O Japão será sede, pela primeira vez, das Surdolimpíadas, nome adotado para as Olimpíadas para Surdos.
Em 2025, as disputas reunirão milhares de atletas em Tóquio, na 25ª edição deste evento mundial, que será realizado de 15 a 26 de novembro.
A edição anterior das Surdolimpíadas foi disputada, em 2022, em Caxias do Sul, sendo o Rio Grande do Sul a primeira sede na América Latina a receber a competição em quase um século.
O evento é organizado pelo Comitê Internacional de Esportes para Surdos e teve sua primeira edição em 1924, em Paris, na França. No Brasil, a organização responsável é a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS).
SELEÇÃO MASCULINA DE VÔLEI
Com a vaga garantida nas Surdolimpíadas deste ano, a seleção masculina de vôlei vem realizando treinamentos em diversos locais do país para definir os convocados que viajarão ao Japão. Neste final de semana – de 2 a 4 de maio – os surdoatletas estiveram em Novo Hamburgo. Foram 20 jogadores de diferentes destinos. Eles foram recebidos e ficaram alojados na Fundação Evangélica, uma das unidades da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH).
Sob comando do técnico Alex Hiath e do auxiliar Carlos Augusto Filho, o Carlinhos, a seleção realizou, na tarde deste sábado (3), um amistoso contra um combinado formado por alunos e ex-alunos da Fundação, comandados pelo professor Alexandre Höher. “Fomos muito bem recebidos aqui na IENH, com material de trabalho e condições de fazermos bons treinos”, elogiou Hiath. O treinador aproveitou para observar todos os atletas, fazendo diferentes análises e rodando a equipe ao máximo para montar um grupo competitivo. A foto abaixo mostra os jogadores e comissão técnica dos dois times reunidos após o amistoso.

A história de Alex Hiath com a seleção de surdos começou em 2012, quando a cidade de Praia Grande recebeu o Campeonato Pan-Americano. Naquela oportunidade, atuou como auxiliar técnico. Depois, assumiu como preparador físico do grupo masculino nacional. E, atualmente, é o treinador. Natural de Praia Grande, em 2010, Hiath formou-se em Educação Física na Universidade Santa Cecília (Unisanta).
Embora a surdez seja um limitador na comunicação dentro de quadra e nas orientações do treinador, a deficiência auditiva nem sempre é o maior dos obstáculos. A falta de apoio financeiro é um entrave para uma evolução mais completa. Como os surdoatletas não estão contemplados nos Jogos Paralímpicos, eles ficam ainda mais distantes de patrocínios e incentivos. “O pessoal tira do bolso para poder viajar e poder treinar. Estamos sempre em busca de locais para nos reunirmos. Viemos a Novo Hamburgo e estamos felizes pela receptividade. Os próximos locais serão em outras cidades brasileiras que também nos sinalizaram algum apoio”, comenta Hiath.
Esse cenário de falta de suporte financeiro, lentamente, começa a mudar. Após muita luta e articulação, alguns surdoatletas passaram a ser contemplados pelo Ministério do Esporte (MEsp), do governo federal, com o programa Bolsa Atleta, o que representa um avanço e a expectativa de dias melhores – no final da reportagem tem mais detalhes. Mesmo assim, a presença da seleção brasileira nas Surdolimpíadas deste ano ainda depende de patrocínio, principalmente para garantir passagens e hospedagem.
HAMBURGUENSE
Um dos destaques da seleção masculina de surdoatletas é o hamburguense Lucas Bonalume Vieira, 37 anos. Ele já disputou as Surdolimpíadas de 2017, na Turquia, e de 2022, no Brasil. Se for confirmada a convocação para Tóquio, em 2025, será sua terceira Surdolimpíada.
Ex-aluno da IENH, ele se sentiu em casa nos treinamentos da seleção. “Estou feliz em estar treinando aqui, um local que conheço tanto”, destacou. Entre os presentes no ginásio da Fundação Evangélica, estava o ex-coordenador esportivo da IENH Márcio Marks, que treinou Vieira. “Ele é acima da média, sempre se destacou”, comentou Marks. O atual coordenador esportivo da IENH, Mário Kickhofel, também acompanhou a movimentação e elogiou o hamburguense. “A carreira dele é de atleta de ponta, desde as categorias de base”, lembrou.
Com 1,99 metro, Lucas Vieira se aproximou da seleção surdolímpica em 2014. Antes dessa etapa, ainda como juvenil, ele já tinha feito uma carreira de destaque no vôlei gaúcho e brasileiro.
O hamburguense já conquistou alguns títulos atuando pela equipe brasileira. Em 2014, foi campeão Sul-Americano, e em 2016 venceu o Pan-Americano, além de alcançar o quarto lugar no Campeonato Mundial (Lucas foi o maior pontuador), sempre defendendo a seleção nacional. A foto abaixo foi durante os treinos realizados na Fundação Evangélica.

Vieira faz uso de aparelho auditivo e consegue ter uma comunicação perto do normal. Só que, em quadra, não é permitido o uso de aparelhos. Com isso, a comunicação entre os companheiros durante as partidas exige uma atenção ainda mais especial. Existem os surdos oralizados e os surdos sinalizantes. São comunicações diferentes, já que os oralizados conseguem compreender mais facilmente. A leitura labial e as Libras passam a ser importantes. Até mesmo bater o pé no piso é uma forma de chamar a atenção entre os jogadores.
Casado e pai de duas meninas (uma com audição normal e outra com a mesma surdez do pai), Lucas Bonalume Vieira trabalha na Receita Estadual, em Novo Hamburgo. Formado em Sistemas de Informações pela Universidade Feevale, o vôlei é uma grande paixão.
CBDS
No dia 12 de abril, a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS) comemorou 40 anos. O Ministério do Esporte vem buscando investir cada vez mais em parcerias com a entidade e apoio institucional.
Num país em que existem quase 10,7 milhões de deficientes auditivos, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), muitos surdos encontram no esporte uma forma de melhorar sua condição de vida e conseguir o reconhecimento da sociedade.Por isso o apoio institucional do Ministério do Esporte contribui para o acesso a políticas públicas.Em 2024, para melhorar a vida das pessoas com esse tipo de deficiência, o MEsp incluiu nos editais do programa Bolsa Atleta – pela primeira vez – atletas surdos, iniciativa que já está beneficiou 227 surdoatletas das cinco regiões do Brasil, totalizando um investimento de R$ 967.444,00.
A Confederação Brasileira de Desportos de Surdos conta com 4.987 atletas, 1.140 profissionais que atuam nas comissões técnicas, 21 entidades filiadas e 128 clubes, que formam a rede que atua em todo o país com crescimento exponencial. A entidade age na inclusão social das pessoas surdas por meio do esporte.
























