo em tom de indignação. Mesmo com repúdio oficial da Câmara de Vereadores e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS quanto aos tenebrosos atos de autoritarismo e afronta à liberdade de imprensa e liberdade de expressão.

Ao mesmo tempo, o Portal Martin Behrend procurou o servidor
público dando espaço para os seus esclarecimentos. Foram enviados os seguintes
questionamentos ao professor:


Essa manifestação envolve quais moradores de Novo Hamburgo –
avós, pais e filhos? Qual o teu objetivo
em classificar os hamburguenses como “cadela”? Acha coerente receber teu
salário como servidor público de tributos repassados por uma sociedade “cadela
fascista”? Por que segue, se essa sociedade tanto te ofende?

Confira a seguir os esclarecimentos enviados pelo professor
de História:

1. A expressão “cadela fascista” não é minha. O
filósofo e teatrólogo alemão Bertold Brecht a cunhou para ilustrar o perigo
permanente que a sociedade capitalista corre em cair nas mãos do fascismo,
sempre pronto a se mostrar como solução fácil em tempos de crise.

2. Desta forma, não chamei a comunidade hamburguense de
cadela, mas, sim, alertei sobre a genealogia fascista que se pode mapear,
documentalmente inclusive, em setores da sua elite.

3. Se olhares, e deves ter olhado, as páginas do 5 de Abril
na década de 1930, perceberá que a célula do Partido Nacional Socialista dos
Trabalhadores Alemães (NSDAP) de Novo Hamburgo era extremamente ativa: exibição
de filmes no Cine Guarany, ensopados no Frohsinn para auxiliar as vítimas do
inverno na Alemanha e até celebrações do solstício de verão, seguindo uma das
principais celebrações da Juventude Hitlerista.

4. Da mesma forma que o nazismo, Novo Hamburgo teve um dos
maiores, senão o maior, núcleos da Ação Integralista Brasileira (AIB) no Rio
Grande do Sul, movimento que historiadores como Hélgio Trindade caracterizam
como um “fascismo à brasileira” devido a sua semelhança estética e
programática com o Partido Nacional Fascista italiano.

5. Quanto ao povo de Novo Hamburgo pagar meu salário, tenho
muito orgulho da minha trajetória como servidor público nessa cidade: são 23
anos trabalhando junto às comunidades mais vulneráveis, geralmente esquecidas
pelos governos. Durante 15 anos trabalhei nos abrigos municipais, ajudando
crianças e adolescentes a reestruturarem suas vidas, buscando seu protagonismo
numa sociedade que, historicamente, os marginaliza. Não tenho como mensurar o
retorno emocional que esses hamburguenses me deram ao longo desse percurso, mas
cotidianamente sou agraciado com pais e mães de família me abordando na rua
para me mostrarem seus filhos e a família que eu ajudei, de alguma forma, a
construir.

6. Finalizado esse assunto, cito o jornalista Leonardo
Sakamoto, que em algum momento disse que um dos grandes males do Brasil é a
falta de interpretação de texto. Relendo meu post, podes perceber que fiz uma
linha histórica de apoio de certos setores da sociedade hamburguense aos
movimentos autoritários, que desembocam na palestra com o candidato à
presidência, notoriamente um indivíduo que exalta valores como a misoginia, o
racismo e a homofobia. É uma trajetória que, infelizmente, não está apenas
presa a Novo Hamburgo, mas que acompanha várias cidades brasileiras. Citei
Bertold Brecht, que caracteriza o fascismo como uma cadela num cio permanente,
permissivo e promíscuo, um risco permanente que, na atual conjuntura histórica
brasileira, se personifica na pessoa de Jair Bolsonaro. Em momento algum chamo
a sociedade hamburguense de cadela, leia o texto! Por fim, deixo registrado meu
respeito pela tua figura, pedindo que não te entregues a sensacionalismos dessa
monta, pois és muito melhor que isso, tu sabes!


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