Desde que o Hospital Regina, em Novo Hamburgo, deixou de ser a referência para pacientes oncológicos SUS de cinco municípios do Vale do Sinos, a comunidade regional passou a conviver com uma grande mobilização. Especialmente, envolvendo a cidade Novo Hamburgo.
Afinal, como um município com três hospitais perdeu a referência para Oncologia SUS?
Nos últimos dois meses, vem se falando intensamente sobre essa realidade. Muito vem se aprendendo sobre a suposta falta de recursos públicos para esta área, a burocracia, a legislação, as responsabilidades da União, Estado e municípios, entre outros detalhes.
Com a mudança de cidade, os recursos públicos que iam para o Hospital Regina foram redirecionados para o Hospital Bom Jesus, de Taquara. A partir de então, a Oncoprev começou a receber os pacientes hamburguenses. E também de Campo Bom, Estância Velha, Ivoti e Dois Irmãos.
Nas últimas semanas, a Liga Feminina de Combate ao Câncer de Novo Hamburgo esteve em várias agendas e reuniões, em nome dos pacientes atendidos pela entidade. As voluntárias da Liga já estiveram em contato com Prefeitura, Câmara de Vereadores, Palácio Piratini, políticos no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa, Hospital Regina, Secretaria Estadual da Saúde, Secretaria Municipal da Saúde e Ministério Público Federal.
AUDIÊNCIA
Nesta quarta-feira (25), mais um compromisso: será realizada uma audiência pública na Câmara de Vereadores para uma nova rodada de debates e projeções sobre o retorno da Oncologia SUS para Novo Hamburgo.
O Portal Martin Behrend divulgou o encontro, que é aberto à comunidade: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .
ATENDIMENTOS
Nessa mudança de cidade, existem algumas preocupações. O Hospital Regina, por exemplo, é bem mais equipado que o Hospital Bom Jesus e tem um longo histórico de atendimentos da Oncologia SUS. A questão do desgaste físico e emocional dos pacientes com o deslocamento é outro aspecto que gera angústia e preocupação.
Nos últimos dias, o Portal Martin Behrend recebeu algumas mensagens de pacientes oncológicos e de seus familiares em relação ao atendimento prestado em Taquara. São moradores de Novo Hamburgo e de outros municípios que estão compartilhando suas experiências num momento de fragilidade e superação. A reportagem se reserva ao direito de não divulgar os nomes dos leitores para preservar os pacientes.
RELATO 1
“Meu pai teve câncer há pouco, mas graças a Deus ele tem convênio. Foi tratado pelo doutor Antonello. Está indo super bem. Meu tio, seu irmão, não tem a sorte de ter um plano. Em cinco anos, teve três cânceres, dois tratados aqui em Novo Hamburgo pelo mesmo dr. Antonello. Agora, o terceiro não será tratado aqui. Será tratado em Taquara.
Quando ele ficou sabendo, sua depressão piorou. O Regina fica a 10 minutos de casa, todas as vezes os sobrinhos se revezaram pra cuidar dele. E agora? Não é só a questão do paciente e, sim, dos acompanhantes. Ontem, conversamos e ele me disse que ia vender o carro para fazer a cirurgia particular. Ele não ia aguentar ir a Taquara. Essa mudança para Taquara afeta coisas que nem imaginamos. Quantos estão na situação do meu tio? Vendendo coisas, pois não tem condições de saúde para ir até Taquara. Parabéns pela Liga, para sua mãe e por todas essas ‘madames´ que nunca irão desistir. Abraços.”
NOTA DO EDITOR: A expressão “madame” mencionada pelo leitor faz referência a um artigo escrito pelo editor do Portal Martin Behrend: “O governador, minha mãe e a Oncologia SUS”. O texto está neste link: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .
RELATO 2 – Um mesmo paciente relatou diversos momentos ao longo de quatro semanas.
1) “Fui diagnosticado com neoplasia renal em dezembro de 2021. Então, fui encaminhado para o Hospital de Taquara, pois Novo Hamburgo não iria mais atender oncologia. Até agora tive só a consulta e exames feitos pré-operatórios, mas nenhum procedimento foi feito. Precisamos urgentemente reabrir a oncologia de Novo Hamburgo, pois corremos o risco de não dar seguimento aos tratamentos já iniciados e/ou não sermos nem sequer assistidos na nossa convalescência.”
2) “Quanto ao atendimento do pessoal, nada a reclamar. São extremamente atenciosos. Me refiro quanto a demora, pois a demanda será maior com os pacientes que virão do hospital Regina.”
3) “Agendaram minha cirurgia para retirada do rim, afetado pela neoplasia, no dia 18/05. Continuamos na luta. Obrigado pela atenção que deste ao meu desabafo.”
4) “No dia 18/05, fui submetido a cirurgia do rim com lesão, no hospital de Taquara. Fui muito bem atendido. Já ganhei alta e gostaria de deixar registrado como os funcionários daquela instituição se esmeram em nos proporcionar um atendimento de qualidade. Só agradecer ao atendimento e me recuperar a minha saúde.”
RELATO 3
“Minha mãe está com câncer de mama. Há mais de 60 dias temos essa informação. Hoje, às 7 da manhã, estávamos no Hospital Bom Jesus, de Taquara, para realizar a cirurgia de remoção das duas mamas. E pela segunda vez a cirurgia foi cancelada.
No dia 7 de abril foi a mesma coisa. Fomos cedo para o hospital. Minha mãe, desde o dia anterior em jejum, e a cirurgia não foi realizada. Já temos um desgaste enorme só de ter de lidar com um câncer. E ainda mais isso com o hospital, duas vezes cancelando.
Na primeira vez, eram 15 horas quando liberaram ela, porque o doutor optou por retirar as duas mamas, mas só tinha uma prótese. Dissemos que deveria ter tido uma pré-consulta para alinhar essas coisas, ajustar detalhes.
Bom, pra cirurgia de hoje – segunda data – foi feita essa pré-consulta, no sábado passado. Estivemos no hospital, a médica olhou e decidiu a técnica que iria usar. Estávamos certo que hoje aconteceria a bendita cirurgia. Mas hoje, às 16h45, novamente minha mãe foi liberada do bloco sem a cirurgia ter acontecido. Usaram a justificativa que a autoclave teria estragado.
Remarcaram a cirurgia para quinta-feira da semana que vem. Gostaria muito que algo fosse feto para que a cirurgia não seja cancelada pela terceira vez. O pessoal do hospital entrou em contato, dizendo que remarcaram a cirurgia para essa quinta – 26/05. Estamos na espera pra dar certo.”
HOSPITAL BOM JESUS
A prefeita de Novo Hamburgo, Fátima Daudt (PSDB), a Secretaria Municipal da Saúde e vereadores hamburguenses já estiveram conhecendo as instalações do Hospital Bom Jesus para entender como se dá o acolhimento e o atendimento de pacientes hamburguenses – são centenas. Também o prefeito de Campo Bom, Luciano Orsi (PDT), e vereadores campo-bonenses já estiveram por lá.
Numa das visitas dos vereadores de Novo Hamburgo, o diretor da Oncoprev, Ramon Ritter, se manifestou sobre os atendimentos prestados e problemas registrados. Ele afirmou que até o final do mês de maio serão quase mil pacientes atendidos. “Fazemos o acolhimento e eles têm saído satisfeitos. Sempre terá algo para corrigir, claro. O importante é atender rápido. Vai ter o deslocamento, vai. Mas quantos ficaram na fila e não tiveram essa oportunidade? É ruim para um município próspero e grande não ter este serviço. Mas um dia pode ter de novo. Só queremos deixar claro que Taquara está dando conta”, informou.
Em relação a um vídeo que circulou nas redes sociais no qual alguns pacientes esperam na chuva pelo atendimento, Ritter contou que foi em momento da chegada de um ônibus. “Vão chegar 40 pessoas juntas, vamos levar um tempo para fazer a papelada, mas há um bom espaço de acolhimento, tanto na clínica quanto no hospital”, garantiu a diretora executiva da instituição, Marisete Dal Molina. “São ajustes finos que ainda estamos realizando”, ponderou.
PREFEITURA
“Queremos a oncologia e a pediatria 100% SUS em Novo Hamburgo. Estou focada nas soluções, não nos problemas.” A frase da prefeita Fátima Daudt é da semana passada. Ela esteve visitando as obras do Anexo 2 no Hospital Municipal e destacou o início de estudos para adequações ao projeto e inclusão de uma ala oncológica no futuro prédio.
A estimativa é que o Anexo 2 esteja construído em até dois anos. O novo prédio terá cinco andares, a maior ampliação da história do Hospital Municipal.
Os recursos já estão garantidos, mas o início das obras foi adiado em razão da pandemia. Para que fosse possível começar, foi necessário concluir as obras para transferência dos serviços de hemodinâmica e tomografia, pois é o local onde será erguido o novo prédio.
As chances de o Hospital Regina voltar a receber temporariamente os atendimentos são remotas.
Mas, como já dito em outras vezes, a Liga Feminina de Combate ao Câncer não vai descansar enquanto o serviço não retornar ao município. É uma questão de honra e respeito a centenas de pacientes.

























