Uma questão inerente a paternidade: estou sendo um bom pai?

Sempre me considerei
uma pessoa relativamente educada e difícil de ser ludibriada, entretanto, em
setembro fará três anos que um grande teste me foi imposto nitidamente para
provar que ainda engatinho no quesito experiência. Sou pai de uma pequena
princesa, que já nasceu com uma habilidade nata de me dar um nó. Normalmente,
só reparo que fui trapaceado bastante tempo depois de já ter concedido a ela
seus desejos. Por um lado, considero este talento algo bom, pois me traz certo
orgulho saber que a pequena tem uma habilidade nata de pleitear seus anseios em
ambientes que talvez exijam tal destreza. Mas, por outro lado, acho isso ruim
também, porque esta malandragem poderá provocar alguns conflitos no futuro, uma
vez que eu possa discordar de suas escolhas naturais inexperientes. Esta duvida
me remete a uma questão inerente a paternidade: estou sendo um bom pai?

Em minha busca por uma
resposta aceitável, me deparei com um estudo feito em conjunto pelos
economistas Matthias Doepke, da Northwestern University, e Fabricio Zilibotti,
da Universidade de Zurique. Neste trabalho, o qual deixo a referência abaixo, os
autores explicam que as decisões parentais são impulsionadas por uma combinação
entre dois fatores que denominam como altruísmo e paternalismo. Enquanto o
altruísmo é esclarecido como a nossa preocupação do bem-estar dos filhos, o
conceito de paternalismo é o grau de intervenção que aplicamos ao discordar das
suas escolhas naturais. Veja que esta distinção é bastante importante, pois o
ato de atirar uma pedra na vidraça do vizinho pode gerar uma sensação de
euforia e felicidade na criança, entretanto, é necessário que os pais intervenham
e mostrem que este tipo de bem-estar é proibido.

Os autores vão ainda
mais longe, e desmembram esta moderação parental em três diferentes estilos: permissivo,
autoritário e autoritativo. Enquanto o
permissivo, como o nome já sugere, cria um estado de laissez faire onde o
sucessor faz as próprias escolhas e aprende com suas consequências, o modo
antagônico é o autoritário, quando os pais restringem as escolhas dos filhos de
forma direta e hierárquica. O autoritativo, por sua vez, é a suavização dos
dois métodos, sugerindo que as escolhas são controladas de forma indireta através
da introdução das opções disponíveis e influenciando as decisões dos filhos. Enfim, agora sabendo como classificar os
estilos, como posso definir o melhor a ser adotado?

Acredito que o
desenvolvimento de um ser humano é construído por experiências, através de
todos os contratempos que geram anticorpos em nosso sistema para que não sejam repetidos.
Como já falava Oscar Wilde, a experiência é o nome que damos aos nossos próprios
erros, e, suponho que o estilo que mais promova a exposição aos percalços seja
o permissivo. Ele enfrenta a menor intervenção paternal, e consequentemente
promove o aprendizado através das tentativas e erros nas escolhas naturais dos
filhos. Eu particularmente acredito que possamos comparar nossas experiências a
um produto como outro qualquer: temos uma demanda e pagamos um preço.

Um bebê recém-nascido,
por exemplo, tem uma alta procura por aprendizados e está disposto a pagar um
custo elevado por cada um deles. Este custo, por sua vez, pode ser definido
como o perigo, seja ele físico, financeiro ou de qualquer outra natureza. Conforme
a criança vai acumulando a riqueza das experiências, a sua demanda vai
gradativamente reduzindo, assim como a disponibilidade de conhecimentos ainda
não adquiridos. O preço que um idoso está disposto a pagar por uma nova
experiência é muito aquém de que uma criança descobrindo o mundo, seja por
falta de vigor, por já possuir conhecimento semelhante, ou simplesmente por
achar que o risco não valha o benefício.

Talvez esteja aí a
plenitude: o ponto de equilíbrio entre a oferta e procura das experiências
atravessadas, e o custo (perigo) que estamos dispostos a correr para cada
unidade extra que adquirimos. Usando esta afirmativa como verdade absoluta,
assumo eu que quanto mais rápido consumirmos o produto vivencias, mais cedo
alcançamos a plenitude. Logo, sabendo que o estilo permissivo de paternidade
acelera a exposição de um filho aos contratempos da vida, acredito que este
seja caminho mais curto de direcionar a minha pitoca ao sucesso e plenitude. Mas
meu grau de segurança é bastante questionável. E se o custo, ou perigo, de uma
de suas primeiras experiências ser alto demais?

O liberalismo parental
parece ideal. É custoso repreender minha filha, minha princesa, que enche os
olhos de lágrimas somente ao ouvir um tom mais ríspido da minha voz. Tenho um
desgaste emocional grande e preciso me conter para não retroceder no ideal que
defendo. Este é o primeiro ano que ela frequenta a escolinha e notei que seu
desenvolvimento vem crescendo exponencialmente, assim como alguns trejeitos
inocentes adquiridos no convívio com outras crianças. Estas manias incorporadas
no seu caráter são inofensivas assim como todos com quem ela convive no auge de
seus três anos de idade, mas, e se no futuro, na sua adolescência, estas
externalidades deixem de ser tão puras? E se desviarem ela do caminho que eu
planejo?

Entendo que neste
momento o permissivismo passe a ser falho, e os métodos autoritário ou
autoritativo deixem de ser uma opção e passem a ser uma necessidade. Em outras
palavras, a forma de educação não depende exclusivamente da relação pai e
filho, mas sim no meio onde a linhagem convive. Isso é uma externalidade. No
estudo dos economistas de Zurique e Northwestern mencionados anteriormente, os
autores ilustram esta correlação entre meio social e estilo parental com dados geográficos
e econômicos de gerações. De acordo com eles, nos anos 60 e 70 o método
permissivo era mais aceitável, devido a menor desigualdade social. Isso me
remete ao meu pai contando suas peripécias enquanto criança, jogando bolinha de
gude nas calçadas de São Leopoldo e nadando no Rio dos Sinos até tarde. Jamais
imaginaria deixar minha filha fazer isso hoje em dia.

Ainda, os autores
ainda argumentam sobre um maior liberalismo na criação dos filhos nos países
escandinavos, mais desenvolvidos e educados, enquanto locais como o Brasil
necessitam uma mão mais firme dos responsáveis. Em Novo Hamburgo, por exemplo, uma cidade provinciana com alta
criminalidade, deixar uma criança em desenvolvimento seguir suas escolhas
naturais pode muitas vezes gerar um revés no futuro.

Pois bem, como o
esperado, preenchi minha cabeça com dados e informações históricas que nada serviram
na minha decisão de qual método paternal é o mais adequado na difícil tarefa de
educar minha filha. A verdade, em minha opinião, é que podemos cortar e fatiar
de diversas maneiras a tarefa colossal de ser pai, podemos criar classificações
e denominações de difícil pronúncia e compreensão, e os ousados podem até mesmo
sugerir comportamentos diante de circunstancias especificas, mas nunca existirá
uma verdade absoluta sobre este o assunto.

Talvez, a única forma
concreta de gerar um ser humano do bem é tentando servir de exemplo para o
sucessor, pois por mais que tente omitir alguns dos meus defeitos durante o
processo de educar, noto que cada vez mais minha pequena tem o comportamento
semelhante ao meu. Ela replica as mesmas qualidades e mesmos defeitos.
Entretanto, todo o embasamento teórico e numérico é válido ao menos como um
adendo aos autos do processo: não justifica, mas influencia.

Sair da versão mobile