Quando nos mudamos para a cidadezinha de Soave, na Itália,
ficou no terraço um pequeno pé de amoras. A antiga proprietária me avisou que eu devia sempre cortar os galhos
para que não crescesse muito e também nunca trocar por vaso maior. Ela estava criando esse pé num estilo meio
bonsai. Mesmo assim, condicionado, nos
dava mini amoras, dolcissimas, para deleite nosso e da passarada.
Como não gostamos muito desse sistema condicionado de
criação de plantas, não cortávamos mais os galhos, mas, por outro lado, também não trocamos o vaso. No inverno, parecia um conjunto de galhos
secos e mortos. Mas na primavera se
revestia de folhinhas lindas, brilhantemente verdes.
Há mais ou menos dois meses, reavivando o nosso
terraço, decidimos tirar nosso pé de amoras do seu condicionamento, e o
transferimos para um vaso enorme, para que vivesse a plenitude da liberdade de
sua espécie. Ele simplesmente explodiu, mais que dobrou de tamanho.
Mas num crescimento muito desordenado, surpreendente. Alguns galhos ficaram enormes, outros não,
algumas folhas ficaram grandes, quase mudando o formato. Perdeu a forma. Invadiu o espaço das outras plantas, com a
menor cerimônia, e com muita falta de respeito. Plantas estas suas conhecidas e vizinhas por tantos anos.
As folhinhas do meio,
amarelaram, tipo: “se fôr para ser assim, prefiro morrer!” Não se adaptaram às novidades, aos novos
tempos de liberdade. Estavam acostumadas
ao tram-tram do condicionamento, e queriam continuar assim.
Estou pensando seriamente em cortar alguns galhos maiores,
para informar a planta de que ela é um arbusto, e não um coqueiro. Parece que não sabe lidar com sua liberdade repentina, não lhe foram
ensinadas as suas regras, e não tem iguais que a circundem para tomar como exemplo. Só plantas de outras espécies.
De qualquer maneira, ele deve aprender que um arbusto tem de
ficar mais repolhudo, sem galhos estapafurdiamente crescidos em relação aos
outros. A formosura e o bom viver, quase sempre, só se consegue na
convivência harmoniosa do seu próprio conjunto, e depois com as outras espécies.
Querido pé de amoras, estamos de olho em você, porque lhe
temos muito amor e carinho, e nos sentimos responsáveis por ter lhe brindado a
liberdade de ser!

























