O mês de setembro de 2018 marca o aniversário de 80 anos do
nascimento do fascismo e do racismo na Itália.
Foi em setembro de 1938 que Benito Mussolini reuniu uma multidão enorme, na mais famosa praça de Trieste, explicando num comício que iria “limpar” as
escolas de crianças filhas de hebreus. E o povo
acenava e gritava em concordância, numa demonstração de consciência coletiva
assustadora.
A menina Liliana Segre, filha de judeus, então com 8 anos,
esperava as férias de verão terminarem para voltar à escola, quando soube pelo
seu pai que tinha sido expulsa. A única pergunta que fazia e pensava era: por quê?
O pai, então, pediu que a professora de quem ela tanto
gostava fosse até sua casa para explicar os motivos. Ela foi. E, ao invés de um abraço ou um
sorriso, apenas uma grande indiferença, dizendo que não era ela que fazia as
leis na Itália, e que obedeceria cegamente. E foi embora, sem olhar para trás.
Liliana começou a sentir o que era ser diferente, o que era
não ser aceita. Sua culpa? Ter nascida numa família de hebreus. Seus pais lhe pediram desculpas por a terem
gerado.
Todos os vizinhos e amigos lhes deram as costas. A família pediu asilo na Suíça, que negou. Lá, foram presos, separados e levados para o campo de concentração em
Auschwitz. Saiu de lá aos 15 anos, com o
final da guerra, marcada para sempre.
Hoje ela é senadora vitalícia na Itália, aos 88 anos, de
muitíssima lucidez, e tem um projeto de lei visando à eliminação das
manifestações de racismo.
Mas o motivo desse relato é que essa mulher contou, num
programa de televisão, o que mais marcou ela em todo esse período: a indiferença! A indiferença da professora, dos colegas, dos amigos, dos vizinhos. De um dia para o
outro, todos se transformaram, ficaram indiferentes ao sofrimento de pessoas
que supostamente queriam bem, para obedecer a um líder. Todos os bons sentimentos ficaram sepultos,
o povo seguia sua vida, a cidade seguia
seu turno, indiferente a tudo o que acontecia.
Num dos muros do corredor por onde passavam as pessoas para
serem levadas aos campos de concentração, na estação de trem em Milão, quiseram
fazer uma homenagem. E ela não teve
duvidas: escreveram em baixo relevo, e bem grande, a palavra INDIFFERENZA.
Teve, neste período todo, só um gesto amigo. Uma outra mulher no campo de concentração deu a ela uma metade de uma rodelinha de cenoura. Isso foi tão importante para ela que nunca
mais esqueceu: alguém se privou de uma coisa, e deu a ela. O contrário da Indiferença.
A indiferença é mesmo motivo de muita dor. É a ausência do
amor, e até do ódio. É nada. Quantas vezes somos indiferentes ao sofrimento? Quantas
vezes nos rendemos ao sistema, e em nome dele ficamos indiferentes aos nossos
semelhantes?
Por isso, neste momento politico que estamos vivendo, temos
a chance e até mesmo a obrigação de não sermos indiferentes ao que está se passando.
Estamos todos discutindo, alguns de forma pouco educada, outros em discussões
que dá prazer de participar. Mas, antes
de tudo, devemos pensar para poder
colocar as nossas opções abertamente.
Não ser indiferente é por si só um ato de amor.

























