Conseguiu ser usada para afagar o ego do diretor e
desconsiderar a opinião da equipe. Ela teima em ser birrenta e não considerar
os dados, as estratégias, as movimentações de mercado e, principalmente, os
avisos da equipe.
Ela parece um cavalo “xucro”. Pula para todo o lado na vida
dos negócios e não perde tempo em se mostrar:
– Viu que decisão importante que definiu nosso sucesso?
Ela é enciumada. Causa uma bagunça danada dentro das equipes
e no mercado. Ela me disse que não aguenta mais os sobrenomes que lhe atribuem:
– A decisão do Sr. Dr. Fulano de tal. A importância da decisão
da Toda-poderosa Sra. Ultra-master-blaster. Isso me incomoda muito, ela me
disse. Além de não conhecerem a minha natureza coletiva, ainda querem ter mais
importância do que eu. Sem mim nada funciona! Nenhum empreendedor que realize,
pode me jogar para baixo do tapete.
Tadinha. Ela é citada em todas as conversas, mas é relegada
a segundo plano na primeira oportunidade. Ela se sente injustiçada e resolveu
botar a “boca no trombone”.
Saibam que essa questão de justiça/injustiça é muito
controversa. Basicamente é a consequência de uma decisão bem ou mal realizada.
Ela não gosta muito dessa ideia e por isso ela me procurou. Será que é ela o
problema ou quem a usa?
Como gosto de trabalhar com equipes criativas e
colaborativas à inovação, ela resolveu abrir o seu coração.
– Chega! Quero a palavra: não sou dona de ninguém.
Será que a decisão está tendo um surto? Ou será que chegou a
hora dela dizer a verdade? Será que ela pode ser deixada de lado mesmo?
Resolvi então fazer uma entrevista. Enviei algumas perguntas
e transcrevi algumas respostas para vocês.
Vou contar um segredinho: ela é
muito sensível. Mas não é porque é de cristal, e, sim, porque sabe da sua
responsabilidade e tem muito respeito com as pessoas. Curte aí!
César Silva – Por que só agora a senhora resolveu falar
de forma franca? Não podia ter feito isso antes?
DECISÃO – Obrigado por me ouvir. Essa competência
está muito em falta no mercado. E quem não escuta ativamente, não tem como ser
empático. Acredito que é o momento de fazer alguns esclarecimentos. A
velocidade das decisões está muito acelerada, o mundo está mudando a cada
instante e o volume de informações, inovações e descobertas, não tem comparação
na história. Estamos vivendo a primeira Revolução Digital e não somente a Quarta
Revolução Industrial. A Covid escancarou as deficiências das lideranças e, ao
mesmo tempo, muito poucos estavam preparados para estar “frente a frente”
comigo com a intensidade de um casamento duradouro. Parece que houve um
amadurecimento das pessoas e uma humanização no mercado. Como hoje as empresas
impactam a sociedade e vice e versa, cada decisão tem consequências positivas
ou negativas em nossa casa comum, a Terra. Não tem como não ser consciente,
ampliando o campo de visão para além das empresas, clientes e dinheiro.
César Silva – A sra. está reclamando que estão lhe
utilizando mal?
DECISÃO – Sem dúvida. Uma questão é decidir olhando
para o próprio umbigo. A outra é entender que a cada decisão, as consequências são
mensuráveis através da tecnologia. O automatismo na vida das pessoas e o olhar
de curto prazo não permitem que haja um maior respeito a minha figura. Há um
propósito na minha existência: sou o instrumento que resume uma vontade maior e
uma alavanca para expandir possibilidades e horizontes. Quando não se preparam
para me utilizar, acontece a subutilização da minha capacidade. Os que convivem
comigo diariamente não param para refletir, não medem minha importância e não
usam de informações disponíveis para melhorar a minha qualidade. É um absurdo,
uma falta de profissionalismo e um desrespeito com todos os envolvidos. Me
preocupo “para” além da quantidade de vezes que me utilizam. Mas no impacto
diário que tenho na vida das pessoas.
César Silva – Entendi. Mas qual a solução? Existe uma
forma mais adequada?
DECISÃO – Sempre há. Mas preciso reforçar: não há
receita de bolo. O que funciona em um negócio, com uma equipe, pode não
funcionar em outra. É preciso que as pessoas desenvolvam o discernimento e usem
o que é mais adequado ao problema ou desafio do momento. A primeira pergunta
que todos deveriam fazer é para que serve aquela decisão. De forma prática: por
que, em que contexto e para quem.
Decidir por decidir, aproveitando oportunidades que nem sempre
tem relação com a atividade daquele negócio ou que necessitam de
investimentos de longo prazo, é um exemplo disso.
Eu diria que há dois grandes tipos de decisão que envolvem
um negócio: de Agora e de Visão.
As decisões de agora são aquelas que você resolve os
problemas que estão acontecendo, como um bombeiro apagando um incêndio. É claro
que há momentos para isso, mas elas não podem ser a maioria. É uma miopia
pensar que elas resolverão a sobrevivência da empresa no futuro.
Além destas, temos as decisões históricas, que servem para
contar como ou o que aconteceu. É sempre bom aprender com os erros e acertos do
passado, mas eles não garantem o futuro.
Esse tipo de decisão faz com que o negócio foque somente na
sua realidade operacional e não em um futuro estrategicamente construído
utilizando informações qualificadas. Não basta ser bom hoje, é preciso preparar
o amanhã a cada dia.
César Silva – Como assim preparar o amanhã?!?! Isso é
possível?
DECISÃO – Sem dúvida. A melhor forma de competir no
futuro é criá-lo, como nos dizia Peter Drucker.
O outro tipo de decisão é a de visão. É aquela que olha para
a abundância do mundo, observa as oportunidades e minimiza os riscos sem deixar
de ser ousada. Sabe por quê?
Porque usa dados, inteligência artificial e todos os recursos
de informações internas e externas para direcionar a ser preditivo ou
prescritivo.
Ser preditivo é tomar decisões analisando o comportamento
das jornadas dos clientes e das movimentações no mercado para entender o que
pode acontecer em um curto espaço de tempo. Há várias matrizes de predição que
ajudam a ter um olhar mais expandido dos líderes nas empresas.
Já as decisões prescritivas são aquelas que indicam o que é
preciso fazer para que o negócio sobreviva mediante as mudanças de mercado
de forma estratégica. É a resposta a pergunta: quem vai lhe comprar no futuro?
A construção de cenários, análise de dados, acompanhamento
de inovações em todas as áreas e as principais tendências globais, além de muitas
outras informações, entram nesse rol de prescrição para futuras apostas. E para
isso,o negócio precisa saber para que serve e ao que servirá.
César Silva – Complicado isso. Parece fácil e lógico.
Será que todos aceitam essas verdades?
DECISÃO – Esse para mim é o maior dos problemas. Quem
está fechado ao aprendizado está fadado a se trancar no seu próprio mundo de
verdades incontestáveis. É preciso humildade para aceitar: foi assim até hoje,
mas não funciona mais. É preciso ter coragem para dar um passo ao desconhecido
onde a tecnologia nos fornece informações que nem sonhávamos antes. Me preocupa
o fato de muitas pessoas não se relacionarem bem consigo mesmas, quiçá, com os
outros. Sem colaboração não tem inovação. A ciência já provou isso.
Nenhum gênio na humanidade fez algo sozinho no canto escuro
do seu sótão. É preciso muito cuidado com a sanidade mental das pessoas em
posição de decidir estrategicamente o destino de uma empresa. A colaboração prescinde
que haja desprendimento de cargos, funções ou hierarquias. Em realidade, no
final do dia, o que realmente vale é: o valor e o impacto aos clientes e à
sociedade envolvida.
César Silva – A senhora então é uma humanista?
DECISÃO – Sem dúvida. Não há como desconectar a
pessoa em si da pessoa no trabalho. Além da tecnologia expor a todos, é
fundamental que aconteçam: decisões em torno de jornadas de vida, propósito,
impacto e valor. A diferença é que o dinheiro e o resultado são consequências
de melhores decisões. Mas há um aprendizado nisso. Errar faz parte do processo.
Desde que seja rápido, se aprenda rápido e se tome uma atitude a partir disso.
César Silva – Estou surpreso. Não sabia que decidir
poderia ser complexo e ter esta amplitude. Qual a mensagem final que a senhora
gostaria de deixar?
DECISÃO – Me usem com responsabilidade. Estou aqui
para isso. Existo desde que o ser humano tomou consciência e percebo que
avançamos muito com humanidade. Mas é necessário tratar dos problemas sociais
decorrentes de minha má utilização. Em natureza, sou neutra. Mas tenho alma,
pois só existo, conscientemente, a partir dos seres humanos. Sejam humanos e
permitam que o melhor de vocês apareça. Estou aqui para ajudar nesta jornada
rumo a um mundo melhor.
César Silva – Agradeço muito a sua disponibilidade. Certamente
estas palavras ajudarão aqueles que precisam qualificar suas decisões de forma
humanizada. Muito obrigado!
Eu não sei vocês, mas me impressionei com a Decisão.
Certamente preciso fazer minha lição de casa. De forma permanente, pois nunca
deixaremos de aprender.
Ela é danada de sábia…
César Silva
Especialista
em equipes criativas e colaborativas
Mentor de
Negócios I Consultor I Professor I Palestrante I Board Advisor I Diretor
Regional ABMEN SUL-RS/SC/PR
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