Nesta quinta-feira (10), Gustavo Finck (PP) completa 100 dias como prefeito de Novo Hamburgo. Foi um período turbulento, desgastante, recheado de pautas negativas, desencontros e contradições.
Voltando no tempo até 6 de outubro de 2024, quando ele foi declarado vencedor do pleito, são seis meses de poucas ações efetivas e produtivas para a cidade. Aliás, o cenário é o oposto: desde que foi eleito, Finck convive com pautas polêmicas – como a lei que impediu eventos em razão da calamidade – e continuou com a negligência no período de transição.
O Portal Martin Behrend reuniu dez fatos que retratam a tensão vivida pelo prefeito e seu governo. E também menciona três ações positivas que poderiam ter sido mais destacadas, não fosse o governo um prodígio na produção de pautas negativas.
TENSÃO E DIFICULDADES EM 10 CAPÍTULOS
1) Negligência na transição
Além de tirar um tempo para descansar após a eleição de outubro, Finck viajou ao exterior por quase duas semanas. Faltou tempo para montar o secretariado. Não houve compreensão do tamanho dos desafios que teria em 1º de janeiro. Foram praticamente três meses perdidos na transição, onde ele focou em atrair vereadores em conversas sobre cargos. A secretária da Saúde veio de fora e foi anunciada no final de janeiro. A titular da Fazenda também veio de fora e só foi anunciada em fevereiro. Fazendo uma analogia com o futebol, Finck começou sua Copa do Mundo – ser prefeito – com apenas metade do time escalado. Veio uma sucessão de problemas. Uma calamidade administrativa.
2) Tarifaço da água
Na transição, o atual governo praticamente não agiu para contornar o tarifaço da água em 25%. A gestão antiga da Comusa tinha indicado ser de 8,5%. A nova diretoria da Comusa justificou que a decisão foi da Agesan, e que não tinha como intervir. Erraram grosseiramente. Tanto que, após grande pressão popular, a Comusa escalonou o reajuste ao longo do ano. Ou seja, era possível ter se articulado antes. Esqueceram de cuidar dos interesses da população e das empresas.
3) Falta de comando
Algumas lideranças do governo perceberam que o prefeito tem dificuldades em liderar. Nos corredores do Centro Administrativo Leopoldo Petry, as paredes ouvem seguido a expressão “O prefeito é fraco”. O governo tem vários comandos. O vice-prefeito, Gerson Haas (PL), virou turista na Prefeitura. Quem dá as cartas é a secretária de Gestão, Governança e Desburocratização, Andrea Schneider Pascoal (PL). Com a Comunicação sob sua tutela, Andrea aparece em dezenas de vídeos, fotos, reuniões. Tem pretensões políticas ambiciosas e se destaca nesse vácuo de poder. Além disso, caciques do PP e do PL tentam influenciar o prefeito, assim como poderosos empresários hamburguenses que aportaram muito dinheiro na campanha. No meio desse turbilhão, o jornalista João Victor Torres – indicado por Finck – deixou o cargo de coordenador de Comunicação da Prefeitura.
4) Calamidade Fake
Todos os cinco candidatos falaram na campanha de 2024 que a cidade teria dívidas deixadas pelo governo Fátima Daudt (MDB). Aliás, praticamente todos os municípios deixam dívidas de um ano para outro. Em razão da calamidade administrativa do governo Finck, o desespero foi chegando com a falta de respostas a tantas promessas feitas na campanha. Finck chamou a imprensa em plena semana da Fimec, com a cidade repleta de empresários de olho em oportunidades, para anunciar uma suposta calamidade financeira. A cidade está quebrada foi o recado para milhares de empresários da Fimec. Sem apresentar relatórios e documentos, mencionou valores. A calamidade, na verdade, é Fake. Basta ver que, desde janeiro, foram admitidos e/ou mantidos centenas de CCs na Prefeitura, Comur, Comusa, Fenac e Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo. Tem dinheiro para tantos CCs, é óbvio que não tem calamidade financeira. É fato que houve redução no número de CCs, mas para uma cidade em suposta calamidade tinha de ter exonerado mais uma centena. Foram mantidos porque tem dinheiro – o custo é milionário – e porque precisa de apoio político. Aliás, Ito Luciano também está entrando no governo e fazendo indicações
5) Orquestra de Sopros
O desmanche na área cultural vem desde o ano passado, após Finck ser eleito prefeito. A aprovação da lei de autoria de Finck, que impede gastos públicos em eventos na cidade durante período de calamidade, atingiu em cheio Feira Regional do Livro, Natal dos Sinos, Carnaval e outras promoções. Neste ano, os ataques à cultura seguiram com o corte de recursos para a Orquestra de Sopros. Novo Hamburgo virou manchete nacional por abandonar um patrimônio cultural e histórico com mais de 70 anos. Enquanto a Orquestra foi abandonada pelo prefeito, a Fundação Scheffel, que tem o seu curador atuando como secretário da Cultura, foi contemplada com os repasses. Constrangedor. O aniversário da cidade foi tão discreto que quase ninguém percebeu.
6) Noticiário policial
Em uma semana, dois CCs colocaram o governo Finck no noticiário policial. Primeiro, foi um CC admitido em seu governo investigado numa operação da Polícia Civil sobre uso de dados particulares da ex-prefeita Fátima Daudt. E, depois, o suplente de vereador do PP, Gilvanio José Abreu da Silva, que foi preso em outra operação da Polícia Civil envolvendo tráfico de drogas. Gilvanio era homem de confiança de Finck no bairro Santo Afonso. Ele foi exonerado após a prisão.
7) Mudança radical na vida familiar
As mudanças no estilo de vida do prefeito são assunto em diferentes lugares da cidade. Trocou a casa do sogro, onde morava com a família, para residir num apartamento de luxo na Avenida Maurício Cardoso. Trocou de automóvel – pegou um mais valioso. Vem recebendo apoio financeiro de empresários em algumas ações. Está pagando as viagens aéreas que já realizou. Tudo isso em poucas semanas. Nas cafeterias da cidade vem a pergunta: quando o restante da população conseguirá essa mudança tão radical em tão pouco tempo?
8) Desgaste com entidades e conselhos
O Sindicato dos Professores Municipais de Novo Hamburgo (SindPropNH) já denunciou uma série de problemas na educação de Novo Hamburgo. Nesta semana, o Fórum Municipal dos Conselhos de Direitos e de Políticas de Novo Hamburgo divulgou Moção de Repúdio após prefeito não aparecer num evento em que tinha confirmado presença. Lideranças de entidades não estão obtendo alguns retornos. O diálogo permanente, tão alardeado na campanha, ficou no passado.
9) Corte de recursos para empresas
Se na campanha o discurso a favor das empresas prevaleceu, a prática se mostrou bem diferente. O governo Finck cortou recursos para empresas calçadistas participarem de feiras do setor. Nas feiras, as empresas realizam pedidos, garantem geração de empregos e renda, e movimentam a economia local. Algumas empresas foram prejudicadas.
10) Desgastes e trapalhadas
Várias pautas provocaram desgastes na imagem do governo. Ex-CCs cobrando indenizações e levando denúncias ao Ministério Público do Trabalho, o prefeito Finck chamando advogados de oportunistas, o ex-empreiteiro que ficou como CC por apenas quatro dias, as demolições de moradias de famílias carentes (estavam em situação irregular e foram “atropelados” pela volúpia do governo), entre outros episódios
AÇÕES POSITIVAS EM TRÊS ATOS
1) Avaliação de contratos
Para reduzir gastos, a Prefeitura e outros órgãos da cidade estão revisando contratos. Um exemplo: houve rompimento de contratos no aluguel de carros na Prefeitura e na Comusa. Em quatro anos, poderá representar economia de alguns milhões de reais. A gestão vem buscando revisar outros contratos para verificar onde pode ter redução de gastos.
2) Manutenção preventiva acelerada
A realização de manutenção acelerada de arroios, córregos e valas é uma constante na largada do governo municipal. Seja com equipes locais ou recursos do governo do Estado, a importante manutenção para reduzir os riscos de alagamentos está sendo realizada em diferentes partes da cidade. Esse trabalho preventivo pode representar menos dor de cabeça para a população em dias de chuva forte. Há recursos garantidos para o trabalho seguir nos próximos meses.
3) Segurança pública
A Guarda Municipal de Novo Hamburgo registrou um aumento de 27% no número de prisões no primeiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O total de conduções à delegacia subiu de 122, em 2024, para 155 neste ano. Entre as prisões, destaque para 29 pelo crime de furto e dez por tráfico de drogas. Além disso, o número de veículos recuperados após roubo ou furto chama a atenção. Neste trimestre foram 41, contra 17 do mesmo período do ano passado, representando 141% de aumento.
