Évora é um nome que evoca força e charme. Pessoas assim são frequentemente descritas como
confiantes e de personalidade magnética.
Seu caminho sempre foi o da sofisticação: melhores lugares, roupas,
viagens e gastronomia. Sua independência arrancava suspiros de seus
admiradores. A frase mais utilizada nas rodas de conversa sobre Évora
era: quero ser como ela, forte, autoconfiante e que
não deve nada a ninguém. Sabe o que quer e tem uma aura de sucesso.
Seus negócios prosperaram: ela enriqueceu. Viajava para onde seu coração
a levava sem pensar em despesas ou entraves. Era uma mulher Alfa, como
se autodenominava. Tinha uma profunda conexão consigo mesma e, por isso,
suas relações sempre foram
autênticas. Ela era admirada.
Estava com 40 anos e nunca havia casado. Vivia a sua vida com a certeza
de que sua escolha em permanecer independente se refletia em todos os
aspectos de sua existência: sem exceções!
Gostava de se observar diariamente em frente ao espelho procurando
entender seu dia, valorizando cada curva de sua nuance esbelta. Seu
autoamor era respeitável.
Mas ela estava em uma encruzilhada: continuaria a viver próximo a sua
família ou buscaria no mundo um destino que mais lhe agradasse?
Sua mente e coração estavam divididos. Era uma das únicas vezes em que
não tinha plena certeza do que fazer. Internamente, ela queria as duas
situações, mas seus pais não aceitavam sair da sua residência histórica.
Uma lágrima caiu em seu rosto em frente ao espelho. Eram 10 horas da
noite de um domingo quente. Ela odiava a sensação de não saber o que
fazer rapidamente. Era um mundo novo na sua jornada.
Ela começou a sentir seu peito apertado, sua respiração ofegante e sua mente… vazia. Nenhuma ideia naquele momento. Nenhuma pista. Que horror!
O medo começou a se ampliar. Sua coragem era maior. Ela tomou uma decisão interessante, inédita e ousada: vou
aceitar que não tenho uma resposta simples a esta questão.
Ao mesmo tempo, outra pergunta rondava sua mente criativa: como assim, nenhuma ideia? Que vazio é esse? De onde ele veio?
Naquele momento ela esqueceu a decisão difícil e se focou no inesperado
vazio. Sentiu-se transportada a um local desconhecido. Era como uma sala
enorme, com uma iluminação tênue, sem paredes visíveis, mas o local
tinha início, meio e fim. Ela sentia.
Sua mente curiosa começou a questionar onde estava. Ela tinha perdido a
noção de tempo e espaço. Uma voz calma, com seu tom próprio, sussurrou:
– “Estamos dentro de sua alma.”
Ela estava espantada!
-“Parece que fui arrancada do corpo e jogada aqui”.
A sensação era mais estranha: ela se sentia confortável. Era um sentimento de completude e curiosidade… tudo ao mesmo tempo. Não havia ameaças ali.
Sua mente estava tentando controlar a situação, quando de repente, ela
se vê em frente a um espelho. Sua própria imagem sussurrou:
-“A resposta que você solicitou está aqui. Aprenda!”
Évora se lembrou de um dia em que estava questionando a razão de ser quem ela era. Seu âmago. Sua
essência.
-“A resposta é o vazio?”, ela perguntou a imagem.
-“A qual vazio está se referindo?”
Ela parou. Sentou-se naquele chão etéreo e começou a refletir. Como assim?
Lembrou de sua educação, de suas experiências, estudos, relações,
viagens, filmes e livros preferidos. Ou seja: tudo o que tinha levado a
ser quem era. Ela foi mais afundo e perguntou a imagem:
– “Quanto do que sou foi escolha exclusivamente minha?”
– “O vazio já é uma resposta”, disse.
– “Isso quer dizer que nunca decidi com 100% de autonomia até hoje?”
– “Como eu disse: a resposta ao que você solicitou está aqui. Aprenda.”
Como um lampejo, ela retorna à sua residência, de onde nunca saiu, e uma ideia fixa permeia sua mente:
– Preciso explorar este vazio. Quero entender minhas escolhas e preencher as lacunas com calma.
Enfim: Évora sempre respeitava seu próprio tempo e era uma mulher intrigante.
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Artigo publicado no portal Martinbehrend.com.br.
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