Escuta genuína, perguntas abertas e antifragilidade: o passo a passo de um diálogo transformador.
Segunda-feira, 7h30min.
Posso conversar contigo?
A semana inicia com uma solicitação um tanto inusitada. André, colaborador que está há 10 anos na empresa, estudioso e dedicado, conhecedor de tecnologias importantes ao negócio estava esperando Bruno chegar.
Bruno era o CEO de uma empresa de tecnologia com 15 anos de existência. A empresa havia iniciado em sua residência e, com o crescimento, avançou para uma instalação moderna, fluida e integrativa.
Todos colaboravam com imensa facilidade. As soluções eram robustas e flexíveis. A agilidade do time surpreendia até os melhores concorrentes. Bruno estranhou. André era uma pessoa de confiança e dificilmente pedia ajuda ou orientação.
Sempre que se dirigia à direção trazia questões profundas e complexas. Bruno pediu que ele fosse a sala de reuniões em 10 minutos.
Começando o quebra-gelo
Como todo Líder Mentor experiente, ele começou a analisar a comunicação verbal e não-verbal de André. Com sua perspicácia, procurava trazer a mente as interações da semana anterior. Ao mesmo tempo, se manteve sem nenhuma antecipação ou ansiedade, mantendo a mente de principiante de sempre.
Foi até a sala de reunião, com um sorriso no rosto, e perguntou a André: como foi o seu final de semana?
André respondeu com a educação de sempre:
– Muito bom! E, ao mesmo tempo, um pouco desconfortável.
Sondando a origem
– Mesmo? O que houve?
– Bruno. Nem sei como lhe falar.
– Diga, sem receio. Estou aqui para lhe ouvir.
Neste momento o CEO abre um bloquinho de anotações em branco, movimenta-se na cadeira em direção à André, demonstrando interesse real no que estava sendo dito, mantendo o contato visual diretamente nos olhos do liderado.
– Bruno. Estou preocupado com meu trabalho. Não sou mais o mesmo. Vejo jovens com a metade da minha idade conseguindo resolver problemas mais rapidamente e com outros caminhos escolhidos. É como se o que aprendi não tivesse mais o mesmo valor.
A expressão de apreensão estava muito perceptível em André. Cabe ao Líder Mentor manter o foco no problema central. Ou seja: usar as perguntas abertas para ter mais elementos para auxiliar.
– O que te levou a pensar isto, André?
– Bruno. Não sei. Estou mais inseguro depois que fiz 40 anos.
– Que tipo de insegurança?
– Parece que quando finalizo um serviço, não tenho mais a mesma certeza de antes. Muitas vezes quero pedir ajuda e revisão de alguém, mas fico com vergonha. Sabe como é: não quero demonstrar que não sei determinados assuntos.
– Na sua visão, o que significa ser competente em um ambiente no qual o conhecimento muda tão rapidamente?
– Não sei bem. Então….Acabei de perceber que não é só o conhecimento que determina isso. Estou me sentindo perdido. A velocidade das mudanças me confunde.
– A todos nós. Pensa que não acontece comigo?
– Sério!? Você parece ser uma pessoa com muita autoconfiança.
– Sim. Eu sou. Mas diante de tantas inovações, precisamos desenvolver a resiliência e a antifragilidade. Há como se fechar para qualquer assunto, atualmente?
– De forma alguma. Mesmo os assuntos que não sejam da nossa especialidade?
– Reflita André. A forma como trabalhamos hoje mudou nestes 10 anos que estás aqui?
Com esta pergunta, o Líder Mentor formulou algumas hipóteses do que está acontecendo. Não significa que ele tenha certeza. Para isso, é preciso validar.
Validação do problema central
– Concordo. Mudamos diversas vezes. Não há como ser diferente.
– Então, André, mudar e se adaptar, permanentemente, faz parte da realidade atual?
– Sem dúvida. Não sei por que ainda me incomodo com isso.
– Somos seres humanos. É natural. Por isso lhe pergunto: é a velocidade das mudanças ou ampliação do escopo de conhecimentos necessários que te incomoda?
– Acho que é a quantidade de conhecimentos fora de meu campo de atuação. Preciso ampliar meu repertório em várias disciplinas.
– Esta é uma boa solução. Quando você sente que precisa conhecer algo fora de sua especialidade, o que costuma fazer?
– Estudar e perguntar a quem sabe mais sobre determinado assunto. Ou, pesquiso em várias IAs.
Sem perceber, André já havia saído da queixa e começado a desenhar um caminho. Desde o quebra-gelo, a sondagem e a validação, o Líder Mentor valeu-se de perguntas que o auxiliaram na navegação em torno da questão central que o mentorado referenciou.
Agora é o momento de ampliar o ambiente seguro, a fim de que a solução apareça. E de preferência, a partir do discernimento do próprio liderado.
O problema central pode não ser somente a ampliação dos conhecimentos exigidos. Pode ser também a interpretação de que precisar aprender algo novo significa ter perdido competência (outra hipótese para a próxima sessão).
A solução que aparece
Neste momento o Líder Mentor deve perceber na fala do mentorado que há um caminho a seguir, mesmo sem todas as questões respondidas. Bruno percebeu que André já não falava apenas de medo. Falava de possibilidades…
– Qual será o primeiro sinal de que você está avançando?
– Será que posso criar um grupo de estudo e vivências de casos reais na empresa?
– Bela iniciativa. Uma ação vale mais do que mil palavras. Como pensa em fazer?
– Pensei em trazer meus colegas de diversas áreas para compartilharmos experiências. Tenho certeza de que há mais pessoas nesta situação.
– Muito bom. O que deseja de mim?
– A sua permissão.
– Crie um experimento pequeno, com um objetivo claro e um prazo de validação. Em uma semana, me apresente o projeto.
Naquele momento, André não havia encontrado uma resposta definitiva para todas as suas dúvidas. Mas havia encontrado algo mais valioso: uma solução que fazia sentido para ele, para seus colegas e para a empresa.
– Uma semana? Pensei que você precisasse de um tempo para refletir.
– André. Confio em você. Tenho certeza de que suas intenções e necessidade são reais e podem beneficiar a todos.
– Adorei. Muito obrigado! Vou construir o projeto com meus colegas e na próxima semana lhe mostro. Pode ser?
O feedback que humaniza
– Claro! Mas, antes disso, vamos ao feedback. O que aprendemos?
– Aprendi que preciso ter mais momentos de reflexão e menos ansiedade. O que ocorreu aqui nesta sessão é uma das principais razões para que eu me mantenha motivado e engajado na empresa. Você escuta, Bruno.
– Obrigado. Como já falamos diversas vezes, faz parte de nossa cultura a clareza, a transparência e a confiança. Você é um excelente colaborador. E percebo que sua solução pode beneficiar a todos. No final do dia, todos nós precisamos evoluir. E mais:
– Não esqueça de me inserir no grupo de trocas e vivências. Também tenho muito a aprender com todos vocês.
– Obrigado, Bruno.
– Agradeço em nome de todos. Parabéns por transformar um problema pessoal em uma possível solução coletiva.
Em todos estes anos de prática da mentoria, consolidei uma convicção: quando há escuta genuína, respeito e confiança, criam-se condições para que as pessoas se sintam acolhidas e assumam maior responsabilidade por sua evolução pessoal e profissional.
Ser líder mentor é uma conquista, um privilégio e um aprendizado permanente. É empolgante perceber a evolução e o crescimento de cada ser humano que tive a honra de mentorar.
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