Carlos Drummond de Andrade. Escritor, contista, cronista, poeta. Um gênio das letras. Em determinado momento de sua trajetória, ele escreveu o poema “José”. Um clássico. Envolvido e até cansado com o episódio da greve dos professores municipais de Novo Hamburgo – são mais de 20 dias –, decidi beber na fonte de Drummond. E, numa livre adaptação, criei José (Luis Lauermann). Afinal, poesia também pode ser Jornalismo.
Publico, na primeira parte, o poema José, de Carlos Drummond de Andrade. e, logo, na sequência, a livre adaptação inspirada no governo do prefeito de Novo Hamburgo, José Luis Lauermann.
José – Carlos Drummond de Andrade
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
José (Luis Lauermann) – Livre adaptação de Martin Behrend
E agora, José?
O dissídio parcelou
Professor não gostou
Sindicato protestou
A greve chegou
E agora, José?
A base rachou
Fufa saltou
Brizola debandou
Jorge Tatsch se revoltou
E agora, José?
Lucas se fechou
Coller se refugiou
Roger fraquejou
Naasom se calou
E agora, José?
O Peteffi disfarçou
Mas o Issur alertou
A Patrícia escancarou
O Serjão trovejou
E agora José?
Na reunião, faltou
Roque desconversou
E na rádio, quem diria
O Beto chorou
E agora, José?
Dinheiro pra CC não faltou
Para publicidade, orçamento sobrou
E para as diárias de luxo
O corte demorou
E agora, José?
Muita promessa disparou
Um monte de companheiro
desempregado, empregou
Um dia a conta chegou
E agora, José?
O Tarcísio se aproximou
Mas a ajuda não funcionou
Em quem confiar
Se o governo rachou?
E agora, José?
Professor pressionou
A Guarda, chamou
O prédio isolou
A censura pegou
E agora, José?
A Câmara lotou
O caldo entornou
O tempo fechou
O projeto não passou
E agora, José?
O Vilmar se atordoou
Professor se exaltou
A indignação se amontoou
A greve não cessou
E agora, José?
O apelido de Fantasma pegou
E o slogan, Todos cuidem de todos
Todos cuidem de tudo
Onde ficou?
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou
E agora, José (Luis Lauermann)?
E agora, Novo Hamburgo?

























