Quem gritou o alerta mais forte, quem diria, foi o youtuber
Felipe Neto em seu Twitter, na quarta-feira, dia 4 de setembro, com uma frase
de efeito: “É o fim de uma era, onde muita coisa vai mudar daqui pra frente no
YouTube e no conteúdo infantil no mundo inteiro”.
Felipe se refere ao fim da monetização de vídeos infantis na
maior plataforma de vídeos do mundo, o YouTube. Vamos, por partes, entender o
que isso significa.
Nesta mesma quarta-feira, dia 4 de setembro, havia sido
divulgada uma multa de 170 milhões de dólares que o YouTube foi condenado a
pagar pelo FTC, órgão americano de defesa ao consumidor, que seria equivalente
ao nosso CADE aqui no Brasil.
O crime? Levantar dados privados das crianças e pré-adolescentes (incluindo um
código do navegador que registra o histórico de sites acessados) e fornecer os
dados a anunciantes – e mentir às empresas que estivesse infringindo a lei. Ou
seja, o site coletou ilegalmente informações pessoais de menores de 13 anos,
sem autorização dos pais, e usou esses dados para lucrar com anúncios publicitários.
Nos EUA, isso é violação de uma lei federal que protege a privacidade infantil.
Em
consequência disso, o que acontece? O YouTube então anunciou que conteúdo
infantil não será mais monetizado pelo sistema “personalized ads” da
plataforma. Vídeos infantis também não terão mais comentários habilitados e não
enviarão notificação para os inscritos. Essas mudanças têm prazo de quatro
meses para entrar em vigor, a partir de agora. Ou seja, devem estar implantadas
em 2020.
Os canais
kids e os vídeos de conteúdo infantil representam uma parcela gigantesca do
negócio do YouTube. Quem tem filhos, sobrinhos ou convive com crianças sabe:
desde pequenas, elas aprendem a acessar seus vídeos e canais favoritos
rapidamente. O Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI) apurou em
pesquisa de 2017 que 85% das crianças entre 9 e 17 anos era usuária de
internet. Delas, 77% usaram a web para ver vídeos online.
Em 2016, dos 100
canais do YouTube com maior audiência no Brasil, 48 eram voltados a crianças. E
elas passam muito tempo conectadas: quase seis horas por dia em média, segundo
levantamento do app Guardian, um aplicativo para controle dos pais.
Bom, então como fica? Os vídeos de conteúdo infantil não
terão mais anúncios que utilizem os dados de navegação do usuário na base do
algoritmo – sabe aqueles anúncios que te mostram justamente o que você andou
pesquisando, digitando, assistindo?
Os canais infantis também não terão mais
monetização – geração de receita através de anúncios. Isso impacta vários
produtores de conteúdo, inclusive os influenciadores mirins, por exemplo, com
canais administrados por pais e, muitas vezes, com uma boa renda diante de
milhões de inscritos e visualizações.
Quem pretende seguir produzindo conteúdo para crianças – e
vivendo disso – terá que procurar outras fontes de renda, como parcerias,
merchandisings, etc. Fica melhor para quem assiste? Não sei.
Penso que a TV
infantil aberta mudou bastante (e quase sumiu) nos últimos anos com a regulação
da publicidade direcionada às crianças, o que é salutar na medida em que segura
um pouco o estímulo ao consumismo. Esse público migrou para a internet. Se o
controle funcionará no YouTube, somente o tempo – e as métricas – irão mostrar.

























