Betty Gerda Schattmann foi uma sobrevivente do nazismo alemão.
Na década de 1930, percebendo os movimentos do regime de Adolf Hitler, os pais de Gerda – judeus alemães – pegaram suas coisas, abandonaram a cidade de Frankfurt e rumaram para o Brasil. Gerda era criança, assim como sua irmã, Berta Ruth Herz.
Foi essa fuga que impediu de serem exterminadas por Hitler – mais de seis milhões de judeus tombaram por ordens do ditador.
Se a pátria ficou para trás, os hábitos, a educação e os costumes vieram na bagagem na longa viagem pelo Oceano Atlântico.
A gastronomia, sem dúvidas, foi e é um traço cultural muito forte na presença dos imigrantes alemães no Brasil – independente se são germânicos católicos, luteranos ou judeus. O fato é que as receitas trazidas por eles ganharam projeção, recebendo destaque em cardápios, bares, cafeterias e restaurantes.
Por qual razão estou citando Betty Gerda Schattmann? Ela é minha avó, a Oma Gerda – que, infelizmente, não está mais entre nós.
Fui muito feliz convivendo com ela. Não vou relatar tudo que aprendi e o que guardo com tanto carinho. Até porque essa é uma coluna de gastronomia.
Então, meu foco vai ser numa receita que eu AMAVA: o Käsekuchen da Oma Gerda. Durantes vários aniversários, era meu pedido pra ela: faz e traz o Käsekuchen. Muitas velinhas foram sopradas posicionadas sobre o bolo.
Diferentemente de uma variação do Käsekuchen da Alemanha, onde o queijo ganha mais destaque e o doce fica quase imperceptível, o Käsekuchen da Oma Gerda tinha uma dose de açúcar que fazia toda a diferença. Para o meu paladar, era espetacular.
Sabendo que um dia ela iria nos deixar, organizei uma ida até seu apartamento no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, para aprender a fazer a receita. Ela comprou os ingredientes, eu parei do lado na cozinha.
Então, ela começou a preparar: 100 gramas de manteiga. Só que ela não media, ia no olhar; 375 gramas de açúcar, mas ela colocava, experimentava, e acrescentava mais uma colher de açúcar; cinco colheres de farinha de trigo, mas ao engrossar, ela despejava mais um pouco.
Eu anotava as medidas, tentava registrar essas acrescentadas extras, mas já tinha percebido que não ia dar certo. Lá pelas tantas, eu falei:
– Oma, tu fala uma medida, mas coloca diferente. Como eu vou saber a medida certa?
Ela deu uma risada e respondeu:
– São tantos anos fazendo, que preparo no piloto automático. Nunca me pediram essa receita dessa forma. Depende da marca do açúcar, da farinha, do quark, etc…
Abaixo estão minhas anotações no dia que estive com ela – em vão – tentando decifrar o segredo da receita. Guardo comigo até hoje – há cerca de 20 anos:
REENCONTRO
Neste final de semana, algo muito especial aconteceu. Já tinham sugerido que eu visitasse a Becker Haus Tortaria, em São Leopoldo. Aliás, já divulguei aqui no Portal Martin Behrend uma matéria sobre uma exposição neste estabelecimento, localizado na Rua Lindolfo Collor, 309.
Na tarde deste sábado, visitei a Becker Haus. É um lugar super aconchegante, com vários detalhes que remetem aos imigrantes alemães e à Alemanha. Tem um espaço para exposições – no momento, estão lá retratos da São Leopoldo de antigamente e de seus moradores. Tem mesas na parte externa e um salão super agradável para saborear tortas, quiches, lanches e ótimos cafés.
Eu me acomodei na mesa Munique. E, então, olhei para o balcão. Lá estava ela. Parada. Nas mesmas nuances de cores. Como sempre foi. Tinha um Käsekuchen igual ao da Oma Gerda! Caramba, que sensação incrível, arrepiei!
Quando veio o garçom atender, ele mencionou que, na parte da frente, estavam as tortas do dia em destaque – entre elas, a maravilhosa Schwarzwald Kirsch Kuchen, também conhecida por Schwarzwald Kuchen, Black Forest Cake ou, em português, Floresta Negra.
O atendente foi super atencioso, sugeriu que eu fosse dar uma conferida, mas naquele momento nada mais interessava. Meus olhos estavam vidrados no Käsekuchen.
Então, solicitei uma fatia e ele sugeriu uma cobertura. O bolo da Oma Gerda não tinha esse complemento, mas achei a variação da Becker Haus interessante. Solicitei de frutas vermelhas. E esperei. Afinal, a curiosidade era saber se o sabor que tanto embalou meus aniversários e outras festas da família estava presente.
A fatia chegou, retirei o talheres da embalagem e… Nhac.
Expectativa.
Mastiga.
Percebe.
Sente.
Engole.
Ja wohl! Estava ali o Käsekuchen da Oma Gerda! Chegou a correr uma pequena lágrima de emoção. A textura, o sabor, o queimadinho, o docinho que faz toda a diferença.
A Oma Gerda sempre dizia: “E uma torta simples, não tem nada demais”. Ela tinha razão, só que ela não conseguia captar o principal tempero: o do amor de avó, o amor de Oma.
Foi um reencontro emocionante a ponto de, ao final da visita, já deixar encomendando para meu aniversário, daqui a algumas semanas, o Käsekuchen da Becker Haus,
BECKER HAUS
A história da Becker Haus Tortaria começa a ganhar visibilidade na pandemia. Amigos já conheciam algumas tortas preparadas com sabor e esmero na residência do Gustavo, da Ariane e do Rodolfo.
Foi no momento em que a humanidade precisou se recolher para se proteger do coronavírus que a produção foi acelerada. Era julho de 2020 e surgia a Becker Haus Tortaria. A casa se transformou numa pequena fábrica de sabores, recebendo muitas encomendas. A aceitação foi crescendo. E as ideias, florescendo.
Até que, há menos de dois anos, foi inaugurada a Cafeteria Becker Haus, no Centro de São Leopoldo. É ali que se pode saborear o Käsekuchen, tortas de Maçã, Morangos Nevados, Brownie Frutado, a Schwarzwald Kuchen, a Banoffee, entre outras; ou cheescakes de Amora, Frutas vermelhas, Maracujá, Romeu & Julieta, Damasco, entre outros; ou, ainda, quiches de Camarão, Bacalhau, Cebola, Espinafre, Linguiça Calabresa, Vegetais, entre outros.
Fora os cafés tradicionais, cafés gelados, chás, chocolates, lanches e outras opções.
Foi um sábado especial. Conheci um novo espaço e viajei no tempo, na minha história.
E, claro que voltarei, até porque preciso retirar o Käsekuchen do meu aniversário.
Parabéns ao Gustavo Becker, família e equipe pela proposta. Que a comunidade do Vale do Sinos saiba valorizar!
PS: Abaixo o registro da fatia da Schwarzwald Kuchen que também provei! Que sábado!
