Foi um dos filmes mais aguardados do final de 2018, mas que
chegou sem alarde como mais uma opção no catálogo da Netflix para mais de 100
milhões de assinantes em todo o mundo.
O longa Roma, do cineasta mexicano Alfonso
Cuarón, não é daqueles filmes tipo cinemão, que a gente assiste comendo pipoca
e meia hora depois nem lembra mais direito sobre o que era.
É daqueles filmes que ficam conosco…
Vamos a uma breve resenha: Roma é o bairro em que Cuarón
morou na infância, na cidade do México, nos anos 70. O filme reproduz suas
memórias daquele tempo, tendo como protagonista a babá Cleo, que trabalha para
uma família da elite com suas crises e desmantelamentos.
Rodado todo em preto e
branco, abusa de cenas longas, às vezes com uma certa agonia, mas traz planos abertos,
perfeitamente estáveis, como que para ilustrar que não se trata de uma história
de explosões, sobressaltos ou emoções em extremo close-up.
A história, que percorre alguns meses da vida dos
personagens, é feita de sentimentos contidos, sorrisos tímidos e sofrimentos
abafados. Mas com alta dose de sensibilidade. O universo feminino, no qual
giram os acontecimentos, une classes sociais distintas em uma palavra tão em
voga e necessária ultimamente (ainda que seja uma palavra esquisita): a
sororidade. Termo que não chegou aos dicionários tradicionais da língua
portuguesa, mas que significa a irmandade entre mulheres. Para mim, a tônica de
Roma.
Vamos às curiosidades. Alfonso Cuarón é um diretor com consagrada
atuação em Hollywood (já dirigiu Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban,
ganhou Oscar por Gravidade, entre outros trabalhos de destaque) e que forma com
Alejandro Iñárritu e Guillermo del Toro um trio de cineastas mexicanos
brilhantes e premiados.
Cuarón emplacou com seu Roma (um filme que ele declarou
que tinha a necessidade de fazer, mas que duvidava que alguém quisesse ver)
vários prêmios – Festival de Veneza; Festival de Toronto; Globo de Ouro, Bafta,
de Londres… – e dez indicações ao Oscar de 2019. Além das esperadas
categorias de melhor filme estrangeiro e melhor diretor, concorre em outras
como melhor fotografia, roteiro, melhor atriz (para a índia Yalitza Aparicio, que
interpreta Cleo, em seu primeiro trabalho) e melhor filme.
Disseram que tantas indicações a um filme falado em espanhol
poderia ser um recado da Academia ao governo Trump e sua incansável campanha
pela construção do muro que dividirá os Estados Unidos e o México. É também a
prova de que a indústria do entretenimento finalmente aceitou a Netflix como um
dos players principais.
Mas é também a prova de que ainda existe espaço para um
filme sem grandes catástrofes, sem risadas exageradas, sem dramas
inverossímeis. É o sinal de que a vida como ela acontece, em suas miudezas,
tragédias particulares ou pequenas vitórias, é capaz de gerar empatia pelas
mãos de uma fotografia belíssima e a condução de um roteiro habilidoso.
Se você gosta dos blockbusters de Hollywood, talvez chegue
aos créditos finais e se pergunte: mas acaba assim? Agora, se você se permite
um momento mais contemplativo e está aberto a absorver a sutileza do cotidiano,
este é um filme que não passará em branco.
Talvez até saia do Oscar de mãos
abanando, mas Roma, nascido das memórias de infância de Alfonso Cuarón, já
entrou para o currículo do cineasta como sua obra prima.

























