A rotina de trabalho se transforma em uma escola evolutiva. Além de preparar as pessoas, é necessária a ampliação das possibilidades pessoais e coletivas, levando em consideração um contexto de incertezas e permanente aprendizado contínuo.
A abordagem da liderança mentora tem este foco. Como fazer?
Neste artigo, inicio a fase prática da abordagem. Tenho fundamentado os elementos que a justificam na série de artigos que tenho produzido. Como a atuação da liderança ajuda a definir a cultura organizacional, a abordagem tem um papel estratégico no contexto do negócio.
Visão evolutiva
As relações de trabalho ainda são lastreadas no poder formal do cargo (Potestas) e menos na autoridade legitimada, concedida e atribuída do liderado (Auctoritas). Para que esta transformação aconteça, são necessários dois pilares: a clareza do que é esperado da pessoa e a abordagem que dinamiza a relação e propõe a ampliação de potenciais ocultos.
A clareza do que é esperado da pessoa traz um terreno seguro de atuação diária. Estimula a autonomia e a criatividade em torno das rotinas. Propicia a troca de ideias construtivas em torno da evolução do negócio e da pessoa.
É a arte de estabelecer os limites do papel de cada um, sem fechar espaço para a autoria e autonomia.
É neste momento que começamos a avançar para a experimentação. Mantemos o que está estabelecido e testamos novas possibilidades. Ou seja, não tratamos somente da execução das tarefas, mas da aplicação dos papéis do Líder Mentor, diariamente:
O observador profissional, o estrategista cultural, o guardião da segurança psicológica, o perguntador provocador, o curador de contextos, o nexialista, o educador e o orquestrador intencional.
Abre-se espaço de experimentação na correria diária, criando o contexto necessário para a dinamização da relação. O espaço de experimentação é um momento de desafios motivadores em torno da evolução.
Do terreno seguro à zona de descoberta
Quando o líder estabelece com clareza o que é esperado — alinhando entregas, papéis e limites operacionais —, ele remove a ansiedade da ambiguidade. A pessoa sabe exatamente em que solo está pisando. É a partir desse ponto de apoio estável que o Líder Mentor introduz o elemento de expansão, com a seguinte pergunta provocadora: e se fizermos diferente?
É neste momento que a rotina deixa de ser apenas cumprimento de tarefas e passa a ser um laboratório da carreira. A experimentação intencional não exige que o negócio mude do dia para a noite ou que os processos essenciais sejam abandonados.
Adota-se a lógica da ambidestria: mantemos o “avião voando” com excelência no presente, enquanto testamos novas rotas em escalas futuras, de forma escalonada.
Perceba, não é uma discussão em torno da ideia do líder versus o que o liderado entende e sugere. É uma relação construtiva em torno de novas possibilidades incertas: e se fizermos diferente?
O Líder Mentor, como estrategista cultural, já organizou antecipadamente um espaço de tempo destinado a este momento de provocação evolutiva. Já comentou sobre o tema, já percebeu as reações do liderado e criou um ambiente de segurança psicológica.
Condição básica para a criação de um laboratório de aprendizagem. Nele, aprendemos com os erros e acertos, permanentemente.
A prática da sondagem e da provocação
Na dinâmica diária, quando o liderado traz um problema, uma dúvida ou até mesmo um erro produtivo, o Líder Mentor resiste ao impulso de entregar a resposta pronta. Ele ativa, intencionalmente, a sequência prática da abordagem:
- O quebra-gelo: acolhe a pessoa, reduzindo o gatilho de defesa da amígdala e estabelecendo segurança psicológica imediata;
- A sondagem: em vez de julgar ou minimizar a importância do tema, ele investiga com empatia cognitiva e emocional o pensamento que produziu aquela ação ou resultado (O que te levou a essa linha de raciocínio?);
- Predisposição: o Líder Mentor tem a preocupação empática e a empatia compassiva, para se disponibilizar automaticamente ao auxílio e ampliação do tema, levando em consideração, concomitantemente, o impacto no negócio, na relação e na pessoa;
- A pergunta como leme: uma premissa fundamental. Ao invés da resposta, a pergunta exploratória, de preferência aberta, para ativar a consciência. O mentor faz a pergunta provocativa que faz o liderado perceber o que ainda não estava vendo, estimulando a neuroplasticidade e a autonomia.
A partir de um contexto compreendido com mais profundidade, partimos para a experimentação com dedicação. Em suma: além de um treinamento de como fazer melhor as rotinas, partimos para a ampliação dos potenciais ocultos da questão em voga.
Objetivamente: a abordagem ajuda na evolução da carreira de ambos. O Líder Mentor é um aprendiz eterno: ele aprende, desaprende e reaprende a cada interação e iteração. Seu êxito é o sucesso do outro.
Seu prêmio indireto é a sua própria reinvenção. É este estímulo comportamental que ativa a motivação da pessoa e a liderança por atribuição (Auctoritas).
A carreira em coautoria
Esse processo transforma radicalmente a relação de subordinação em uma parceria de coautoria. O liderado deixa de ser um mero executor de ordens para se tornar o autor das suas próprias soluções e, por consequência, o principal responsável pela evolução de sua carreira.
Propicia a real participação da pessoa nos processos de trabalho. Gera a compreensão de sua responsabilidade com a organização e da sua importância no todo. Abre as portas da autonomia real em sinergia com as necessidades da pessoa e da empresa.
Por estas razões, o Líder Mentor não mede seu sucesso pelo controle que exerce, mas pela autonomia que gera.
Ao transformar a rotina em uma escola evolutiva, ele prova que o verdadeiro desenvolvimento profissional não acontece somente em treinamentos esporádicos ou em entregas isoladas, mas na qualidade das interações de cada segunda-feira.
Crie as condições para que este ambiente seja implementado no seu negócio. Ele é a base necessária a instalação de um processo de evolução e inovação permanente na empresa.
Empresas globais de ponta já adotam essa lógica. Na Pixar, por exemplo, o comitê de líderes (Braintrust) atua exatamente sob a premissa da sondagem e da coautoria: diante de um erro de roteiro ou de uma falha de animação, o gestor não impõe a solução, mas usa perguntas profundas para fazer o diretor enxergar o que ainda não via, transformando o erro em combustível para a próxima iteração.
Lembrando: o Líder Mentor é um curador de contextos. O que vem a seguir no processo de experimentação?
Já temos o contexto para o próximo artigo. Siga comigo neste processo de Liderança Mentora para tempos incertos, acelerados, de inovação e aprendizados constantes.
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