Uma abordagem de integrantes da Guarda Municipal de Novo
Hamburgo deixou família hamburguense indignada. Com o carona do veículo infartando,
o carro ficou mais de dez minutos preso numa abordagem da Guarda Municipal em
razão da motorista estar sem a Carteira Nacional da Habilitação (CNH).
Tudo isso terminou com o homem indo parar na UTI do Hospital
Unimed VS. O diagnóstico da cardiologista incluído no prontuário foi: infarto
agudo do miocárdio. Felizmente, ele sobreviveu e retornou para casa após quatro
dias internado. A versão do casal Silvio e Renato K., contudo, tem informações
diferentes de dados informados pela Guarda Municipal.
Refeita do susto, mas ainda revoltada, a família deverá
acionar Ministério Público (MP) para que seja apurada omissão de socorro por
parte dos policiais. A família também registrou Boletim de Ocorrência na
Polícia Civil.
O drama do casal Silvio e Renate K., 66 e 62 anos,
respectivamente, começou na tarde de sábado (11). Moradores da rua 3 de
Outubro, no bairro Pátria Nova, eles deixaram o prédio onde residem para um
aniversário. O homem estava dirigindo – um hábito do casal. Após andarem duas
quadras, Silvio começou a se sentir mal. Ele parou o carro na avenida 1º de
Março para evitar algum acidente.
Como o quadro assustou a esposa, eles seguiram até uma
farmácia na avenida Pedro Adams Filho. Lá, com dificuldades de caminhar, o farmacêutico
também não conseguiu medir a pressão. “Ele estava branco, pálido, mal conseguia
falar. Arrastei ele pro carro para ir até o Pronto Atendimento da Unimed VS”,
relata Renate.
Da Pedro Adams Filho, eles alcançaram novamente a 1º de
Março, na rua lateral do Maxxi Atacado. Ali, ela contornou a avenida para
ingressar na rua Araxá. Nesse momento, ela se deparou com uma barreira da
Guarda Municipal. Assustada com todo quadro, parou o veículo para ver por onde
poderia passar. Os guardas, diante do veículo que estava na rua, gesticularam
para a motorista a fim de realizarem a abordagem.
Renate estava sem a CNH. E relatou o que estava acontecendo.
“Expliquei o motivo de estar dirigindo. Meu marido do lado, pálido, com dores,
estava tudo ali. O que se passou a partir desse momento foi uma falta de
vontade em ajudar. Não me liberaram. Ficaram pedindo meu nome, nome da minha
mãe, para soletrar calmamente meu sobrenome. E meu marido do lado infartando.
Eles não se importaram. Não nos liberaram. Não correram. Não agilizaram a
situação. Nem ofereceram ajuda”, descreve Renate.
De posse dos dados, um do guardas foi até o rádio, repassou
dados da motorista, soletrou para a base da Guarda Municipal, fazendo o atendimento
de forma protocolar. Com a confirmação da motorista estar falando a verdade –
sua CNH estava válida –, ele autorizou a liberação do casal. Resumindo: foram
de 12 a 13 minutos com o veículo na rua Araxá – desde que ingressou na rua até
que fosse liberado.
A reportagem do Portal Martin Behrend teve acesso a imagens
de câmeras de segurança posicionadas para a avenida 1º de Março e avenida
Nações Unidas. O carro do casal passou ao lado do Maxxi às 16h39. E o carona
infartando ingressou no Pronto Atendimento da Unimed VS às 16h58. Foram 19
minutos. É uma eternidade para quem está infartando. Em condições normais, esse tempo levaria de 5 a 7 minutos, dependendo
do fluxo da sinaleira – num sábado de baixo movimento, 5 minutos é seria o suficiente.
Chegando na Unimed VS, o atendimento foi de excelência. Seu
quadro foi considerado como “Urgente” na classificação da Unimed. O plantão
cardiológico logo foi acionada e os primeiros exames foram realizados. Em menos
de uma hora, uma equipe estava pronta para transfeir Silvio para o Hospital
Unimed VS, onde outra equipe estava à espera. Ele passou por cateterismo e
ocorreu a colocação de stent. Silvio ficou dois dias na UTI e, no total, quatro
dias hospitalizado.
Ainda hoje, Renate não entende a falta de vontade da Guarda
Municipal em entender a situação, que poderia levar o marido à morte. “Era
visível a situação dele. Só estava pedindo para levar ele até o PA da Unimed
VS. Depois, se quisessem multar, tudo bem. Mas ali estava em risco a vida do
meu marido. E em casos como esses, um minuto faz muita diferença. Tanto que
ficou uma sequela no coração dele. Infelizmente, tudo muito triste, ainda mais
vindo de quem deveria proteger e cuidar do cidadão”, finaliza Renate.
A reportagem do Portal Martin Behrend entrou em contato com
a Guarda Municipal. O contraponto veio por e-mail com a resposta a quatro
questionamentos:
Por que a
Guarda, que tem como lema protetora e amiga, não agiu dessa forma – protegendo
e sendo amiga – escoltando o cidadão? Ressalte-se: um casal com mais de 60
anos.
Importante esclarecer, inicialmente, que a GMNH desenvolvia blitze, de caráter
preventivo e fiscalizatório, buscando coibir possíveis delitos relacionados ao
trânsito e construída a partir de denúncias de assaltos na Rua Araxá e entorno.
No caso em questão, ao avistar a guarnição da GMNH a condutora parou o veículo
a cerca de 50 metros da barreira, em local deserto, e tentou dar ré.
Procedimento de possível evasão que chamou a atenção dos guardas, que se
aproximaram para verificar. Ao abordá-la, ela relatou não portar CNH e disse
que o marido (que chegou a conversar com os guardas) estaria sendo conduzido
para atendimento médico, por estar se sentindo mal. A GMNH se disponibilizou a
escoltá-los, mas o que foi considerado desnecessário pelo casal.
Por que os guardas agiram de forma tão protocolar e indiferente? É um
procedimento padrão?
O procedimento de abordagem adotado pela GMNH é padrão no caso de suspeita, que
foi o constatado ao início da ocorrência. Não houve indiferença no atendimento,
pois tão logo verificada a situação ocorreu a pronta liberação do veículo e do
casal. Procedimento que durou menos de 4min, após a checagem online da
documentação do veículo e da condutora. Vale observar ainda que chamou a
atenção da GMNH o fato de que o casal buscava atendimento no Hospital da
Unimed, que fica ao norte da Araxá. Porém, o veículo trafegava no sentido
norte-sul e sem pisca alerta (procedimento padrão em situações de emergência).
O que vale mais para a Guarda: uma vida ou checar um documento?
Para a GMNH sempre vale a preservação da vida. E, por isso, sequer a condutora
foi notificada, com o veículo e ocupantes sendo liberados com agilidade.
Qual a orientação da Guarda em casos em que vidas estão em risco?
Quando verificado situações de emergência médica o procedimento adotado é a
guarnição acompanhar até o hospital ou posto médico. E, se tiver que notificar,
o faz posteriormente ao atendimento de saúde. Neste caso, reforçamos que não
houve o aceite da escolta pelo casal e a rápida liberação para que seguissem
viagem.
