A ocupação de algumas escolas estaduais em Novo Hamburgo
está a caminho de completar um mês. Já são mais de três semanas sem aulas nestes
educandários. A reportagem do Portal Martin Behrend esteve circulando na
ocupação do Colégio 25 de Julho, no Centro, e visitou os colégios Senador Alberto
Pasqualini, em Hamburgo Velho, e Borges de Medeiros, na Rondônia, que também estão
ocupados – além de apurar, nas últimas duas semanas, diversas informações.
A certeza é uma só: as ocupações estão divididas na luta por
melhor educação e escolas e, de outro lado, a politicagem, consumo de álcool
nas ocupações e manipulação de estudantes por entidades subsidiadas com
dinheiro público. Isso ficou ainda mais claro na noite de quinta-feira, na
Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo, onde foi realizada uma audiência pública
aberta à comunidade. Naquele momento, os manipuladores políticos provaram
que o movimento não é somente pela reivindicação de melhorias, mas tem o
carimbo inconfundível da politicagem.
LUTA POR UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE
E inquestionável que a situação da educação na rede estadual
de ensino é precária. O governador José Ivo Sartori (PMDB) vem sendo incapaz de
oferecer respostas de qualidade, inclusive parcelando salários dos professores –
situação vexatória e humilhante – e permitindo que escolas em situação precária
– herdadas de outros governos – continuem sucateadas. O mundo inteiro sabe: se
a infraestrutura oferecida para o ensino não for de qualidade, o prejuízo no
aprendizado é imediato.
A ocupação das escolas estaduais busca alertar a sociedade
gaúcha para o descaso do governo estadual com a educação. É fato que isso
também ocorreu em governos anteriores e não houve tanta mobilização, mas também
é realidade que Sartori conseguiu piorar quadro, parcelando e não reajustando
salários de professores. Presidente da Comissão de Direitos Humanos, Cidadania
e Defesa do Consumidor e organizador da audiência pública, o vereador Roger
Corrêa (PCdoB) destacou que a audiência teve como um dos objetivos fazer um
debate em torno do Projeto de Lei nº 44/2016, de autoria do governo Sartori,
que aponta a possibilidade da privatização da educação e, consequentemente, a
desresponsabilização do Estado sobre o fornecimento de uma educação pública,
universal e de qualidade. Além de Roger, integram a comissão Enio Brizola (PT)
e Vilmar Heming (PDT).
A ocupação das escolas tem um lado exemplar: a recuperação
do patrimônio público. Escolas sucateadas, pichadas – pelos próprios alunos –,
sujas e com locais enferrujados e quebrados vêm sendo recuperadas pelo suor de
alunos, pais, professores e simpatizantes ao movimento. Jardins recuperados, criação de horta, banheiros com novas cores, pilares pintados, classes limpas, pisos e forros
revitalizados, entre outras ações, vêm marcando estas três semanas de ocupação.
O tempo também vem sendo preenchido com apresentações culturais, palestras e
shows. “Não somos um bando de
desocupados, estamos lutando por uma educação pública e de qualidade. Venha
conhecer o que fazemos. Estamos pintando as portas das escolas, arrumando o
auditório, limpando o pátio. Nós queremos a retirada do PL 44 e, enquanto não
sair de pauta, nossa ocupação continua”, ressaltou a presidente do grêmio
estudantil da escola Maurício Sirotsky Sobrinho, Jenifer Schnorr, durante a
audiência pública.
POLITICAGEM, ÁLCOOL E MANIPULAÇÃO
A ocupação das escolas estaduais, contudo, tem um lado nada
saudável. Interesses políticos, manipulação de informações e de estudantes,
parcialidade na crítica e, inclusive, organização de orgias e festas com
consumo de álcool estão presentes em algumas escolas. Cabe relembrar que no governo
anterior, de Tarso Genro (PT), não houve pagamento do Piso Nacional do
Magistério e escolas estaduais estavam igualmente sucateadas. Contudo, o grupo
que hoje protesta nada fez para externar sua indignação no governo anterior. É
o típico caso de indignação seletiva.
Nesta mesma linha, as manifestações de Roger Corrêa e do
ex-secretário da Educação de Novo Hamburgo, Beto Carabajal, durante a audiência pública, são constrangedoras
pela parcialidade e omissão do descaso com a educação do governo do prefeito
Luis Lauermann (PT). No município, os professores até tiveram reajuste, mas ele
virá parcelado e a segunda parcela não será com valor retroativo – Roger votou
a favor desse parcelamento, ou seja, pela desvalorização dos professores do
município. Além disso, tem dezenas de escolas com goteiras, ratos na cozinha, falta
de climatização, inseguras e com obras conquistadas no Orçamento Participativo (OP)
esperando início há mais de quatro ou cinco anos. Roger e Beto nada falaram dos
graves problemas na educação do município, até porque fazem parte deste projeto
de desconstrução municipal.
Da parte de entidades que se manifestaram na audiência
pública e que defendem as ocupações, a União dos Estudantes de Novo Hamburgo
(UENH) repudiou, através do seu presidente, Gabriel Haupt, a ausência de
representantes do governo Sartori no debate. Correta manifestação, mas parcial:
a mesma entidade nada fala sobre os graves problemas na educação do município e
não repudiou o parcelamento do salário dos professores municipais. Uma das
explicações: nos últimos dois anos, o vereador Roger e aliados forraram os
bolsos da UENH com dinheiro público, sem que a comunidade tenha percebido
eventos, cursos, palestras ou seminários realizados com estes valores – cerca de
R$ 100 mil. Fica claro que a UENH foi comprada e não defende os interesses dos
estudantes, mas de políticos que irrigam as contas da sigla. Tem outros partidos que se proclamam de esquerda – como PSOL e PSTU – também infiltrados nas manifestações.
Em relação às escolas ocupadas, a reportagem do Portal Martin
Behrend foi escoltada dentro do Colégio 25 de Julho. A escola é pública, por
que um cidadão ser escoltado? O que tem a ser escondido? Se a escola é pública,
todos têm o direito a acessar, do contrário, estamos falando de invasão
irregular e indevida, já que um prédio público passa a ser controlado por
ocupantes.
Conversando com alguns pais e alunos que discordam das
ocupações, a indignação é que, em outros tempos, houve mutirão de melhorias nas
escolas estaduais sem que os alunos fossem prejudicados. Pais estão temendo se manifestar
contra o movimento com medo que filhos sofram represálias. Um pai concorda que
o governo Sartori precisa se mexer, mas isso não significa parar com o ano
letivo. A reportagem também recebeu mensagens de WhatsApp trocadas por alunos
da Borges de Medeiros, onde os diálogos não eram para agendar a limpeza de
salas, mas para organizar uma suruba e festa com consumo de álcool por menores
de idade.
Que a educação na rede estadual de ensino passa por uma
crise, é inquestionável. Que o parcelamento dos salários dos professores piorou
o quadro, não se discute. Que a política de investimentos em escolas é
insuficiente, também é fato consolidado. Contudo, o passar dos dias escancara
que as ocupações estão cada vez mais políticas, e menos espontâneas. Tem uma
gurizada sendo manipulada sem perceber. Tem entidade regada com dinheiro
público fazendo politicagem barata. Tem boa vontade da gurizada sendo
atropelada por interesses delinquentes. Tem anarquia travestida de direitos de
ocupação. A educação, lamentavelmente, vai ficando em segundo plano.

























