Nesta terça-feira (30), faleceu o hamburguense Rui Spohr –
grande costureiro e estilista. Ele foi batizado Flávio Hennemann Spohr, mas
adotou desde cedo o pseudônimo Ruy. Mais tarde, virou Rui.
A criação do pseudônimo teve relação com textos que ele publicou
no jornal O 5 de Abril, o primeiro jornal de Novo Hamburgo.
Rui foi um dos grandes criadores de moda no Rio Grande do
Sul e no Brasil. Na adolescência, entre moldes de sapatos na fábrica do pai e
as páginas da Revista O Cruzeiro, resolveu que faria moda. Foi o primeiro
gaúcho a se profissionalizar em moda na França, ainda na década de 1940.
Trabalhou com Jean Barthé, o maior chapeleiro da França.
O Portal Martin Behrend publicou hoje a notícia do falecimento: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/id/6193/titulo/estilista-hamburguense-rui-spohr-faleceu-aos-89-anos
Em 1955, ele retornou a Novo Hamburgo após grande período
morando em Paris, na França. Na edição de 27 de maio de 1955, foi publicada
longa entrevista com Rui. Ele estava com 25 anos e vinha de um período de
intensas vivências. Reproduzo aqui a entrevista, mantendo a grafia original da
época.
DEPOIS DA LONGA VIAGEM DE VOLTA
O Modista Ruy concede interessante entrevista ao jornal da
terra – Impressões da viagem – Costumes observados – Brasil, o grande
desconhecido – A Moda é Soberana – Ruy tem novos planos
Conforme havíamos noticiado em nossa edição anterior,
publicamos hoje uma entrevista que a nossa reportagem manteve com o modista
Ruy, recentemente chegado de Paris, onde estêve aperfeiçoando a sua arte, “terror do bôlso dos maridos”.
Antes de entrarmos a interrogar s.s. sôbre a sua
especialidade, fizemos algumas perguntas de caráter geral que, por certo,
interessarão a todos nossos leitores.
Foi a nossa primeira pergunta:
– Continua Paris sendo o centro irradiante de cultura como o
é de moda?
Naturalmente. O povo francês e, sobretudo, o parisiense é
altamente culto sempre a par de todos os movimentos culturais. Existe uma
permanente efervescência de cultura e arte. Um fato que deslumbra o
estrangeiro, é que todo mundo, de tôdas as classes sociais, está sempre
estudando uma coisa ou outra.
– Qual é a situação econômica do povo em geral?
A situação do povo francês não é de folgança, é até bastante
“apertada”. Um empregado ganha em média Cr$ 2.500,00 por mês, que dá para
viver. Os aluguéis são bastante reduzidos em prédios antigos, acontecendo, que
em um mesmo prédio tenham vivido gerações e gerações de uma mesma família.
– Com que ânimo recebem os franceses o estado de guerra com
a Indo China?
Todos acompanharam com vivo interêsse a guerra na Indo China
e a despeito de desejarem o término dela, sentiam que uma derrota resultaria e
grande prejuizo econômico para a França. Quando caiu Bien Phu houve uma
consternação geral na França, só compensada pelo heroismo do “anjo de Bien Phu”.
A assistência social na França é muito extensa. Em caso de
doença de um trabalhador, ou estudante, mesmo o tratamento é gratuito e, no
caso dos estudantes, recebem até uma pensão para pequenos gastos.
O povo parieiense é muitíssimo diferente do nosso e um
grande contraste, por exemplo, com o alemão. É um povo que vive para hoje, não
se preocupa com o amanhã. Espírito este, com certeza, criado com as guerras e
com uma formação humanística. O francês vive para o belo e para o que há de bom
e desfrutável no momento. A mentalidade dêles é absurda para nós. Não se pode
compreendê-lo senão depois de um largo convívio com eles
Depois destas perguntas de caráter geral, formulamos a que
diz respeito diretamente à sua especialidade.
– Paris continua sendo o centro mundial da moda feminina?
Evidentemente. Grande tem sido o esfôrço da Itália e dos
Estados Unidos da América do Norte para arrebatarem-lhe, sem resultado, êste galardão.
Entretanto, deve-se reconhecer que Paris não é o único
centro da moda, porquanto a Itália conseguiu atrair para si, também, as
atenções mundiais, em matéria de moda para praia e esportes.
Paris é, isto sim, o centro universal da moda feminina no
gênero alta-costura, isto é, do tailleur para cima, e unicamente, para o qual
se dedica.
– Como se veste a mulher francesa?
A mulher francesa veste-se relativamente mal em comparação
com a brasileira, mas se a brasileira fizesse a “ginástica” que a francesa faz
para vestir-se de acôrdo, seria a mulher mais bem vestida do mundo.
O povo mais bem vestido em tôda a Europa é, sem dúvida, o
italiano, inclusive os homens, e o mais sem gôsto é o alemão.
– Existe algum fato que lhe chamou, em especial, a atenção?
Não, agora, não poderia deixar de referir um fato que julgo
até cômico. Os franceses tem uma grande estima pelos animais e as elegantes
saem sempre com um cachorrinho. Mas o fato cômico é que também se passeia com
os gatos presos pela coleira. E se vêm muitos gatos assim presos nos portais
das casas.
– Agora a pergunta tradicional: é o Brasil conhecido na
França?
O Brasil é um grande desconhecido na Europa. Em dois anos
que lá estive só apareceu duas vêzes em jornais, por ocasião do campeonato de
futebol e a morte do presidente Vargas. Aliás, quanto ao futebol a imprensa foi
implacável contra o procedimento dos nossos jogadores, o qual criticou
acerbamente. No mais, do Brasil só se sabe que tem café, macaco e cobras.
Voltemos para as modas.
– Acha V.S. que a linha “A” vai pegar?
Naturalmente que sim, aliás, já pegou, aqui chegará com
atrazo, como sempre, mas a moda é soberana.
– Poderia discorrer sôbre os pontos altos da moda atual?
Bem, em linhas gerais, poderia dizer que em matéria de cores,
a moda é o amarelo, laranja e cinza prateado; em penteado é ainda o “mula-manca”;
em sapatos, também predominam côres bem diversas das usuais, como o rosa, por
exemplo.
– Em que gênero aperfeiçoou se na França?
Fiz estudos completos sobre a alta costura e especializei me
em chapéus que oferecem atraentes possibilidades aos profissionais sob o
ponto-de-vista artístico e do bom-gôsto.
– A mulher européia usa muito chapéu?
Sim. Em primeiro lugar devido ao clima, em segundo devido ao
seu apêgo à elegância, que é seu ponto alto, pois que a mulher sem chapéu é
como um rei sem corôa.
– Agora, a nossa pergunta final: irá fazer outro desfile de
moda em nossa cidade?
Talvez.
Com esta última e lacônica resposta demos por encerrada a
nossa entrevista, ocasião em que aproveitamos para formular nossos votos de
felicidade ao modista Ruy.

























