Alunos ocupam um dos maiores colégios do Vale do Sinos e realizam mutirão de limpeza e recuperação de estruturas

Incentivado por uma colaboradora e voluntária do Colégio
Estadual 25 de Julho, em Novo Hamburgo, fui tentar conhecer, neste sábado, os
bastidores da ocupação de um dos maiores educandários do Vale do Sinos. Com
cerca de dois mil alunos, o 25 está ocupado por alunos desde quinta-feira.
No
portão principal, na Rua José do Patrocínio, fui recepcionado por uma vistosa
faixa: “Mídia Fascista”.

Junto com uma estudante que chegava para colaborar com a
mobilização, entrei no 25.
Caminhando pelo pátio e por outros ambientes,
encontrei uma ocupação relativamente pacífica e construtiva. Os estudantes têm
preenchido o tempo com várias atividades: criaram uma horta junto ao muro da
esquina das ruas Castro Alves e Borges de Medeiros, com mudas de chás, temperos e
verduras; estão limpando os banheiros masculino e feminino, principalmente as
paredes tomadas por pichações; trabalham na revitalização de jardins com mudas,
pedrinhas e tintas. “Estamos recendo muitas doações de produtos e materiais.
Tem bastante gente se solidarizando com nosso movimento”, explica Yasmin
Passos, 18 anos, que está no 3º ano do Ensino Médio.

Além dessas atividades, estão ocorrendo promoções cultuais
e outras ações para envolver os alunos. Embora existam barracas montadas na
frente do colégio, elas estão ali de forma simbólica. Como está muito frio, foi
montado um acampamento dentro da área das churrasqueiras. O Ocupa 25 é um movimento
independente da greve do Cpers,
embora os alunos estejam solidários com o
movimento grevista dos professores. “Estamos lutando por uma escola
melhor. O que o governo Sartori vem fazendo com a educação é inaceitável. As
escolas estaduais estão sucateadas”, disparou Yasmim. “Vamos desocupar quando
percebermos que a escola está em condições de receber os estudantes com o
mínimo de dignidade”, completa.

Os alunos estão se revezando e nem todos estão dormindo no
25 de Julho. Existem escalas e uma hierarquia interna. Amanhã, das 17 às 18
horas, será realizado um encontro para tentar envolver um número maior de pais
dos estudantes. “A participação dos pais ainda é pequena. Queremos
sensibilizá-los”, completa Yasmin. A diretora do 25, Janaína Barbosa de Souza,
estava no colégio, nesta tarde, acompanhando as ações. “É um movimento
que partiu dos alunos e procuramos entender as razões”, destacou.

REIVINDICAÇÕES DOS ESTUDANTES

– Contra o Projeto de lei 44/2016, que “Dispõe sobre a
qualificação de entidades como organizações sociais”. Artigo 1º – O Poder
Executivo poderá qualificar como organizações sociais pessoas jurídicas de direito
privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à
pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à gestão, proteção e
preservação do meio ambiente, à ação social, ao esporte, à saúde e à cultura,
atendidos os requisitos previstos nesta lei.

– Exigem mais investimentos nas escolas estaduais, que estão
sucateadas

– Fim do parcelamento do salário dos professores estaduais

MOVIMENTO POLÍTICO

A minha investida dentro do Ocupa 25 pegou de surpresa
alguns dos organizadores. Como o movimento vem sendo impulsionado
por dirigentes do PCdoB e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), minha
presença não ficou confortável, já que venho denunciando vantagens, benesses e
contradições do PCdoB e do DCE hamburguense – que, aliás, não retorna meus pedidos de
entrevista. Fui escoltado dentro de uma escola pública – perceberam a
contradição?
– e quando, por alguns segundos fui desacompanhado fotografar a
horta, logo veio um jovem troteando e dizendo que “não posso te deixar sozinho”.

O vereador Roger Corrêa (PCdoB) é um dos líderes desta
ocupação. É o mesmo Roger que não critica o prefeito Luis Lauermann (PT) por dezenas de escolas sucateadas no município e que votou contra o pagamento em parcela única do reajuste dos professores municipais.
Tem foto dele almoçando no 25 com estudantes, já doou mudinhas de
plantas e vem publicando fotos em outros colégios ocupados no município, como Instituto
Seno Frederico Ludwig e Colégio Engenheiro Christiano Ignácio Plangg. Ontem,
CCs e servidores da Coordenadoria da Juventude – com militantes do PCdoB – e da
Secretaria de Desenvolvimento Social, no horário do expediente da Prefeitura, deixaram
suas atribuições de lado e foram pedir doações a outros servidores para pagar alimentos
e outros produtos que estão sendo utilizados no Ocupa 25.

Também chamou a atenção que na escadaria principal do 25,
que dá acesso ao segundo piso, foi montada uma barricada com classes e
cadeiras, impedindo a circulação de pessoas em outras áreas. O motivo: tem
professores querendo lecionar, mas os integrantes do Ocupa 25 não estão
permitindo.

Deixando o lado político, o Ocupa 25 está dando uma
lição de como os estudantes devem zelar pelo patrimônio público, afinal, a
escola é dos gaúchos. E, mais do que isso, faz ecoar um recado bem claro ao
governador José Ivo Sartori (PMDB):
não existe educação de qualidade com escola
sucateada; não existe como ter professor motivado com salário parcelado; não é
possível avançar em índices de educação dos alunos enquanto o ensino for
tratado com tanto desinteresse pelo governador.

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