O primeiro ano de mandato do prefeito de Novo Hamburgo, Gustavo Finck (PP), vai chegando ao final com críticas, rupturas, várias promessas de campanha não cumpridas e incertezas.
Um dos movimentos mais claros de todo esse desgaste parte exatamente de quem foi aliado nos últimos meses. Integrantes e simpatizantes do Partido Liberal (PL), do ex-presidente Jair Bolsonaro, estão se afastando do governo Finck.
O temor é que sejam tragados para o centro de investigações ou prejuízos de imagem a partir de denúncias e questionamentos que estão se tornando públicos. Com isso, está sendo feito um movimento de proteção ao bolsonarismo justamente num governo bolsonarista.
Vale lembrar que o o vice-prefeito hamburguense, Gerson Haas, é do PL, e o deputado federal Tenente Coronel Zucco (PL) e o Delegado Zucco foram fiadores e apoiadores de Finck. O vereador Juliano Souto (PL) é um dos maiores defensores de Finck na Câmara de Vereadores e o líder do governo Finck no Parlamento hamburguense, Giovani Caju, embora do PP, é um fanático admirador do ex-presidente.
Os cinco são representantes diretos do bolsonarismo. Na campanha, Finck elogiou abertamente Bolsonaro, inclusive contando como ocorreram, no passado, trocas de mensagens e brincadeiras com o ex-presidente da República.
SAÍDAS E AFASTAMENTOS
O jeito de Finck governar, contudo, foi assustando lideranças bolsonaristas. Algumas tomadas de decisões arriscadas e determinadas condutas consideradas intempestivas e contraditórias contribuíram para um movimento de recuo do bolsonarismo.
A aproximação com a família Luciano (Ito e Naasom), a Ação Popular com a digital do prefeito em procedimentos supostamente irregulares envolvendo o terreno e a instalação da Havan e a mudança repentina de estilo de vida envolvendo apartamento, carros, roupas e outros detalhes aceleraram decisões. “Eles (os irmãos Zucco) largaram de mão o Finck… Não tem nem como ajudar ele de tão imaturo e despreparado que é”, relatou à reportagem um ex-integrante do governo hamburguense.
Neste final de semana, a notícia que fez a política local ferver foi o pedido de exoneração da então titular da Secretaria de Gestão, Governança e Desburocratização, Andréa Schneider Pascoal. Ela foi uma das primeiras a ser confirmada como secretária do governo Finck, logo após a vitória em 2024. “Após reflexão cuidadosa, entendo que o atual contexto da gestão não mais se alinha, em sua integralidade, às convicções e premissas que me levaram a aceitar o desafio”, escreveu ela em carta divulgada pelo Portal Martin Behrend – https://martinbehrend.com.br/novo-hamburgo/secretaria-andrea-schneider-pascoal-pede-exoneracao-do-governo-finck . É importante destacar que Andréa é casada com o ex-prefeito de Esteio e atual secretário da Educação da Porto Alegre, Leonardo Pascoal, que será coordenador da campanha do Tenente Coronel Zucco a governador em 2026.
Antes dela, o então diretor financeiro da Comusa Emílio Kerber Filho foi exonerado. Hamburguense de nascimento, ele veio atuar após passagem pelo gabinete do deputado federal Zucco, em Brasília (DF). O Portal Martin Behrend divulgou o afastamento: https://martinbehrend.com.br/novo-hamburgo/diretor-da-comusa-ligado-a-zucco-e-exonerado-e-prefeitura-tem-nova-diretora-da-jornalismo .
Também é conhecido dentro da Prefeitura o caso de um CC indicado pelo deputado federal Giovani Cherini (PL), que chegou para conhecer seu local de trabalho na Prefeitura, corneteou algumas situações e foi embora.
VICE-PREFEITO E EMPRESÁRIOS
A relação do vice-prefeito com o prefeito não é boa. Embora na última viagem internacional de Finck, para a Espanha, Gerson Haas tenha assumido como prefeito interino, episódios anteriores atestam o desgaste. No evento de 100 dias do governo, Haas não foi convidado. Quando Finck viajou para a Colômbia, não passou o cargo para ele. Em muitos eventos do governo, o vice-prefeito não aparece. A propagada harmonia é apenas no discurso.
O descontentamento com a condução do governo Finck vem também de empresários. Um doador de campanha trocou mensagens com a reportagem criticando os gastos – milhões de reais – com o Natal e a Rua Coberta. “Que desperdício do dinheiro do povo, com tantas coisas a serem feitas nesta cidade. Bem que Novo Hamburgo merecia mais, iniciando pela limpeza da cidade e fechamentos os buracos das ruas”. Questionado se o prefeito ouve os empresários, que foram doadores de muito dinheiro para a campanha, a resposta foi sincera: “O homem (Finck) não escuta ninguém. Segue por via própria. Estamos apoiando ainda o Gerson (é uma pessoa íntegra) para não se sentir sozinho, porque se desistir o caos será grande”, desabafou em tom de arrependimento.
PP
Esse movimento de afastamento de lideranças do PL de um prefeito do PP também tem relação com a eleição para governador do Estado, em 2026. O PL terá como candidato Tenente Coronel Zucco. Já o PP ainda não sabe se vai ter candidato próprio, se continuará aliado ao grupo do governador Eduardo Leite (PSD) e do vice-governador Gabriel Souza (MDB), ou se a sigla estará com Zucco.
Na Câmara de Vereadores, o PP tem três parlamentares: Giovani Caju, Deza Guerreiro e Cristiano Coller, que é o atual presidente do Legislativo. Coller já teve uma ruptura após a votação de projeto que impactou a trajetória dos servidores municipais. As indicações do vereador no Executivo foram exoneradas.
Segundo pessoas próximas, Caju não larga o cargo de liderança em respeito aos eleitores, mas já estaria cansado de defender projetos e procedimentos que ele tanto criticou no passado. Deza se equilibra por diferentes motivos, entre eles, a conexão com um apoiador financeiro do grupo que está no poder.
Entre os caciques da sigla, quase nada se ouve. O deputado estadual Issur Koch (PP), ferrenho defensor da indicação de Finck e que tem o pai com cargo remunerado dentro do governo, vem mantendo uma relação respeitosa com o prefeito, participando de eventos e lançamentos do Executivo, mas sem fazer defesa explícita do trabalho do chefe do Executivo.
Em tempos de Natal, o Papai Noel vai ter trabalho na Prefeitura Novo Hamburgo. Aliás, Papai Noel azul – e até isso incomodou hamburguenses bolsonaristas que cultivam as tradições do período natalino.
