Tragédia na tragédia

Carmelo era casado com Bibiana e moravam num borgo
tranquilo, na Itália. Não tinham
filhos. Eram felizes, dentro do
padrão. Laura era casada com Luigi,
moravam no mesmo borgo, tinham filhos e eram felizes, dentro do mesmo padrão. Laura
tinha sido a primeira namorada de Carmelo, mas o assunto tinha terminado há muito
tempo.

Mas, um dia, Carmelo encontra Laura num momento de vida sem
graça para ambos e bastou um toque de mão para a paixão florescer de novo. Se
encontravam às escondidas, até que um dia Laura informou estar grávida. Para o
bem da hipocrisia da sociedade, resolveram deixar tudo como estava e cada um se
recolheu à sua família. Se o filho fosse de Carmelo, isso nunca seria revelado
e o segredo com eles morreria.

E assim a vida passou.
Agora, já velhos, a polícia bate na porta de Carmelo e informa que ele
deve ir prestar depoimento, porque é acusado de estuprar e matar uma menina de
14 anos! Embora isso fisicamente já não
teria sido possível, Carmelo foi conduzido à delegacia local.

Lá chegando, foi informado que o exame do DNA do estuprador
coincidia com o dele e, portanto, teria de se explicar. Como teriam tido acesso
ao DNA de Carmelo, não sei. Me baseio
nas noticias. Muito surpreso com tudo, e alegando a sua inocência, foi tomado
de profundo medo e pesar.

A menina tinha sido encontrada em um terreno baldio na
frente de uma construção, a poucos passos de onde morava, numa outra
cidadezinha, longe do borgo de Carmelo e Bibiana. Depois de muito pensar,
Carmelo decidiu tornar público o seu caso com Laura, e que talvez o filho de
Laura não seria de Luigi, mas, sim, dele.

Exames feitos e constatado: estava o mesmo DNA. Além disso, esse filho era pedreiro e trabalhava
justamente na construção onde a menina foi encontrada. A mulher do presumido
assassino, porem, depôs a favor do álibi do marido. Mas alguns dias depois chegou na delegacia
cheia de hematomas, dizendo que o marido a estava obrigando a mentir e que
tinha medo de ser morta também.

E o bandido continuou a negar o crime. Foi julgado e condenado ao ergastolo, ou seja,
prisão perpétua. Por que este relato?

Primeiro, porque os homicídios ainda são possíveis de serem
informados no jornal da 20 horas aqui na Itália. E são dados flashes de toda e
qualquer novidade relevante das investigações e julgamento para que o público
saiba que existe uma investigação séria e inteligente. E que o crime não compensa.

Segundo, porque mentira, um dia ou outro, aparece, e é sempre
melhor assumirmos nossos atos, no tempo certo, para que os que queremos bem não
tenham a sensação de ter vivido uma vida de mentira, falsa.

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