No pátio de areia de uma escola de Novo Hamburgo, dois menos
de seis anos correm descompromissadamente. Um tenta pegar o outro. Fazem
ziguezague, dão risadas. Um sobe pelo escorregador, outro tenta surpreender
indo pela escada. E soltam mais risadas. Como é bom brincar de pega-pega!
Os avós paternos de Taher nasceram na Palestina. Deixaram a
Palestina em busca de novas oportunidades no Brasil. O pai de Taher é
importante dirigente das causas árabe-palestina no Brasil.
Os bisavós de Theo são judeus. Fugiram das atrocidades da
Alemanha nazista – outros familiares não tiveram a mesma sorte – e desembarcaram
no Sul do Brasil em busca de esperança. Theo é luterano de batismo, mas primos,
tios e tios avós dele são judeus.
Eu registro essa pequena relação, mas recheada de
simbolismo, após mais um covarde atentado. Dessa vez, cometido em Christchurch,
na Nova Zelândia. Em 15 de março, um australiano supremacista branco abriu fogo
e matou 50 muçulmanos que oravam em mesquitas. Dezenas de pessoas ficaram
feridas, algumas ainda em estado grave. Tudo foi transmitido ao vivo pelo autor
da barbárie.
A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos
Humanos, a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet afirmou que o “ataque
terrorista e islamofóbico é um recordatório terrível de que o racismo mata”.
O presidente da Federação Árabe Palestina no Brasil escreveu
artigo, onde desabafou: “É muito triste para nós – filhos, filhas e demais
descendentes de refugiados árabes, muçulmanos e cristãos – ter de justificar, a
cada nova agressão gratuita, que não somos radicais ou terroristas.”
Mais adiante, ele destacou: “Crimes bárbaros como esse são
motivados pela cultura do ódio, da intolerância e da violência que vêm ganhando
espaço nos últimos anos, inclusive no Brasil… Não queremos guerra, queremos
paz. Queremos união e respeito entre todos os povos e nações. Judeus,
muçulmanos, cristãos e evangélicos, adeptos de todas as religiões. Na Nova
Zelândia, no Brasil, na Palestina e em Israel. Paz.”
Voltamos ao Taher e ao Theo. Eles nada sabem sobre guerras.
Eles desconhecem o ódio entre os povos. Quem vai fazer com que eles sigam sorridentes
e felizes são seus pais, amigos, familiares, professores, conhecidos, vizinhos.
É a sociedade.
Se as gerações passadas não conseguiram construir pontes
para aproximar, cabe a atual geração acreditar que um outro mundo é possível.
Sim, é possível. Mas é preciso colocar em prática conceitos de respeito e amor
ao próximo.
Quando vejo Taher e Theo correndo pelo pátio, enchendo seus
tênis de areia, e dando gostosas risadas, vejo que há esperança. O esforço
precisa ser coletivo.
Paz! Shalom! Salam!
