Pé de pobre não tem número

Às vezes, a gente se pergunta: será que este bebê já
entende? Já poderá se lembrar do que a gente fala? Mas, qual é a nossa
lembrança mais antiga? Talvez a primeira lembrança?

Minha primeira lembrança foi de um par de sapatinhos –
sintomático! Eu tinha uns 3 anos. Tipo bailarina-boneca, rosinha claro, e toda
forradinha de branco por dentro. Era toda feita de couro, bem macia, e eu me sentia
uma Cinderela com eles. Não podia usar toda hora, porque iam ficar feios e não
daria para comprar outros. Mas elas eram tão pequeninhas e tão “doces”, que
pareciam uma “coisinha”.

E era assim que minha mãe, e eu também, os chamávamos:
“Dingelchen”, ou seja, “coisinhas” em nosso alemão-dialeto. Muito sintomático
esse meu amor pelos meus Dingelchen, considerando que até hoje sou louca por
sapatos, e fiz desse amor o meu ganha-pão.

Quando os Dingelchen começaram a apertar, a mãe cortou no
bico (já estava todo esfolado mesmo) e assim ficou um peep-toe. Depois, começou
a doer atrás, e ela cortou o calcanhar e ficou um chanel peep-toe. Depois a
tira do chanel ficou curta e ela cortou a tira. E virou um chinelo. E assim
duraram vários anos, porque pé de pobre não tem numero. Serve tudo.

Mas os meus Dingelchen eram lindos, e eu me senti sempre uma
princesa, tanto com eles em original, como peep-toe, como chanel, ou como
chinelo. Chorei muito quando parei de usá-los, e ainda assim os guardei por
mais muito tempo para brincar. Eram os Dingelchen das minhas “filhas” – ah, naquele
tempo as meninas brincavam de bonecas, e cada uma delas era uma filha –, até
que no fim foram para o lixo.

Lixo físico, somente.

Sair da versão mobile