A moda não gira mais em torno de estações, tipo inverno e
verão. Para o grupo que faz as pesquisas de inspirações da Assintecal, liderado
pelo estilista Walter Rodrigues, os ciclos têm continuidade, evolução,
transformação e não tem mais como delimitar uma tendência e dizer que é desta
ou daquela estação.
Essa semana, em uma manhã ensolarada no jardim do
Eat+Kitchen, em Novo Hamburgo, o grupo recebeu calçadistas, designers e
fabricantes para uma conversa e exposição do que enxerga para a moda até o
final de 2020.
A palavra que norteia a inspiração é zen. Palavra
contraditória que vem do zen budismo e que, segundo a pesquisa, indica aqui uma
importância de estar presente. “É um olhar 360 para tudo o que está
acontecendo”, diz Walter. O tema revela um pensamento que, mesmo apoiado em
tecnologias, aponta uma reflexão sobre “ser” humano.
Os movimentos ao
nosso redor sugerem que já não existem mais limites e a pesquisa da Assintecal
dá exemplos: os smartphones já não têm mais nenhum botão na tela; a Maison
Balenciaga em outubro fez o melhor desfile da temporada em uma passarela
envolvida pela projeção digital que unia chão, paredes e teto no mesmo
movimento. “O ponto central, no entanto, segue sendo o ser humano”, explica o
estilista.
O conservadorismo do mundo atual é visto na nova coleção da
Prada, ao mesmo tempo que Miuccia, uma estilista com forte linguagem política,
faz com que as saias godê usadas com pulôveres do desfile vão ficando mais e
mais transparentes no decorrer do show, falando também da liberdade e poder da
mulher.
A sustentabilidade não é mais uma tendência. Na moda, ela é
assunto urgente e imperativo – falamos de uma das indústrias mais poluentes do
mundo. Analisar profundamente materiais e excedentes, afim de evitá-los ou
transformá-los, é tarefa para ontem. “O lixo também pode ser um erro de
design”, analisa Walter. Adorei essa frase, traz um tom de consciência e
responsabilidade. É fundamental trabalhar esse lixo, limpar os oceanos, pensar
o meio ambiente sem achar que isso é um diferencial de mercado nos dias de hoje.
“É fundamental que cada um faça sua parte.”
A ideia das coisas corroídas pelo tempo, pelo desgaste da
natureza, com aspectos graxos e enferrujados entra na cartela de materiais. As
cores dos produtos que estarão no topo da pirâmide dos lançamentos, aqueles
produtos assimilados pelos formadores de opinião, serão azul profundo, verde
dos oceanos e cinza.
Mas, no segmento mais imediato das tendências prontas para
consumir, a linguagem dos anos 90 traz consigo um espírito lúdico, que quer
reconfigurar os clássicos, repensar as modelagens, trazer pontos de neon para
as cartelas de cores. O excesso de referências aleatórias – essa overdose de
informações fugazes cujo consumo é habitual para as novas gerações –
transforma-se em colagens, pinceladas, movimento.
As paletas de cores precisam ser pensadas para funcionar na
tela do smartphone: é através dele que o consumidor pesquisa e compra seus
artigos, a cada dia mais. A moda olha para a arte, a tecnologia, a natureza,
arquitetura, música… e segue buscando seu lugar de relevância na vida de
todos nós.
O resultado desta pesquisa será conferido no Inspiramais
2020_2, salão de design e inovação de materiais mais importante da América
Latina, que acontece dias 4 e 5 de junho em São Paulo.
