O mundo clama por mais bicicletas e menos carros. É ecologicamente correto, diminui congestionamentos, reduz a poluição, destranca cruzamentos. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre compram brigas com motoristas de automóveis por querer implantar mais pistas para os ciclistas. Já em Novo Hamburgo, dois anos após a implantação da ciclovia, a conclusão que se tira é uma só: fracasso.
O traçado de quatro quilômetros ligando o Centro ao bairro Santo Afonso, sob os trilhos do trem, nunca foi um projeto prioritário. Desde o retorno do trem ao município, foi tratado como um projeto do tipo “se der, deu”. Mesmo escanteada, a ciclovia nasceu com a esperança de incentivar os motoristas a deixar
seus veículos em casa e utilizar
as bicicletas como meio de transporte alternativo. São tantas as vantagens óbvias de se ter uma ciclovia – já mencionadas acima – que se imaginou Novo Hamburgo se colocando na vanguarda dos municípios que buscam soluções para a mobilidade urbana e para defesa do meio ambiente.
Balela. A ciclovia de Novo Hamburgo é um fracasso retumbante. O principal responsável por essa realidade é o governo do prefeito Luis Lauermann (PT). Desinteressado, omisso e irresponsável, sempre tratou com desleixo do espaço a ponto de tentar transformá-lo em calçadão – inclusive, foram colocadas placas, posteriormente retiradas por intervenção do Ministério Público, indicando que seria espaço de pedestres.
O Blog Martin Behrend, após dois anos de vida da Ciclovia Victor Nicolau Körbes – que não merecia tal homenagem num espaço tão maltratado –, avalia cinco pontos que confirmam o fracasso de uma alternativa que poderia trazer importantes benefícios para a comunidade.
Falta de campanha para divulgação – A Prefeitura de Novo Hamburgo faz campanha para tudo: valorização e respeito da faixa de segurança, uso racional da água, produção de cisternas caseiras, vacinação, etc. Contudo, nunca se dedicou a criar uma mobilização e eventos para convidar os ciclistas hamburguenses a se utilizarem do espaço. Tem gente que não sabe ao certo o que significa aquela faixa vermelha – símbolo universal de espaço para ciclovia.
Ausência de sinalização e conclusão das obras – A ciclovia foi construída pela Trensurb através do consórcio responsável pelas obras do trem. E ficaram
faltando complementos, como sinalização adequada, acabamentos e o ajardinamento do outro lado do Arroio Luiz Rau. A obra ficou pela metade e a Prefeitura, ao invés de zelar pelo bem-estar da população e assumir sua parcela de responsabilidade, deixou o abandono prosperar. Afinal, a manutenção do espaço é dever da Prefeitura.
Secretário desqualificado – O secretário de Segurança e Mobilidade Urbana, Egon Kirchheim (PT), se mostrou altamente desqualificado. Ele, que é morador de Sapiranga, onde as bicicletas são tratadas de forma especial, revelou incrível grau de
desisnteresse
e foi o principal articulador para a ciclovia se transformar num calçadão.
Insegurança e consumo de drogas – Não bastasse a falta de manutenção e o abandono da ciclovia, o local se transformou num cenário para consumo de drogas (perto da Fenac tem registros frequentes) e assaltos. Há duas seamans, Claudia Laux relatou: “Acabo de ser assaltada por dois magrõezinhos ali na Ciclovia na altura do Supermercado Bourbon. Gostaria de agradecer à Prefeitura de Novo Hamburgo e também ao sistema de policiamento, que acredito ser inexistente.”
Jeitinho brasileiro – A população hamburguense abraçou a ciclovia. Só que abraçou ao contrário: para caminhadas, skate, patinete, passear com pets, carrinhos de bebê, desfile de madames e jovens ao celular. Os hamburguenses preferiram adotar o jeitinho brasileiro e ignoraram por completo o que diz o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), Anexo 1: “Ciclovia é uma pista própria destinada à circulação de ciclos, separada fisicamente do tráfego comum”. Pensando no conforto pessoal, centenas de pessoas invadiram o espaço que deveria ser dos ciclistas, afinal, é uma ciclovia. Ciclistas, por vezes, precisam implorar para pedir passagem num espaço invadido por pedestres.
Ao invés de pressionarem prefeito, secretários e vereadores a melhorar as calçadas, ao invés de cobrar a criação de um calçadão do lado embarrado do Arroio Luiz Rau, a turma do jogging e do passeio achou bem cômodo o espaço para malhar os corpinhos. Neste caso, a turma que pede menos corrupção e mais transparência optou pelo jeitinho, ajudando no fracasso da ciclovia.
Em março do ano passado, publiquei reportagem no link http://www.martinbehrend.com.br/home/noticia.php?id=561 com sugestões para a ciclovia num recado à Prefeitura. Como permanecem atuais, torno a divulgá-las:
1 – Novo Hamburgo ganhou uma ciclovia de presente. O mundo civilizado – inclusive São Paulo, do PT – está lutando por mais ciclovias e espaços por bicicletas. É mais saudável, ecologicamente correto, alivia o trânsito. Lutem, invistam e façam campanhas para que trabalhadores que nunca andaram numa ciclovia se utilizem do espaço. Lutem pela vida e pelo bem-estar destes trabalhadores.
2 – Sejam mais democráticos. Ouçam ciclistas e profissionais que têm experiência com ciclovias
3 – Arrumem o outro lado do Arroio Luiz Rau. Façam daquele espaço um trilho asfaltado para caminhadas.
4 – Multem! Mas multem valendo quem não têm calçadas em dia. As caminhadas e corridas podem ser feitas nas calçadas. Mas muitas estão em situação deplorável. Multem. É só cumprir a lei.
5 – Não coloquem Novo Hamburgo no noticiário do ridículo, como a cidade que recebeu uma ciclovia de quatro quilômetros, mas transformou num grande vale tudo.
Entrei em contato com a Prefeitura de Novo Hamburgo. Enviei e-mail para seis integrantes da equipe de comunicação colocando o blog à disposição para esclarecimentos sobre os futuros projetos da Prefeitura para a ciclovia. Não obtive retorno.
