O despertar da ilusão

Carina precisava tomar uma decisão importante em sua vida. Seu passado
pareceu uma ilusão realista de algo que nunca desejou. O casamento havia
chegado em um momento impróprio: ela foi traída.

Ela tinha 45 anos. Já era uma mulher realizada profissionalmente. Casada
há 22 anos e com dois filhos adultos. Marcelo e Luiza tinham
respectivamente 20 e 18 anos. A ideia de que em pouco tempo estaria
convivendo somente com seu marido, não lhe parecia uma
opção válida.

Era uma mulher que não gostava de conflitos. Procurava manter as
relações próximas de forma tranquila. A separação começava a rondar a
sua mente como uma verdade inquestionável.

Avaliou a sua vida pregressa e resolveu se isolar. Comunicou seu marido e
seus dois filhos que estaria em férias nos próximos 15 dias. Um
detalhe: não levaria ninguém. Queria tempo para pensar e refletir.

Ela não acreditava em revolução. Imersa em uma situação delicada,
pensava em evoluir. Queria que seus filhos mantivessem o amor por ela e
pelo pai. Não desejava esfacelar a família. Não queria romper os laços
e, sim, desenlaçar.

Era uma pessoa razoável. Mas suas emoções estavam fervilhando. Por isso,
preferiu o silêncio. Ao mesmo tempo, se preocupava com o impacto da sua
decisão necessária, na vida de seus amados.

Entrou em seu automóvel e seguiu viagem para uma praia reservada no
litoral de Santa Catarina. Era o mês de novembro. Não havia muita
movimentação.

Escolheu uma pousada simples, com poucas pessoas em uma praia tranquila
para pensar, caminhar e refletir. Tinha lido em um livro de uma
psicóloga, que não lembrava o nome, que dizia: a paz era algo impossível
se não estivesse instalada dentro de si.

Levou poucas roupas. Sua ideia era comprar novas, alterando uma parte de
seu guarda-roupa. Precisava se sentir uma mulher renovada.

Manteve o celular no quarto enquanto caminhava e aproveitava o sol.
Olhava nos intervalos se havia alguma mensagem de urgência, o que não
aconteceu. Ela ficou de se comunicar com seus filhos dia sim e dia não.

O sol da manhã refletia o seu rosto castigado em uma vida de esforços.
Percebeu que tinha vivido a existência em função de todos. Não pensava
muito em si. Era a educação que tinha recebido e suas escolhas em meio
ao turbilhão. O casamento não havia se consolidado
e um filho estava a nascer.

A primeira pergunta que lhe veio à mente: por que me casei com o Celso?

Foram dois dias ininterruptos com esta questão em mente. No final do
segundo dia, ela resolveu, após um dia de praia, ir ao seu quarto, tomar
um banho demorado e relaxante.

Naquele momento de lucidez, uma ideia se formou claramente: me casei com
a ideia que fazia dele e não com ele. Era insegura, jovem e não tinha
muita experiência.

Automaticamente, outras perguntas se instalaram: quem sou eu? No que me tornei? Por que nunca investi em mim como merecia?

Ela saiu do banho, secou seu corpo, vestiu o roupão e olhou-se no
espelho demoradamente. Não era mais aquela jovem inquieta. Era uma
mulher madura. Não era mais uma filha. Era uma mãe de dois filhos muito
bem-educados e que precisavam dela.

Outra pergunta fervilhava em sua mente: há quanto tempo eu me olhava no espelho e não me enxergava?

Tomou uma decisão: a partir daquele dia, daria a si a importância, atenção e o cuidado que merecia.

Decidiu não culpar ninguém. Sabia que fez tudo o que podia com as
melhores condições de cada momento. Foi fiel e guerreira todo o tempo.
Não se sentia culpada.

Bem ao contrário: sentiu que tinha se livrado da ilusão de um mundo
perfeito que nunca existiu. Apesar de sentir-se desconectada de si,
percebeu que já tinha construído seu mundo de paz, mesmo que de forma
inconsciente.

Ligou para os filhos e convidou-os para lhe fazer companhia. Quanto ao
marido: quando voltasse das férias merecidas, conversaria com ele. Ela
sentia uma certa misericórdia.

Descobriu neste processo, que quem trai, trai primeiro a si mesmo. O que
não era o seu caso. A paz brotava como água na nascente de um rio
caudaloso…

#educação #autogestão #paz #decisão

Artigo publicado no portal Martinbehrend.com.br


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