Tocou o
telefone na casa da jovem senhora e uma voz aflita avisou: sua mãe estava se
sentindo muito mal, com grave falta de ar. Passariam com a paciente aí em casa, de carro, e levariam a moça junto, pois era bem relacionada no hospital.
Chegaram
rapidamente, mas aconteceu uma coisa curiosa na chegada da viatura que
transportava a desarejada senhora. Apesar da gravíssima falta de ar anunciada, ela portava entre os dedos
seu indefectível cigarrinho. Afinal, ela que fumava cerca de dois maços por dia
não iria aguentar todo aquele tempo de trajeto até o hospital sem algumas
pertinentes tragadas. Poderia lhe faltar o ar nos pulmões, mas nunca a fumaça do
seu cigarrinho.
E é por aí
que somos o que somos. Todos que temos alguma disritmia patológico
procuramos rapidamente uma solução médica para o nosso mal. Mas isto vem quase
sempre acompanhada com uma ressalva. Qualquer remédio, raro, caro até
doloroso, mas que não nos prive de
consumir aquilo que nos provoca o desconforto, aquilo que nos faz mal.
Vejamos
alguns casos. A obesidade é responsável pela hipertensão, destrói a coluna
vertebral, é causa de imenso desconforto para dormir, roncos, dores nas costas.
Precisamos emagrecer, fazer exercício, o que for preciso, mas sem parar de
consumir aquelas tão gostosas e generosas porções de comida..
Qualquer
coisa para curar a bronquite e a tosse renitente, mas é impossível parar de
fumar.
O câncer de
esôfago é muitas vezes o resultado da ingestão da água muito quente do chimarrão
adicionada de alguns goles de uma mui amada cachacinha, mas parar como?
Minhas
hemorroidas não suportam aquelas pimentinhas vermelhinhas no tempero, fico com
o rabo que é uma hortênsia (é pior que
rosa e era verão na serra). Mas aquelas pimentinhas eram boas demais…
As minhas
mãos vivem em ferida por causa do detergente, mas é tão incômodo lavar a louça
com sabão…
E a
osteoporose que as mulheres devem prevenir ao longo da vida com ingestão de muito cálcio. “Não gosto de
leite”; ou “Leite? Só umas gotinhas no café!”
Quer dizer,
precisamos tratar nossos males a qualquer custo, remédio ou tratamento, mas sem o sacrifício supremo
da renúncia, sem abdicar do malefício da causa.
Enfim, somos
o que somos.

























