Uma família pelada, com as partes bem visíveis: arte em frente à Prefeitura de Wittenberg

Imaginem a seguinte situação: Novo Hamburgo, São Leopoldo ou
Campo Bom vão inaugurar a nova sede da Prefeitura. Para ornamentar o jardim em
frente, decidem colocar um monumento. Ele consiste em três pessoas nuas: um
homem e uma mulher – um casal – segurando nos braços uma criança. O homem com o
pênis bem visível e a mulher com seios e os pelos pubianos em relevo e
destacados. Ficou chocado? Sim? Não? Talvez?

Esta escultura descrita no parágrafo acima é realidade, é uma obra de
arte. E ela está posicionada a poucos metros da nova Prefeitura de Wittenberg,
a cidade onde Martin Lutero divulgou as 95 Teses da Reforma – há 500 anos e um
dia (31 de outubro de 1517). A antiga Prefeitura ficou pequena e serve como
cartão-postal no Marktplatz, junto com as estátuas de Lutero e seu amigo Philipp
Melanchthon. Na frente da atual sede do Executivo local – instalada num prédio
recuperado de 1883 –, então, pode ser encontrada esta família pelada.

A questão cultural é fundamental para entender essa
realidade. Crianças circulam pelo local tranquilamente. Famílias, igualmente. Servidores
estacionam seus veículos ao lado do monumento. E vida que segue.

Provavelmente, esta obra foi patrocinada com recurso público
– salvo se houve uma doação. E as pessoas respeitam a expressão artística.
Ninguém reclama ou protesta, afirmando que o monumento é homofóbico ou ofensivo
contra gays e lésbicas. Nem mesmo consideram um estímulo ao nudismo. É arte. É
expressão artística.

Ali está uma família feliz, como veio ao mundo. E foram
interpretadas por algum artista. Conversei com dois funcionários da Prefeitura
e pesquisei sobre o assunto. Não há registros de polêmica ou ataques contra
esta obra de arte.

Faço esse registro pois estamos vivendo no Brasil um severo
ataque à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão e às artes – tanto de
gente da “direita” como da “esquerda”. Claro que tudo tem limite – e tivemos
algumas aberrações recentes no Brasil que devem ser condenadas. Mas, alto lá:
não dá para tolerar nem generalizar. O mundo precisa de arte e dos artistas.

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