Neste mês de abril
completo quatro anos de serviço a uma empresa do petróleo e gás natural. Apesar
de ter plena ciência que esta jornada ainda é relativamente curta, ouso afirmar
que já me deparei com diversos “mini ciclos” proporcionados pela a extrema
volatilidade deste setor da economia. Em um intervalo de apenas dois anos,
participei de projetos de ampliação de capacidade produtiva de fábricas para
suprir a demanda do mercado, e também já tive o desgosto de trabalhar na
direção contrária. Entretanto, nunca testemunhei um momento tão ruim como o
estamos enfrentando no ano atual.
São evidentes os
motivos do porque o setor de Oil & Gas está em colapso quando analisamos
exclusivamente o mercado brasileiro. O destino final dos produtos é sempre a
Petrobras, independente do cliente intermediário a quem mantemos uma relação
direta. Entretanto, é a somatização de cenários desfavoráveis dentro e fora do
Brasil que estão deteriorando o ramo e extinguindo todas as vias estratégicas
de conseguir respirar e sobreviver. Enquanto a estatal brasileira deixou de ser
uma opção confiável no curto prazo, o mercado exterior está enfrentando o menor
preço do barril de petróleo da década, fazendo com que as empresas
extrativistas não consigam chegar ao ponto de equilíbrio entre o custo de
produção e receitas na venda. Consequentemente, sem lucro, sem investimento.
Há quem diga,
entretanto, que existe uma tendência cíclica nos valores da commodity petróleo,
e que em breve o panorama do mercado deve se alterar devido à “mão invisível”
Smithiana. Tenho uma opinião que defende a diferença entre a crise atual e as
demais já enfrentadas pelo setor, entretanto preciso admitir a existência de um
padrão histórico com explicações macroeconômicas relativamente simples.
Ajustados a inflação
para melhor análise, compartilho com vocês, em anexo, um gráfico sobre o
comportamento histórico deste produto que tanto influência na economia mundial.
Como demonstrado, o preço do barril circundava os U$ 20 no início dos anos 70.
Já nos primeiros dias dos anos 80, oscilou na casa dos U$ 115. Chegou a retroceder
aos U$ 20 nos anos 90, e atingiu os U$ 140 na década seguinte. Em um cenário de
curto prazo, o preço do barril era de U$ 110 em 2014, e durante o ano de 2016
chegou a U$ 35.
Mas, afinal, qual o
motivo para tamanha volatilidade dos preços deste produto no mercado, e como as
empresas deste setor conseguem sobreviver em um cenário de tanta incerteza?
Primeiramente, vamos
iniciar a análise com a frase do célebre John D. Rockfeller, onde ele explica a
sobrevivência das empresas do setor de Oil & Gas afirmando que “o melhor
negócio do mundo é uma companhia de petróleo bem administrada e o segundo
melhor é uma companhia de petróleo mal administrada”. Em outras palavras, as
margens praticadas neste mercado são, em via de regra, altas o suficiente para
suportar as companhias durante momentos de crise. Essa afirmação é duplamente
verdade no Brasil, onde estatais como a Petrobras são utilizadas politicamente
para gerar empregos e valor dentro do país. Esta necessidade acaba muitas vezes
atando as mãos de administradores que precisam adquirir produtos que respeitem
o famoso conteúdo local, mesmo que muitas vezes não faça sentido financeiro
para a decisão de negócio.
Já quanto à mudança
constante dos preços é explicada por um conceito econômico: a elasticidade de
demanda. Por mais que o preço da gasolina venha a aumentar, não deixaremos de
consumir ela no curto prazo. Ainda precisaremos dirigir nossos carros ou
apanhar nossos ônibus para ir ao trabalho, e iremos compensar esta mudança de
custo de vida em algum outro consumo que temos durante o mês. Da mesma maneira,
nossa demanda por gasolina e derivados não sofre um aumento considerável quando
preços estão em baixa. Sendo assim, com uma demanda inelástica, qualquer
mudança súbita na oferta do produto tem o poder de aumentar ou reduzir os preços,
criando a conhecida manipulação de mercado dos países que controlam oferta. No
início dos anos 70, por exemplo, os ministros da OPEC votaram deliberadamente
em cortar a produção de petróleo em resposta para a crise política enfrentada
pelo oriente médio. Este corte da produção foi agravado pela guerra entre Irã e
Iraque em 1979, e o resultado pode ser observado no gráfico acima: o valor do
barril subiu de U$ 20 para acima de U$110 em um intervalo de dez anos.
O fato é que, já no
longo prazo, a demanda tende a aumentar a sua elasticidade com uma mudança
gradativa de tecnologia e consumo do mercado. Com os altos preços do petróleo
nos anos 80, os consumidores largaram seus Opalas com motor de 4.1 litros e 6
cilindros, e passaram a usar carros muito mais eficientes em consumo. Com os
altos preços do barril no início dos anos 80, empresas também passaram a
aumentar consideravelmente sua produção para aproveitar o lucrativo mercado. E
finalmente o a mão invisível atuou novamente trazendo o preço do barril para os
mesmos valores no início dos anos 70, perto dos U$ 20.
Esta combinação entre
comportamento do produtor em curto prazo, e a reposta do consumidor em longo
prazo, é o principal responsável pelas mudanças abruptas no preço do petróleo.
Eu acredito que o comportamento deste gráfico se assemelhe bastante a um
eletrocardiograma do profissional que trabalha na área, principalmente os que,
como eu, tem a difícil tarefa de trabalhar com previsões de longo prazo. O fato
que nestas idas e vindas do mercado, hoje, nos encontramos diante de um cenário
de crise generalizada para empresas do setor no Brasil, onde o mercado interno
está comprometido devido aos conhecidos problemas da Petrobras, o custo do
Brasil faz as operações locais serem inviáveis para empresas estrangeiras, e a
redução de preços da commodity superou o benefício da desvalorização cambial. Agora,
multiplique estes meus problemas para o país que teve no petróleo o seu segundo
produto mais exportado em 2015. Situação difícil para todos nós.

























