Um drama: se país gerar milhões de empregos, muitas vagas ficarão em aberto

Quando eu era repórter do Jornal NH, fiz uma reportagem sobre o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Visitei a casa de uma doceira e confeiteira no bairro Boa Saúde, em Novo Hamburgo. Isso foi em 2013.

Após participar do curso, ela tinha aberto seu pequeno negócio e já estava conquistando sua clientela com saborosas receitas. A reportagem foi publicada num caderno especial sobre programas sociais oferecidos pelo governo do Estado.

O mais chocante da reportagem foi saber que, ao contrário da moradora do bairro Boa Saúde, a maioria dos seus colegas abandonaram as aulas e não concluíram o curso. DETALHE: o Pronatec oferecia aulas gratuitas, vale transporte e lanche. Tudo gratuito, tudo subsidiado pelo governo para buscar qualificar a população.

Dos 50 que começaram o curso, nem cinco concluíram. O resto dos hamburguense inscritos abandonou, mesmo ganhando tudo de “mão beijada”. Bastava se dedicar.

ESTADÃO

No final de semana, o Estadão publicou reportagem alarmante que confirma uma realidade crescente – e que se alinha com o fenômeno registrado no curso do Pronatec: “Sem qualificação, parte dos brasileiros não consegue ocupar vagas básicas”. A matéria completa pode ser conferida aqui: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sem-qualificacao-parte-dos-brasileiros-nao-consegue-ocupar-vagas-basicas,70002852842 .

Repasso a seguir alguns dados e informações da reportagem:

– A Atento, empresa de telemarketing e a maior empregadora privada do País, ofereceu 1,2 mil vagas num Mutirão do Emprego promovido pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo. Com 600 interessados, só conseguiu contratar 7 operadores de telemarketing – menos de 1% do que precisava.

– O Grupo Pão de Açúcar abriu dois mil postos, aprovou 700 candidatos, mas, até agora, apenas 32 estão trabalhando, segundo os organizadores do evento.

– Nos últimos dois anos, 60% das 11,8 mil vagas ofertadas nos mutirões do emprego, que reuniram grandes empresas, não foram preenchidas. Dificuldade de se expressar, de fazer contas, falta de conhecimentos básicos em informática e inglês e poucos anos de estudo são obstáculos às contratações.

– Entre os 13,4 milhões de desempregados no primeiro trimestre deste ano, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), 635 mil são considerados de difícil recolocação pelos recrutadores.

– Em cada dez desocupados, dois evem ficar fora do mercado na próxima década por falta de qualificação. Significa 20% dos desempregados. Ou seja, milhões de brasileiros.

Não é só uma questão de ter cursos gratuitos de qualificação. Até porque existem oportunidades em diversos municípios, entidades e associações, com cursos, palestras e treinos GRATUITOS.


Envolve também apoio familiar, incentivo de amigos, determinação e gana para fazer diferente.

É um drama real. Está aumentando a massa de brasileiros que deverá ficar vagando por aí. Sem vontade, sem qualificação, sem capacidade. Será que vão pro crime? Será que vão para as praças e ruas? Será que ficarão cuidando de familiares em casa?

A resposta não é definitiva. Mas o drama é real.

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