Em dez meses de governo, a prefeita de Novo Hamburgo, Fátima
Daudt (PSDB), vem tentando romper com alguns vícios e práticas da política. Naturalmente,
ela não vai conseguir sozinha nem do dia para a noite. Agora, é interessante
observar alguns comportamentos que fogem de práticas repugnantes da política brasileira
tradicional, como casos de candidatos com pinta de “pais de família” que se
aliam a bandidos ou traficantes para buscar votos.
Uma das práticas mais ousadas – e também arriscadas – da prefeita
tucana diz respeito ao perfil de vários CCs do seu governo. Atualmente, são
pelo menos 20 nomes que integram o governo em diferentes escalões que jamais
devem ter votado num candidato do PSDB. Mais do que isso: basta uma simples
pesquisa nos perfis nas redes sociais ou conhecer os históricos dos CCs para
perceber que alguns ainda debocham e detonam líderes tucanos. Inclusive, são históricos militantes ou simpatizantes da esquerda, como PT, PDT e até do PSOL.
Mas como esses hamburguenses que têm ojeriza ao PSDB estão
no governo de Fátima Daudt? A resposta está na qualidade do trabalho. A
prefeita tem preferido, em muitos casos, olhar a qualificação do profissional a
seu histórico político. A tucana quer ter ao seu lado bons ou muito bons
profissionais. E vem permitindo esse carnaval partidário entre CCs da
Prefeitura, Comusa, Comur e Fenac.
A aposta de Fátima, além da qualidade dos profissionais, é
numa questão subjetiva: priorizar Novo Hamburgo acima dos partidos, colocar os
interesses da comunidade na frente do compadrio partidário. É uma equação
ousada e arriscada: estes CCs estão trabalhando para um governo tucano ou para
Novo Hamburgo? Fátima aposta suas fichas na segunda opção. Pelo perfil qualificado
e maduro destes CCs, ela acredita que Novo Hamburgo sairá ganhando, pois o
interesse destes servidores é colaborar com a cidade – antes de pensar em
projetar uma prefeita do PSDB.
Um caso clássico e conhecido: o secretário municipal de
Cultura, Ralfe Cardoso. Militante histórico do PT e do PSOL, ele não é mais
filiado a partidos. Mas salvo uma mudança radical da qual não tenho conhecimento, o
ex-vereador é esquerdista desde o berço. Fátima não está preocupada com o
viés partidário de Ralfe, mas da sua qualidade como gestor na área de cultura.
Capacidade, aliás, comprovada em dezenas de trabalhos com sua produtora
cultural. Em tempo: a Secult é uma das secretarias com grande número de
exemplos de esquerdistas atuando na Prefeitura.
Outro exemplo: o ex-vereador Cristiano Coller. Integrante da base do ex-prefeito Luis Lauermann (PT) e ex-CC no governo Tarcísio Zimmermann (PT), Coller passou por PDT e Rede – viés esquerdista. Como ficou como suplente em 2016, foi chamado por Fátima para atuar como subsecretário na Secretaria Municipal de Obras Públicas, Serviços Urbanos e Viários (Semposu). A prefeita foca na capacidade e no conhecimento de Coller, que já teve passagem na pasta. Tem histórico de militante da esquerda, mas a prefeita aposta na sua maturidade para colocar interesses do município antes dos ideológicos.
Os desafios de Fátima são enormes com esse comportamento.
Mesmo apostando na qualidade profissional e no caráter dos nomes indicados como
CCs, ela não pode ignorar que abre espaço para o crescimento de práticas
ideológicas que destoam do seu perfil de gestora e empresária. Basta colocar
uma lupa em alguns eventos e comportamentos dentro de secretarias para
perceber: ali estão sendo implantadas políticas ideológicas ou tentativas de
impor determinados interesses partidários locais. É por isso que
se fala em ousada e arriscada relação de Fátima com alguns CCs.
E como será em 2018? Quando Fátima Daudt pedir votos para
candidatos do PSDB – o que é um gesto natural para uma liderança política regional
–, como será o comportamento dos CCs da esquerda? Vão ficar agarrados a suas
convicções? Vão prestigiar a prefeita, que abriu espaço para trabalharem no
Executivo? E, mais do que isso: se Fátima tentar a reeleição em 2020, esta
turma da esquerda que está dentro do governo e detesta o PSDB vai abandonar o
barco às vésperas da eleição? Ou colocarão os interesses de Novo Hamburgo antes
do desejo partidário?
Fátima Daudt corre riscos, mas acerta em sua estratégia. Novo Hamburgo precisa
de bons profissionais na administração municipal – sejam eles de direita, centro ou
esquerda. O Executivo precisa dos melhores na administração para que o
município possa oferecer os melhores serviços à comunidade e buscar as melhores
soluções.
É muito melhor contar com bons profissionais de vários
partidos, do que empilhar companheiros que ficaram balançando bandeira em
rótula e que agora mendigam uma “boquinha” para se encostar – como aconteceu
nos últimos anos em Novo Hamburgo. A população sabe a tragédia que foi. O
estrago ainda está sendo contabilizado. E essa experiência já mostrou que não funciona: o resultado foi péssimo para o município.
OBSERVAÇÃO: A reportagem não cita outros nomes de CCs, pois não tem
como provar que eles não votaram no PSDB. Eles sempre poderão argumentar que no
anonimato da cabine eleitoral digitaram 45 na urna eletrônica. Mesmo assim, a reportagem
tem convicção que pelo menos 20 CCs são esquerdistas históricos ou foram indicações
de partidos de oposição ao PSDB, e que em suas redes sociais – Facebook e
Twitter – costumam, ou costumavam, detonar lideranças tucanas.

























