O dia 14 de julho de 2016 – há cinco anos – não será esquecido tão cedo em Novo Hamburgo.
Neste dia, parte da cidade foi violentamente atingida por uma chuva de granizo, que trouxe muitos prejuízos.
O Portal Martin Behrend registrou este acontecimento. Na mesma reportagem, relembrou outro episódio muito parecido registrado no município, mas em 15 de maio de 1948.
O jornal O 5 de Abril registrou divulgou da seguinte forma: “Caiu violenta chuva de granizos sobre a cidade”.
Esta matéria do Portal Martin Behrend, citando o episódio de 2016 e relembrando a ocorrência de 1948, pode ser relembrada aqui: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .
11 DE JUNHO DE 1898
Na matéria do Portal Martin Behrend acima destacada, tem uma rápida citação: “Em outras duas datas, pelo menos, a ocorrência do granizo trouxe muitos prejuízos aos moradores da região. O primeiro foi em 1898.”
Só que na matéria não é destacado nem detalhado o que ocorreu há mais de 120 anos.
Pesquisando no acervo do jornal O 5 de Abril – o primeiro jornal de Novo Hamburgo -, tem um registro deste acontecimento histórico na edição de 9 de junho de 1961.
É um artigo publicado por Leopoldo Petry relembrando exatamente o que teria ocorrido em 11 de junho de 1898.
O Portal Martin Behrend transcreve, na íntegra e com grafia original da época, a publicaçã de Petry.
CHUVA DE PEDRA
O 11 de junho vive na memória do povo de Novo Hamburgo como um dia azarento, pois, foi nesse dia, em 1898 que desabou sôbre nossa cidade uma chuva de pedra de tais proporções, como poucas vêzes ocorreu em nosso Estado.
Foi por esse motivo que inclui na história de Novo Hamburgo, de minha autoria, um relato dêsse fenômeno da natureza.
Agora, o meu dedicado amigo sr. Rubem Burger, a quem já me referi em publicação anterior (na edição de 25 de março p.p.) têve mais uma vez a gentileza de colaborar comigo em meus estudos históricos e em carta de 2 de maio último me escreve:
“Tendo-me impressionado de tal maneira com a chuva de pedras que caiu sôbre a cidade de Novo Hamburgo em 11-6-1898, conforme a descreveu o amigo em seu livro intitulado “O Município de Novo Hamburgo – Monografia”, dei-me o trabalho de ir a Biblioteca Municipal de Pôrto Alegre, a fim de copiar do “Correio do Povo da época maiores detalhes sôbre o pavoroso temporal”.
Como se trata de um assunto que tão profundamente deve ter abalado a população da nossa Terra, aqui transcrevo as informações que me remeteu aquêle incansável pesquisador de nossa história, a quem apresento aqui meus agradecimentos pelo grande serviço prestado, não sómente a mim, mas a todos os leitores dêste jornal, os quais certamente lerão com muito interesse essas reminiscências:
“Correio do Povo”
Pôrto Alegre, Terça-feira, 14 de junho de 1898.
GRANDE TEMPORAL
11-6-1898
Chuva de pedras – Danos e contusões
Publicamos ontem, no nosso Boletim das segundas-feiras, as seguintes linhas:
“Ante-ontem, por volta das 7 horas da noite, desabou medonha tempestade sôbre Novo Hamburgo, Hamburgo-Berg e Campo Novo, abrangendo também os territórios circunvizinhos dessas povoações.
Aquela hora, a temperatura começou a elevar-se extraordinariamente, e dentro em pouco caía uma enorme chuva de granizos, alguns dos quais tinham o pêso de 1,600 gramas e sendo os menores do tamanho de ovos de peru; todos êles de forma elipsoidal.
Essas grandes massas de gêlo, caindo sôbre os telhados das casas de tais povoações, causaram-lhes grandes danos, ficando alguns completamente destruídos.
Em muitos prédios cujas coberturas eram de zinco, estas foram arrombadas, apresentando perfurações até de dez centímetros sôbre oito de largura.
As pedras de gêlo, saindo sôbre as paredes, nelas produziam fendas de profundidade extraordinária, como se fossem feitas por projetis de armas de fogo.
Calcula-se que atinge a quinhentas o número de casas de ficaram completamente danificadas.
Calcula-se que, para reparar os telhados sujeitos a avárias serão necessários, na média, três milheiros de telhas para cada prédio, elevar-se-á a um milhão e quinhentas mil o número de telhas necessárias para substituição de tôdas as que foram quebradas pela chuva.
Aves, em grande quantidade, ficaram mortas nos terreiros, e muitas delas apresentavam os corpos completamente achatados, tal era o pêso dos granizos. Também morreram muitos animais vacuns e cavalares.
O fenômeno ficou localizado nas regiões acima referidas, tanto que nada sofreu a casa do coronel Jacob Kroeff, situada entre Novo Hamburgo e São Leopoldo.
O barulho produzido pelas pedras de gêlo, dentro das casas, era tão grande, que não permitia ouvir-se o que disiam os moradores dos prédios, embora gritando, para se fazerem compreender.
Mulheres e crianças, aterrorisadas com os efeitos da tempestada, ocultavam-se sob as camas e outros móveis, temendo a cada momento serem vítimas da catástrofe.
Muitas pessoas foram feridas e contusas pelas pedras, inclusive uma filhinha do cidadão Dioclecio Mancio, auxiliar da comissão de prolongamento da estrada de ferro de Novo Hamburgo; e o encarregado do buffet da estação de Novo Hamburgo, o qual ficou lastimado no ôlho direito e na face; a espôsa do dr. Luiz Sampaio, a qual teve o ombro esquerdo contundido, etc, etc.
O pessoal da comissão de prolongamento da estrada de ferro de Novo Hamburgo, comissão de que é chefe o Dr. Gomes Parreira, emigrou ontem domingo, para esta capital, com suas famílias, no trem da tarde.
Muitas senhoras vieram em trajes caseiros e de tamancos, e quasi tôdas as crianças descalças, pois não houve tempo para fazerem toilett, além de que móveis, roupas e outros objetos de uso estavam completamente molhados.
Após oito a nove minutos de terrível bombardeio, êste cessou, continuando, porém, a chuva torrencialmente, até a manhã de domingo. Para se protegerem contra as águas fluviais, os moradores que não se achavam ocultos em baixo de camas e mesas tinham de andar, dentro de suas casas armados de guarda-chuva, pois os telhados estavam todos arrombados.
Essa noite foi horrível para tôda a população daquela zona, e crudelíssima para muitas pessoas enfêrmas, entre as quais a exma êsposa do Dr. Parreira, senhora que apenas há um mês dera a luz a uma criança.
A maioria das famílias, temendo ser vitimada pelas pedras de gêlo e pelos cacos de telhas que caiam, refugiaram-se nos prédios cobertos de zinco que, como acima dissemos, também foram arrombados.
As pedras, perfurando os telhados e vindo cair sôbre os móveis das casas, aí quebravam louça e outros objetos, alguns de regular consistência, o que não impedia que ficassem de todo espatifados.
Enfim, a tempestade foi de proporções assombrosas, como se vê da pálida descrição de acima deixamos feita. Apresentam aquelas povoações o aspecto de pontos alvejados por nutrido bombardeio.
Um dos nossos reporteres seguiu ontem para aquela zona, com o fim de colher pormenores sôbre a catástrofe. Na 2.a página desta fôlha damos hoje outros pormenores sôbre os estragos produzidos pelo fenômeno.
ÚLTIMA HORA
O temporal e seus efeitos.
A detalhada notícia que ontem publicamos, em boletim profundamente distribuído, e que hoje reproduzimos na 1.a página desta fôlha, temos a acrescentar mais alguns pormenores, alguns deles colhidos pelo reporter que mandamos a Novo Hamburgo e Hamburgo-Berg.
Muitos proprietários vieram anteontem a Pôrto Alegre com o fim de comprarem telhas de barro e zinco, para cobrirem os seus prédios. Apezar de ser domingo, várias casas comerciais abriram as suas portas para venderem êsse artigo.
As 3 horas da tarde de domingo seguiu para Novo Hamburgo um trem espesso conduzindo essa carga. Sabemos que só o Sr. Othello Pons vendeu nada menos de duzentas e vinte e cinco mil telhas de barro.
A agente do correio de Novo Hamburgo, Dna. Maria da Gloria Ribeiro, tendo ficado com sua casa descoberta, pediu a administração licença para transferir a agência para São Leopoldo, onde se acha funcionando.
O Dr. Luiz Sampaio, que se acha residindo temporariamente em Novo Hamburgo, veio ontem para esta capital, em companhia de sua exma família.
O Dr. Schermann, médico do estabelecimento hidroterápico de Novo Hamburgo, sofreu uma grave contusão na região lombar. Êsse estabelecimento, que tem um confortável hotel, sofreu muitos estragos, quasi ficando sem terem onde pernoitar as pessoas que ali se achavam em tratamento.
Entre os hóspedes dêsse hotel, achava-se o o Sr. Gustavo Woebcke, guarda-livros da casa G. Livonius, desta praça, o qual passou a noite sentado em uma cadeira, por não ter onde se deitar. Êsse cavalheiro seguira daqui na tarde de sábado, com mais três companheiros, a fim de passar o dia de domingo a caçar, em matos próximos a Novo Hamburgo.
Em conversa com o nosso reporter disse êle não ter jamais assistido a um temporal tão medonho como o que nos fornece assunto para esta notícia; e que o pânico por êle produzido foi extraordinário, ouvindo-se em tôda a parte os lamentos das famílias aterrorizadas com a catástrofe.
O Sr. G. Woebcke e seus três companheiros encheram três latas com blocos de gêlo, que apanharam logo após a tormenta, tendo um dêsses 12 centímetros de largura sôbre 15 de comprimento.
O superintendente da estrada de ferro de Novo Hamburgo, cuja estação bastante sofreu, logo que teve conhecimento das ocorrências, mandou seguir um trem expresso, conduzindo todos os carros disponíveis. Êstes foram logo postos a disposição, da população, tendo servido de abrigo a famílias inteiras. Em outro trem expresso, o mesmo superintendente foi ontem, ao meio dia, em companhia de outros empregados, tomar várias providências.
Na manhã de domingo, mais de 12 horas após o temporal, ainda se encontravam em Novo Hamburgo, pelo solo, granizos de tamanho regular. Muitas árvores foram cortadas, e no solo notavam-se grandes fendas abertas pelas pedras.
O nosso reporter diz ser desolador o estado em que se acham as povoações de Novo Hamburgo e Hamburgo-Berg; as casas quasi tôdas destelhadas e alagadas pelas águas; móveis esparsos; e, como consequência de tantos danos uma tristeza sem nome em todos os moradores daquelas localidades.
Muitas casas antigas achavam-se em ruínas. Entre essas, constam-se as do Sr. Mathias J. Luetz, proprietário de um dos hotéis ali estabelecidos, a do Sr. Candido Maximo de Araujo e outras. Muitas casas comerciais sofreram grandes prejuízos em mercadorias como a do Sr. Carlos Sperb, de Hamburgo-Berg.
O telégrafo entre Novo Hamburgo e São Leopoldo ficou interrompido, tendo caído alguns postes das respectivas linhas. Calcula-se em quantia muito superior a cem contos de réis o valor dos estragos causados pelo temporal.

























