Todos levantaram. Parecia comício político. É como se o
vírus da sinceridade tomasse conta daquele momento, daquela reunião.
O facilitador, muito sensibilizado, perguntou:
– Como assim?
Era uma empresa com 40 funcionários. Estava em
crescimento e precisava de novas ideias para incrementar a sua linha de
produtos e serviços, já que a sua história trazia uma reputação muito respeitada
no mercado. O clima era ótimo e todos estavam querendo auxiliar.
Seu José, bonachão, era um paizão e mentor da grande
maioria. Para muitos, era o seu primeiro emprego e outros, depois de entrar,
não queriam sair. O clima familiar permanecia com muita força. Ao mesmo tempo,
todos sabiam da importância dos resultados e, como dizia seu José: até filho
que não der resultado, vai seguir seu caminho.
Curiosamente, nenhum dos seus três filhos quiseram
trabalhar na empresa. Diziam que seu José não era profissional e que facilitava
demais a vida de todos. A resposta era sempre a mesma a eles:
– Cada um faça o que for melhor para si.
Ele dizia:
– Só quero lembrar a vocês: nossa empresa tem um
resultado de 20% líquido ao ano. Pesquisem no mercado e vejam o que há por aí.
Não se iludam com propagandas de internet. Sem caixa, nada acontece.
A resposta era sempre uníssona:
– O senhor trabalha demais, pai. Não vale os 20%. Pelo
menos no final de semana o senhor está conosco.
O pai sorria e dizia:
– Há momentos certos na vida de cada um. Depende de
quanto enxergamos a realidade.
Seu José sempre estava presente e fazia questão de
conversar com todos da mesma forma e sem nenhuma distinção.
O facilitador da reunião perguntou novamente:
– Por que vocês acreditam que não são estratégicos?
O mais animado de todos, respondeu:
– Sabe, a gente conversa com o seu José. Passamos as
ideias e ele resolve fazer ou não. Não somos nós que decidimos aqui na empresa.
– Ah, entendi. Então quer dizer que o seu José é que
manda e vocês obedecem?
– Isso mesmo… E a risada foi geral.
– Como você nos faz essa pergunta, se sabe que funciona
assim?
– Eu perguntei justamente para dizer que o seu José não
pensa assim.
– Como?
– Sim.
– Explica isso aí!
– Por que vocês acreditam que ele vive falando com todos?
– Porque ele gosta de nós e quer saber como as coisas
estão andando.
– Hum! Falem mais sobre isso.
Um outro colega pediu a palavra e disse:
– Mas ele fala conosco como se fosse nosso colega e não
parece que ele está buscando soluções com nossas ideias. As ideias são dele.
– São dele mesmo?
– Claro. A gente só mostra o que está dando errado e ele
traz a solução.
– Entendi. Me conta um caso prático.
– Um dia ele esteve aqui. Falamos que a máquina tinha um
problema: depois de muita produção ela esquentava demais. Eu sugeri a ele que
fosse instalada uma refrigeração externa e que a troca de uma peça, pois conheço
a máquina, ajudaria.
– E o que aconteceu depois?
– Ele aceitou as duas sugestões e na semana seguinte o
problema estava resolvido. A máquina está mais livre e faz 50% a mais do que
fazia antes. Era um defeito daquele modelo e que era resolvido externamente. Eu
li o manual e pesquisei na internet antes de falar com ele. Eu faço isto depois
que ele me disse que deveríamos levar soluções e não só problemas à vida. E que
cabia a mim, que estava fazendo, que conhecia o processo, trazer essa solução.
– Ele disse isso para mim também!
– Para mim também!
E assim todos foram respondendo a mesma coisa. O facilitador,
inteligentemente, fez a pergunta:
– Quem deu a solução, em realidade?
– Fui eu. Opa. Mas foi o seu José que comprou.
– Sim. Esta é a função dele. Cuidar dos investimentos e
do andamento dos trabalhos.
Todos se olharam e não entenderam o que estava
acontecendo. O mais experiente perguntou ao facilitador:
– Por quê você está perguntando algo que você já sabe?
– O mais importante é vocês saberem. O seu José acredita
que vocês podem fazer mais quando descobrirem isso.
– Ele disse isso para o senhor?
– E precisa?
– Mas o seu José é o dono. E nós, não.
– Sim, ele sabe disso. Mas ele queria que vocês
soubessem da importância de todos de forma mais clara.
– E qual a relação disso com o que está acontecendo na
empresa?
– A relação é: só há inovação e colaboração quando todos
nos sentimos engajados ao trabalho, como se fôssemos donos.
– Engraçado. Agora me lembrei de uma coisa que o seu
José me disse.
– O que ele disse?
– Ele afirmou que só há um negócio de verdade quando
vestimos a camiseta como donos.
– Você concorda com isso?
– Concordo. Mas como posso ser dono sem ser dono?
– Por que você trabalha aqui?
– Eu amo trabalhar aqui. Adoro meus colegas e Seu José é
um pai para nós. Mas sabe cobrar sem desmerecer ninguém.
– Vou fazer novamente a pergunta: quem não é
estratégico, levante a sua mão!?!?
Todos se olharam
e se deram conta da sua importância. Cada opinião era levada em consideração.
Cada problema era discutido e todos se preocupavam com os colegas e com o
negócio.
– Seu José sempre disse que ninguém é melhor do que
ninguém.
– Exato. Vocês conseguem trazer mais ideias para
colaborar?
– Com certeza. Pode ser agora?
– Hehehe.
– O que me impressiona aqui, já que convivo com várias
empresas, é a liberdade e o sentimento de respeito entre vocês. Seu José me
pediu para organizar o tempo de todos para nos dedicarmos mais às novas ideias,
dentro do horário de trabalho, ganhando produtividade com inovação. O que acham
desse desafio?
Todos se olharam. Estavam surpreendidos. Empolgados.
Valorizados.
– Mas nós já não fazemos isso?
– Sim. Sem dúvida. Mas podemos melhorar muito com mais
tempo e dedicação.
– Seria legal. Ia mesmo falar com ele.
– Sério? E por que não falou?
– Acho que faltou tempo!
– Então! A solução está aí! Qual o melhor dia e horário?
E a reunião seguiu e a construção aconteceu. Me
impressiona perceber que muitos falam em inovação e ainda querem controlar cada
passo e processo envolvendo as pessoas, como se isso resolvesse as
reais questões de inovação e sustentabilidade.
Melhoria contínua e inovação são parceiras. Podem estar
interligados, mas têm relações conceituais e práticas que levam a caminhos
diferentes.
Não podemos esquecer que empresas são CNPJs com
inúmeros CPFs e não o inverso. A consequência de decisões estratégicas em
relação às pessoas, levam ao sucesso ou ao fracasso em qualquer empreendimento, a
médio e longo prazo.
É impressionante perceber nestas caminhadas que: muitos
já têm os alicerces necessários para a real colaboração e inovação, e outros, que
dizem ter, não têm a menor ideia do que isso significa.
Tudo pode ser realizado com pessoas engajadas,
tecnologia, clientes e um propósito real que norteie esse contexto em adaptação
eterna. É muita técnica, sensibilidade e abertura ao aprendizado.
O restante é muito suor, trabalho, dedicação, inteligência
e conexão legítima com os clientes externos e internos gerando valor ao negócio
e ao mercado.
César Silva
Especialista
em equipes criativas e colaborativas
Mentor de
Negócios I Consultor I Professor I Palestrante I Board Advisor I Diretor
Regional ABMEN SUL-RS/SC/PR
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