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Home Região

Com desinformação e boatarias, direção do Museu Visconde de São Leopoldo divulga carta sobre Casa do Imigrante

Redação | Martin Behrend Por Redação | Martin Behrend
26/03/2019 - 10:21
em Região
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Desinformação e boataria estão contaminando uma situação triste e vexatória: o desabamento de parte da Casa do Imigrante, em São Leopoldo.

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No dia 5 de março deste ano, o Portal Martin Behrend publicou a queda de parte da estrutura da histórica casa: http://www.martinbehrend.com.br/noticias/noticia/i…

Com o prejuízo sendo uma realidade, há uso político e de interesses pessoais de informações envolvendo a situação da casa. Dessa forma, a direção do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo decidiu publicar uma “Carta Aberta – Casa do Imigrante”. O objetivo é levar ao conhecimento da população o que vem ocorrendo. O texto de quatro páginas é assinado por Cássio Tagliari (presidente) e Renata Rotermund (vice-presidente).

Confira a carta na íntegra:

“Prezada comunidade.
Passadas três semanas do lamentável evento que culminou no desabamento parcial da Casa do
Imigrante, na Feitoria, mantendo nossa postura de total transparência, gostaríamos de tornar pública
esta carta direcionada a todos aqueles que, direta ou indiretamente, têm apreço por tão importante
patrimônio gaúcho e nacional.

Histórico da Casa do Imigrante

Acredita-se que a Casa da Feitoria tenha sido construída, originalmente, ainda em 1788, para
ser a sede da Real Feitoria do Linho Cânhamo, quando se sua instalação nas terras que hoje
compreendem alguns municípios ao longo do Rio dos Sinos. Em 31 de março de 1824, a fazenda é
extinta, seus escravos são levados para o Rio de Janeiro e suas terras, juntamente com outras áreas,
são destinadas para a criação da Colônia Alemã de São Leopoldo.

Em 25 de julho de 1824, quando os primeiros 39 alemães desembarcaram na atual cidade de
São Leopoldo, foi a Casa da Feitoria – em estilo português e recém desativada – utilizada para abrigá-los, visto ser na época uma das únicas edificações em toda a região. Na mesma noite, foi realizado lá
o primeiro culto luterano em terras gaúchas. Com o passar dos anos e prosperar da colônia, o prédio
acabou sendo relegado ao esquecimento, passando a ter usos diversos.

Nas primeiras décadas dos anos 1900, o prédio e as áreas em suas cercanias, foram adquiridos
por grupos ligados à Igreja Luterana e à Igreja Católica. Já na ocasião, se entendia o grande valor
simbólico daquela edificação para a comunidade teuta como um todo. E que a preservação desse
espaço de memória não poderia ficar sob responsabilidade pública. Inclusive, nas reuniões que
antecederam os festejos do centenário da Imigração Alemã, em 1924, ficaram registradas as
preocupações já existentes na época, com o abandono do prédio e na necessidade de sua
revitalização.

No final dos anos 1930, as comunidades religiosas contratam a elaboração de um projeto de
reforma da casa, já em ruínas e parcialmente desabada. O país vivia, então, sob a ditadura do Estado
Novo, um período de radicais transformações que impactariam a região como um todo. O interventor
do município, Cel. Theodomiro Porto da Fonseca, dentro de um vasto programa municipal de obras,
“sugere” a encampação da área pela Prefeitura. Não possuindo os recursos para a reforma e em
função do clima político, os grupos religiosos concordam com essa transferência, deixando explícito
no contrato, porém, que aquele local deveria ser destinado à instalação do “Museu Colonial Visconde
de São Leopoldo”. A casa reformada é inaugurada em 1941, tendo as obras sido executadas pelo
arquiteto alemão Theodor Wiedersphan, que dá à casa as feições atuais, imitando o estilo enxaimel.
Porém em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha e início das
perseguições às comunidades alemãs no país, a prefeitura sentiu-se desobrigada de cumprir os
termos do acordo e instalou na Casa da Feitoria uma escola municipal.

Os anos passam e a ideia de criação de um museu permaneceram vivas. Em 20/9/1959, com
grande apoio da então prefeita de São Leopoldo, Sra. Maria Emília de Paula Gusmão, e demais
prefeituras da antiga colônia é fundado por um grupo de leopoldenses o Museu Histórico Visconde
de São Leopoldo. Em 1969, a Câmara de Vereadores aprova lei declarando o museu como instituição
de utilidade pública municipal. Porém, foi somente em 1976, após a instalação da escola municipal
em um novo prédio, e com toda a comoção gerada pelos festejos dos 150 anos da Imigração Alemã,
em 1974, que, liderados pelo então diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, Prof. Telmo Lauro Müller, foram retomadas as discussões para a conversão da casa em um museu. Em
1980, a Câmara de Vereadores de São Leopoldo aprova a lei, sancionada pelo então prefeito Dr.
Olímpio Albrecht, fazendo a justa doação do imóvel para o Museu Histórico Visconde de São
Leopoldo, cabendo a esse sua manutenção. Entendendo a importância do espaço para a região, a
mesma câmara aprova outra lei prevendo uma subvenção pública para financiar as atividades do
museu.

Intervenções Arquitetônicas no Prédio

1941 – Primeira grande intervenção que se tem registro, quando a casa é reconstruída e
passa a ostentar uma fachada em estilo próximo ao enxaimel.

1984 – Após deixar de ser uma escola, a casa novamente se encontra em estado precário.
O MHVSL, juntamente com outras entidades públicas, consegue junto ao IPHAE – Instituto
de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – o tombamento do prédio. Com o apoio de
financiamento privado – entre eles do banco Bamerindus e grupo RBS – a casa é restaurada
e começa a funcionar como um museu sob gestão do MHVSL. Passa, então, a ser chamada
de Casa do Imigrante.

1999 – O trânsito de veículos pesados na Av. Feitoria passa a afetar, cada vez mais a
edificação. Em 1999, o governo municipal, sob a gestão do Sr. Ronaldo Ribas, direciona
verbas do Fundo Municipal de Cultura para uma nova recuperação do prédio.

2010 – Apesar dos constantes reparos na construção, nova intervenção é necessária. Dessa
vez, a prefeitura municipal, sob a gestão do Sr. Ary Vanazzi, oferta ao museu serviços de
reforma da casa, os quais foram executados por construtora da cidade a partir de um
acordo de troca de índices construtivos.

2014 – Prosseguindo os danos no telhado, a direção do MHVSL decide, por questões de
segurança, fechar a casa à visitação pública. Inicia-se a elaboração do projeto de restauro
do imóvel como um todo.

2017 – É aprovado o projeto de Restauro da Casa do Imigrante, no valor aproximado de R$
700.000,00 a ser captado via Lei Rouanet e LIC (Lei Estadual de Incentivo à Cultura).

2018 – Encerra-se o prazo legal para a captação dos recursos, sem que se tenha atingido o
valor mínimo para início das atividades.

Principais fatos que antecederam o desabamento

Quando a visitação pública foi encerrada, em 2014, o MHVSL fez o recolhimento gradual de
todo o acervo que lá estava em exposição, de forma a protegê-lo das avarias da edificação. No
segundo semestre de 2017, na mesma época da aprovação do projeto de restauro, houve a
suspensão, de forma abruta e sem qualquer aviso ou explicação, dos repasses da subvenção de R$
12.500,00 por parte da Prefeitura Municipal para o Museu. Esses valores eram referentes ao
convênio para atendimento a escolas, o que implicava em diversas contrapartidas por parte do
museu. Apesar de frequentes, atrasos por parte da prefeitura nunca tinham durado mais que poucos
meses. Entretanto, jamais a situação tinha chegado a tal ponto. Atualmente, esse atraso já é de 19
meses e totaliza R$ 237.500,00. Como se pode imaginar, o fluxo de caixa do Museu foi inicialmente
muito afetado por esse corte e as verbas destinadas a outros fins tiveram que ser realocadas para o
cumprimento dos compromissos financeiros trabalhistas assumidos para a execução do plano de
atividades prevista no convênio com a secretaria de educação do município.

Em maio de 2018, não restou outra alternativa à direção se não o gradual corte de despesas e
pessoal, impactando inclusive no atendimento ao público. No mesmo mês, encerrou-se a janela de
captação de recursos para o restauro da Casa do Imigrante. Ao mesmo tempo em que procuramos
nos reestruturar, iniciamos também a avaliação do projeto de restauro da Casa do Imigrante em si.
Não seria suficiente simplesmente reapresentarmos o mesmo projeto que não havia logrado sucesso
na sua tentativa de captação. Entre os tantos fatores que foram identificados como prejudiciais à
captação das verbas de restauro, estava justamente o histórico de falta de sustentabilidade
financeira para a Casa do Imigrante. Para dar-se início a um processo sustentável de uso da área,
iniciamos a programação de eventos “Pode Entrar, a Casa é sua” que, uma vez por mês, abre o pátio
da casa para a realização de feiras e atividades comunitárias.

Sabendo-se que um restauro só seria possível a médio prazo, a diretoria decidiu tomar medidas
para garantir a segurança da edificação. Ainda em agosto de 2018, a energia elétrica da casa foi
totalmente desligada, justamente para se evitar incidentes como aquele ocorrido no Museu Nacional.
Tentou-se, sem sucesso, apoio do poder público para efetuarmos reparos emergenciais na casa e nas
cercas de perímetro. Não tendo surtido efeito os apelos, em janeiro de 2019, R$ 1.500 foram
investidos na recuperação total das telas e portões que cercam a casa. O dinheiro foi arrecadado com
doações da comunidade. Nossa primeira preocupação foi, sempre, com a segurança das pessoas. Já
tínhamos contratado, para as primeiras semanas de março, o serviço de escoramento emergencial da
casa. Infelizmente, às 11h da manhã do dia 5/3/2018, uma terça-feira de sol e sem vento, parte da
estrutura acabou colapsando, provavelmente após a passagem de algum veículo pesado, sem que
tenha conseguido executar o serviço de escoramento.

Ações Imediatas

Logo após o desabamento do imóvel, ações emergenciais foram tomadas. Baseados no laudo
preliminar emitido pelos técnicos do IPHAE, realizamos o recolhimento e separação dos escombros,
fechamento do perímetro e escoramento da estrutura. Contamos com apoio voluntário de diversos
profissionais da comunidade. Até o presente momento, já foram gastos cerca de R$ 10.000,00 nos
serviços emergenciais.

Estão pendentes, ainda, a execução de um laudo estrutural, atestando a estabilidade da
edificação, o que pretendemos concluir em no máximo 30 dias. Além disso, conforme recomendação
do IPHAE, deverá ser construída uma estrutura externa para cobertura provisória da casa. O projeto
executivo está em elaboração e, antes da execução, será submetido à aprovação dos órgãos
competentes. Estamos prevendo um prazo de 120 dias para essa execução. Estimamos gastar cerca
de R$ 40.000,00 com essas medidas. Esse valor será coletado por doações da comunidade.

Próximos Passos

Em paralelo com as ações imediatas recomendadas pelo IPHAE, estamos dando continuidade
ao projeto de restauração da Casa do Imigrante. Esse projeto, iniciado ainda outubro de 2018, em
parceria com professores de instituições de ensino da região, prevê não só o restauro da casa em si
mas, principalmente, a definição de um modelo de sustentabilidade econômica que viabilize a
operação da casa. À nossa frente, descortina-se a oportunidade de captação de recursos privados
em função do apelo público gerado e na aproximação dos festejos para o Bicentenário da Imigração
Alemã no Brasil, cujo Marco Zero localiza-se exatamente na Casa do Imigrante.

Sustentabilidade do Museu
Após décadas de recorrentes problemas com o patrimônio histórico nacional, torna-se evidente
ser necessária a busca de um novo modelo de financiamento para as atividades do Museu Histórico
Visconde de São Leopoldo. A preservação do patrimônio histórico-cultural já se mostrou inviável em
mãos 100% públicas. O modelo híbrido, instituição privada com financiamento público – que até
2017 era o modelo adotado pelo MHVSL – também se mostrou insustentável, dado às diversas
incertezas e oscilações associadas à saudável alternância de poder nas instâncias públicas. O que se
tem buscado para o Museu e para a Casa do Imigrante é um novo modelo de negócios totalmente
independente de repasses de dinheiro governamental, ou seja, um modelo de financiamento 100%
privado. Entendemos que esse é o único caminho possível para que se atinja o funcionamento pleno
de nossa instituição.

E é nessa direção que temos ido desde meados do ano passado, quando a crise financeira
tornou-se crítica a ponto de paralisar as operações do museu por 5 meses. Desde então, temos nos
dedicado em agregar valor aos nossos mantenedores e visitantes, além de buscarmos novas fontes
de receita. A instituição foi saneada financeiramente e pode se orgulhar de ter atingido em fevereiro
de 2019, pela primeira vez, o tão almejado déficit zero. Os desafios continuam, mas os resultados
parciais comprovam que estamos no caminho certo.

A diretoria, juntamente voluntários e representantes da comunidade, está rediscutindo o
Modelo de Negócios da instituição como um todo. Esse trabalho continua nesse ano de 2019.
Pretendemos apresentar ao grande público em setembro, no mês em que o museu completa 60
anos, um novo plano estratégico formatado e validado e com os caminhos bem definidos, uma
instituição totalmente comunitária e voltada à comunidade. Do ponto de vista administrativo, esse
caminho significa dotar o museu de uma direção executiva 100% profissional, permitindo à
comunidade exercer seu papel no Conselho de Administração.

Reiteramos que o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, entidade comunitária, de direito
privado, sem fins lucrativos e mantida através de doações de uma rede de amigos, é o braço da
comunidade mais interessado em preservar e recuperar esse patrimônio de valor inestimável na
nossa história. Não temos medido esforços nesse sentido e acreditamos que isso acabe ficando claro
para todas as partes envolvidas.

Respeitosamente, Cássio Tagliari (presidente) e Renata Rotermund (vice-presidente)”


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