Os vereadores Sérgio Hanich (PMDB) e Antonio Lucas (PDT) são, até o momento, os campeões na utilização das diárias da Câmara de Novo Hamburgo. Até julho e entrando no clima dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, o medalha de ouro é Hanich, com R$ 11.363,04. Lucas vem na cola garantindo a medalha de prata: R$ 10.243,13. Juntos, já foram reembolsados em mais de R$ 21,5 mil somente neste primeiro período de 2015. A conta deve aumentar até o final do ano.
Por que Hanich e Lucas viajam tanto? É que eles costumam participar das feiras calçadistas Couromoda e Francal, ambas realizadas em São Paulo. A justificativa oficial: é dever do Poder Legislativo fiscalizar a correta aplicação dos recursos investidos no estande coletivo da Prefeitura de Novo Hamburgo e verificar como estão os expositores do município. Na Couromoda, o valor da locação do espaço foi de R$ 319. 472,57; na Francal, o recurso foi de R$ 329.067,63. Nestes dois espaços, o município bancou praticamente R$ 650 mil em 2015.
Contudo, existem contradições e inconsistências neste comportamento. A primeira delas: por que vereadores precisam ficar quatro dias numa feira? Muitos comerciantes, jornalistas,
representantes comerciais,
industriais e até outros políticos – deputados e prefeitos –
ficam um tempo menor por lá. Por que parlamentares hamburguenses precisam ficar quatro dias em São Paulo por conta do dinheiro da população?
A segunda contradição é de ordem prática. Em três feiras do setor calçadista no Rio Grande do Sul – Fimec, em Novo Hamburgo, e Sicc e Zero Grau, em Gramado –, onde existe dinheiro público do município aplicado e onde expositores de Novo Hamburgo também fazem negócios, os vereadores não são vistos todos os dias circulando nos pavilhões. Em Novo Hamburgo e Gramado não tem como pedir diária, seria esse o motivo? São feiras calçadistas; tem dinheiro público investido; tem indústrias hamburguenses realizando negócios; por que em São Paulo os vereadores precisam quatro dias de viagem, se nestas outras não existe a mesma lógica, interesse e, acima de tudo, coerência?
Entrei em contato com os gabinetes dos vereadores Sérgio Hanich e Antonio Lucas. O parlamentar do PMDB retornou à ligação. Segundo Serjão, é importante que a Câmara saiba como estão os negócios no estande coletivo de Novo Hamburgo. Ele salienta que os expositores se sentem prestigiados com a presença dos vereadores, que podem atender demandas eventuais. “Temos a possibilidade de entender algumas das dificuldades de quem produz no município e se tem algo que possamos fazer”, explica Serjão.
Hanich conta que, neste período de quatro dias, além de ficar no espaço de Novo Hamburgo, eles circulam pelo local da exposição conhecendo projetos e visitando estandes coletivos de outros municípios para conferir se tem algo a ser sugerido. Em relação a feiras realizadas em Novo Hamburgo e Gramado, Hanich garante que visita os eventos, mas admite que não passa tanto tempo nos pavilhões. “É algo que a gente pode melhorar. Acompanhar mais de perto também o que acontece por aqui”, frisou.
Em relação ao vereador Antonio Lucas, ele não retornou à solicitação. Ontem, na TV Câmara, ele concedeu entrevista informando que a feira foi positiva para os expositores do município e que poderá ser realizado um encontro para que os demais vereadores saibam detalhes do que ocorre nas feiras.
A minha opinião: qualquer político que ficar mais do que dois dias numa feira calçadista está torrando dinheiro da população. Em dois dias, ficando nas oito ou dez horas de visitação, se conseguem fazer reuniões, contatos e tirar aprendizados. Se é tão importante ficar quatro dias na Francal e Couromoda, seria coerente que
ficassem os quatro dias de Fimec nos pavilhões da Fenac e visitassem diariamente a Sicc e a Zero Grau em Gramado. Ao menos se teria
conformidade – embora, insista: político que ficar mais do que dois dias num evento empresarial está usando de forma inadequada o dinheiro da sua comunidade.
PS: O investimento da Prefeitura no estande coletivo da Capital Nacional do Calçado é uma iniciativa saudável. O projeto vem sendo realizado há alguns anos e movimenta as produções de micro e pequenas empresas do município. A crítica construtiva ao projeto, contudo, persiste em algumas práticas e posturas que deveriam ser aperfeiçoadas pelo Executivo e melhor fiscalizadas pelos próprios vereadores.
