O cimento. Tão frio e indiferente. Um pó ensacado e, aparentemente, sem vida. Mas, então, a mágica. Um pouco de água e temos o efeito. A massa ganha peso e movimento. Tudo ainda irregular, indefinido. Até que duas hábeis mãos surgem. Dão formas, curvas, retas, volumes. Delineiam cavidades e contornos. As mãos não param. Surge um rosto, uma perna, um olho, um pé: dá-se a escultura. Encravado no coração do bairro Canudos, em Novo Hamburgo, o professor e artista plástico Everaldo Meregali dos Santos, 46 anos, transforma o bruto cimento em obra de arte. Tudo isso num oásis criativo. É envolvente e apaixonante.
O talento de Everaldo foi desvendado nas barrancas de rios e lagos em Santo Antônio da Patrulha. É lá que teve acesso a sua primeira
matéria-prima – o barro – e moldou algumas ovelhinhas. Seu talento para a arte era inegável: desenhava em cadernos, folhas soltas e tudo quanto é tipo de papel. No começo da década de 1980, veio
para Novo Hamburgo trabalhar como modelista de calçados. Estudou no Senai, seguiu trabalhando com modelagem, mas vislumbrava a faculdade de Artes na Universidade Feevale. “Precisava do trabalho para poder pagar meus estudos. Era uma vontade e uma necessidade entrar na faculdade”, conta.
Na Feevale, Everaldo teve contato com diferentes técnicas. Foi sendo aluno do mestre Carlinhos Geib que descobriu escultura em cimento. Tinha também argila, mas o cimento causou uma provocação em Everaldo. “Cimento é a técnica mais suja e complicada, porque não se pode errar. Mesmo assim me apaixonei! Não sei e realmente não dá para entender! O ser humano não tem explicação”, responde e filosofa. “Esculpir em cimento é um ato de fé. É acreditar que vai dar certo. Dá para dizer que vou
‘desesculpindo’: pego
do nada e vai surgindo a imagem”, completa.
O talento de Everaldo é inquestionável. E sua inquietude, contagiante. Mostra telas, esculturas, desenhos espalhados por seu espaço de trabalho, cercado de verde e com um mirante com visual para boa parte do bairro Canudos. Tem várias obras em desenvolvimento, algumas no pátio, outras dentro de casa. “Sou um pedreiro da arte”, resume. A base dos modelos é feita com ferros e arames: este é o porto seguro que vai receber o cimento. A partir disso, começa o trabalho contra o relógio para dar as formas pensadas e desejadas. É arte pura.
Além do trabalho como escultor, ele é professor na Escola Estadual Borges de Medeiros, no bairro Rondônia. “Não dá para viver só de arte. Ainda”, explica. Everaldo recebe diferentes encomendas, seja para jardins, empresas, interiores de residências ou apartamentos. Tem uma dedicação incrível. É apaixonado pelo que faz e sabe ser generoso. Fez escultura de mais de dois metros para doar para o município de Novo Hamburgo. A resposta da Prefeitura não veio. Everaldo não desistiu e foi no vizinho: Campo Bom mostrou reconhecimento e recebeu de braços abertos seu trabalho.
A arte de Everaldo é sedutora, enigmática e provocadora. Esculturas ganham papel de luminárias, vasos de flores e até de base para cubas – por que a arte não pode ser útil? Braços de cimento perfeitamente retocados se esgueiram pelas paredes e ganham protagonismo em salas e quartos. Olhares saltam vivos de bustos fixos – parecem dizer algo. Obras no muro de sua casa interagem com os pedestres e motoristas, ora com água jorrando, ora com latidos que ecoam no vazio de uma vistosa escultura. Tem poesia, história, cultura e paixão reunidas num mesmo processo construtivo. O trabalho já rendeu elogios e afagos de um grande mestre: Ernesto Frederico Scheffel. Não há dúvidas: as esculturas de Everaldo são pura emoção.

























