Um tradicional clube de futebol de Novo Hamburgo está prestes a ficar sem teto.
O Botafogo Futebol Clube, do bairro Jardim Mauá, que completou 70 anos em maio deste ano, recebeu uma notificação de desocupação da área pública que ocupa.
Segundo o documento entregue por servidores da Prefeitura, “A medida decorre da necessidade de revisão e adequação do uso de bens públicos às diretrizes legais e administrativas”.
A Notificação 002/2025 foi assinada pelo prefeito, Gustavo Finck (PP), e pelo diretor de Patrimônio, Igor Roberto de Oliveira Eloy. O prazo para liberação da área se encerra em 3 de outubro.
Nos últimos dias, moradores do bairro e integrantes do clube procuraram o Portal Martin Behrend sugerindo uma reportagem sobre o tema. Embora eles tenham sido notificados em julho deste ano, havia a certeza e a esperança que seriam recebidos pelo prefeito para entender a situação e buscar uma solução conjunta. “A população do bairro está indignada, já que o lugar não é apenas um campo: é memória, tradição e futebol de várzea todo final de semana, movimentando cerca de 200 pessoas por final de semana”, destaca um dos frequentadores. “A ordem de saída do prefeito se dá sem sequer conversar com os moradores, clube e vereadores. De forma autoritária, ele se nega a ter uma reunião com quem quer que seja, sendo que já estamos há muito tempo solicitando”, completou.
Conselheiro do clube, o empresário Gerson Luis Sudekum está inconformado com a intransigência do prefeito em não estabelecer um diálogo com o clube e a comunidade. “Temos os registros do trabalho que realizamos aqui, mas isso foi ignorado. Inclusive nossas ações sociais estão documentadas”, destacou. “Fizemos contato por e-mail, mas nos informaram que o prefeito não iria falar, que a decisão estava tomada e não vai ter volta”, completou Sudekum.
PRIORIDADES
A transformação da área do Botafogo em um parque de lazer não é considerada prioridade para moradores do bairro Jardim Mauá. Até porque, o bairro é vizinho do maior parque da cidade – o Parcão – onde existe lazer, Playground, quadras esportivas, espaços de ginástica, natureza, trilhas, entre outros atrativos. “No bairro e na cidade existem diversos parques abandonados. O Hospital Municipal sequer tem roupa de cama, mas o prefeito está mais preocupado em acabar com parte da história do bairro”, desabafou um integrante do Botafogo, que fez contato com a reportagem.
Gerson Sudekum reforça que os moradores estão cobrando mais segurança, melhor asfalto em razão da buraqueira e investimentos nas escolas. Estas são as prioridades desta região, e não gastos com um parque ao lado do Parcão. Segundo o empresário, existe um grupo de comunicação no bairro com quase 200 pessoas. “Todas estão apoiando a causa do Botafogo. Não justifica esse investimento. O Jardim Mauá não precisa disso”, salienta. “Nós queremos ser parceiros da Prefeitura. Queremos manter essa área e cuidar sem custos, na parceria. Mas o prefeito não quer nos receber”, completa Sudekum.
PREFEITURA
O Portal Martin Behrend fez contato com a Prefeitura enviando alguns questionamentos sobre a falta de diálogo do prefeito e os planos para aquela área. Foi enviado o seguinte esclarecimento:
“Sobre o questionamento, a Prefeitura esclarece que no dia 3 de julho o senhor Gerson Süderkum (grafia enviada pela Prefeitura) foi informado de que deveria desocupar o espaço no prazo de 60 dias. No dia 14 de julho, ele enviou um e-mail pedindo a reconsideração da determinação. No dia 30 de julho, foi informado pela Diretoria de Patrimônio que a decisão do prefeito Gustavo Finck, de retomar a área, seria mantida.
No dia 04 de agosto, o senhor Gerson fez contato novamente pedindo uma reunião para falar sobre o assunto e foi informado que ele deveria contatar o Gabinete do prefeito para o agendamento da mesma. O mesmo fez contato por e-mail com o Gabinete do Prefeito, que foi respondido em 18 de agosto, sendo informado que a decisão estava mantida.
Em 28 de agosto, ele recebeu nova notificação, informando que o período para desocupação havia sido prorrogado por 30 dias, com prazo final em 3 de outubro.
A intenção do Município é utilizar a área para construção de um parque urbano. O projeto ainda está em construção e quanto estiver finalizado será divulgado à comunidade.”
ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA
A reportagem do Portal Martin Behrend apurou, com fontes próximas ao governo municipal, que essa medida poderia estar ligada à especulação imobiliária e interesses de investidores ainda da campanha de Finck. Por ser uma área nobre, num bairro residencial bem localizado, essa desocupação poderia estar ligada a futuros negócios imobiliários. “A Prefeitura diz estar quebrada. Basta passar em praças e rótulas. Tem mato, cercas caídas, quadras esportivas pela metade, brinquedos quebrados há meses. Como vai gastar com um parque verde ao lado do maior parque verde do município? E ainda tirar um clube tradicional da cidade? Isso não faz qualquer sentido. Pela minha experiência, existem outras intenções”, avaliou um experiente político hamburguense com passagem pela Prefeitura. Contudo, essa situação acima registrada ainda é uma avaliação informal, já que a Prefeitura informa que ali será um parque urbano.
REQUERIMENTO
Na tentativa de encontrar respostas, a diretoria do Botafogo procurou a Câmara Municipal. A partir dos relatos dos dirigentes do clube, foi elaborado o Requerimento 1312/2025, de autoria dos vereadores Daia Hanich (MDB) e Cristiano Coller (PP). Os dois integram a base de apoio do prefeito Finck.
As questões enviadas para a Prefeitura foram:
1 – Qual é o motivo específico da notificação de desocupação enviada à entidade Botafogo Futebol Clube?
2 – Com a possível desocupação do imóvel pelo Botafogo Futebol Clube, há preocupação dos moradores em relação à segurança pública; o que será feito com o espaço – há planos para a construção de um empreendimento, uma praça ou outro tipo de uso?
3 – Existe algum processo de venda, nova cessão ou reforma previsto para o local que possa esclarecer o futuro uso do espaço?
4 – Caso o imóvel esteja sendo vendido, a Prefeitura pode garantir a permanência da entidade até a conclusão do processo de venda?
5 – Há alguma possibilidade de prorrogação do prazo de desocupação além dos 60 dias inicialmente estabelecidos?
6 – A Prefeitura pretende disponibilizar outro imóvel público para que a entidade possa continuar suas atividades esportivas e sociais?
7 – Já existe outro local definido ou em análise para ser destinado à entidade?
8 – A Prefeitura está disposta a dialogar com a diretoria da entidade para buscar uma solução conjunta?
AÇÕES
Neste mesmo requerimento enviado pela Câmara de Vereadores, foram anexados dados e fotos de projetos e benfeitorias realizados pelo Botafogo ao longo do tempo. Entre eles, estão a atuação solidária na enchente, movimentação social e esportiva no bairro impactando centenas de pessoas, melhorias na praça esportiva e limpeza do entorno do clube.

Também foram apresentados projetos que deverão ser colocados em prática nos próximos anos, como o cercamento da área, construção de novas quadras esportivas, instalação de uma academia e de uma pista atlética. O dossiê é assinado pelo presidente do Conselho Deliberativo do Botafogo Futebol Clube, Vladimir Luis Tavares.
Até o fechamento da reportagem, a Prefeitura não tinha respondido os questionamentos dos vereadores.

























