Foi uma manhã diferente. De resgate. De um gesto minúsculo
na imensidão do Universo, mas que me encheu de orgulho por ter salvado duas
pequenas vidas. Eram cerca de 10h15 desta ensolarada sexta-feira. Eu conduzia
meu veículo pela Rua Castro Alves, no sentido Colégio Pio XII-Sociedade
Ginástica. Ao cruzar pela Rua 25 de Julho, dois pontos escuros no asfalto me
chamaram a atenção. Estáticos. Imóveis. Levemente avolumados.
Reduzi a marcha e, ao me aproximar – praticamente em frente
à loja Smash – percebi que eram dois pássaros. Desviei de um, desviei de outro.
Será que atropelei?! No espelho retrovisor, vi que os pontos estavam lá,
imóveis. Não hesitei: coloquei pisca-alerta e parei de supetão; um carro que vinha atrás quase
colidiu com o meu – tudo foi em segundos. Consegui manobrar e estacionar.
Desembarquei e fui correndo até os pontos – ou pássaros.
Ao me aproximar, identifiquei: eram dois bem-te-vis gordinhos.
Seguiam imóveis. Pareciam em transe. Assustados. Eles pareciam duas estátuas
fixas no asfalto da Rua Castro Alves. Me agachei e abracei um deles com minhas
mãos. Leve reação das asas, mas nada mais do que isso. Levei a ave para junto
de uma árvore e fiz um carinho na cabeça. Olhei pra rua: o outro seguia na
mesma posição, com o bico aberto.
Nisso, passa minha mulher com seu carro:
– Martin, o que tu está fazendo?!
– Estou tirando esses pássaros da rua antes de serem
atropelados – respondi, agachado.
– Tá, mas te cuida pra tu também não ser o atropelado –
disse a Juliana, indo para seu compromisso.
Com um pássaro salvo, fui para a rua. Da mesma forma,
abracei o bem-te-vi, que nem reagiu. Levei para o mesmo local. Eles pareciam
estar bem de saúde, mas seguiam com movimentos contidos. Em função da insólita
movimentação, dois colaboradores da loja Smash vieram auxiliar no resgate. Eu
já estava me atrasando para um compromisso. Eles se prontificaram a levar os
bem-te-vis até a Agropecuária Pulo do Gato, que fica na esquina da Castro Alves
com a 25 de Julho. Deixei os pássaros e fui para meu compromisso.
Sei lá se é por causa do Dia dos Pais, fiquei quase todo
tempo pensando se as aves tinham sobrevivido. Assim que terminou minha reunião, por volta de 11h20, me joguei de volta até a Rua Castro Alves. Fui
até a agropecuária, mas os animais não estavam lá. O proprietário explicou: “Não
podemos manter essas aves nativas em gaiolas. Mas não estavam machucados. Eram
dois filhotes. Provavelmente, os pais expulsaram os filhos do ninho para que
eles tenham vida própria. E eles estavam sem saber o que fazer”. Ele ainda
informou que deixou os bem-te-vis com a turma da Smash.
Agradeci e me dirigi até a Smash. Lá, fui informado que
recolocaram os filhotes em galhos de uma árvore. Um voou praticamente na hora.
Outro, tinha ficado acomodado. Ao lado da proprietária da loja, Euza Lima,
fomos ver se encontrávamos os animais. Não estavam mais lá. Voaram. Para a
vida. Para novos desafios. Para sobrevoar por nosso mundo. Voem, bem-te-vis.
Voem em paz.
























