Quem reverencia o nome de uma grife como Chanel talvez tenha
conhecimento do trabalho da francesa Gabrielle Coco Chanel, mas quase tudo que
vemos da marca hoje veio da cabeça de um alemão nascido no meio das guerras e
que transformou a moda contemporânea.
Karl Otto Lagerfeld, nascido em Hamburgo em 1933, tirou uma
letra T que havia no final do seu sobrenome pois sua intuição dizia que era
mais comercial. Ainda adolescente, foi para Paris onde aprendeu com mestres de
maisons como Balmain e Chloé.
Aos 50 anos, uma década após o falecimento de Coco,
Lagerfeld assumiu como diretor criativo da Maison Chanel, em 1983, e lá
reinventou muitos códigos e costumes. O tailleur, peça ícone da marca; o tweed,
o tubinho preto, os calçados bicolores, as bolsas matelassadas, as pérolas…
tudo foi lapidado pelos desenhos e ideias daquele que ganhou apelido de Kaiser
na moda.
Uma vez ele disse, sobre seguir a trajetória de Chanel: “meu
trabalho não é fazer o que ela fez, e sim aquilo que ela teria feito.”
Sua mente fértil de projetos não ficou restrita à moda.
Multi talentoso, explorou diversos horizontes artísticos, incluindo filmes e
fotografia. Desde 1987, era ele que assinava as campanhas da grife, inaugurando
entre criadores uma visão completa a respeito de cada coleção, em uma
trajetória que incluía tudo, da criação dos modelos à publicidade. Colaborava
com a casa italiana de moda Fendi desde 1972 e também dirigia uma marca com seu
nome.
Na vida privada, Kagerfeld era conhecido como alguém muito
profissional, exigente, com um humor peculiar, polêmico e nem sempre bem compreendido.
Não tinha filhos, mas afilhados. Sua devoção, no entanto, era para com a gata
Choupette, da raça sagrado da Birmânia. Excêntrico, chegou a declarar que a
amava tanto que casaria com ela se fosse legal. Choupette chegou a aparecer em
capas e campanhas e foi inclusive tema de peças de moda em algumas coleções de
Lagerfeld.
Apesar de ditar moda, o estilista também foi refém dela. No
começo dos anos 2000, com a ascensão do estilo de Hedi Slimane na moda
masculina e a soberania da silhueta magra e ajustada, Lagerfeld disse que tal
moda exigiria que homens como ele perdessem 40 quilos. Foi o que fez: em 2001,
levou 13 meses para emagrecer 42 quilos e a Lagerfeld Diet virou até livro.
Vestia sempre roupas pretas, luvas de couro, óculos escuros
e o cabelo, comprido e todo branco, preso em um rabo de cavalo. No desfile mais
recente de alta costura da Chanel, em janeiro deste ano, em Paris, o estilista
não apareceu para receber os cumprimentos e especulou-se que estivesse doente.
Ontem, aos 85 anos, foi internado às pressas e veio a falecer. Fica o exemplo
de uma longa e notável carreira, um homem obstinado pelo trabalho, que reinventou
a tradicional Chanel e fez dela uma marca desejável até os dias de hoje, com
sua visão de uma moda baseada em detalhes, perfeccionismo e inovação. Entra
para a história como um dos maiores de seu tempo.
