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O descaso do Festival com a história do evento em Gramado

Martin Behrend Por Martin Behrend
07/08/2022 - 15:31
em Notas
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Eu era criança na década de 1980. Quando chegava o período do Festival de Cinema de Gramado, tinha um hábito dos meus pais que chamava a minha atenção.

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Somos de Novo Hamburgo, mas a família sempre teve íntima relação com Gramado. Isso porque, na década de 1950, meus avós Werner e Clarice Behrend construíram aquela que por décadas ficou conhecida como a Casa de Pedra, no bairro Carniel. Hoje, existe o Residencial Casa de Pedra no terreno.

Voltando ao hábito dos meus pais. Estava se aproximando mais um Festival de Cinema. Chegávamos na sexta-feira, em Gramado, para curtir o final de semana. Antes de irmos para a residência familiar na cidade serrana, meu pai estacionava a antiga Caravan nas proximidades do Cine Embaixador – atualmente, Palácio dos Festivais.

Ele desembarcava e ia para a porta lateral que existia na bilheteria do Cine Embaixador. Era uma portinha de madeira discreta. Ele batia, e alguém abria. Após se apresentar, ele imediatamente recebia um envelope. Ao voltar pro carro, repassava o pacote para minha mãe. Eu ficava de olho tentando decifrar aquele “mistério”.

De dentro do envelope saíam dois carnês completos para todas as sessões do Festival de Cinema. Uau! Eu achava aquilo o máximo, mas não conseguia entender o motivo da gentileza.


Por que meu pai era sempre presenteado com ingressos em ótimos lugares para assistir ao Festival de Cinema?

Esse hábito se repetiu por muitos e muitos anos.

O tempo passou, me tornei adolescente e, então, descobri o que estava por trás desse hábito de receber ingressos para o evento: meu pai foi um dos principais responsáveis pela existência do Festival de Cinema de Gramado! Uau – de novo!

O repasse dos ingressos era feito por Odilon Cardoso, que por décadas coordenou o Cine Embaixador. Odilon sabia toda a história do evento, desde suas origens. Odilon reconhecia a relevância do meu pai. Odilon jamais esqueceu de reservar os ingressos para ele. Sem a atuação de Claudio Behrend, não se sabe se existiria o Festival de Cinema de Gramado.

A entrevista abaixo de Odilon Cardoso foi publicada em reportagem no jornal ABC Domingo de 28 de julho de 2002, quando o Festival completava 30 anos.

MOSTRA DE CINEMA DE GRAMADO

Em 2022, o Festival de Cinema de Gramado completa 50 edições – será de 12 a 20 de agosto. A primeira foi em janeiro de 1973.

Só que existiu um evento anterior, com duas edições, que representam a verdadeira origem do Festival. Em janeiro de 1969, teve a 1ª Mostra de Cinema de Gramado. Em janeiro de 1971, ocorreu a 2ª Mostra de Cinema de Gramado.

As Mostras de Cinema revelaram Gramado para o Brasil! É nesse momento que Gramado se apresenta com outra dimensão além Mampituba. São estas duas edições que inauguram a ruptura na história turística de Gramado.

Nesse sentido, um grupo de pessoas precisa ser incansavelmente aplaudido, reconhecido e lembrado.

O jornalista Luís Carlos Lisboa, o criador do Clube de Cinema de Porto Alegre Paulo Fontoura Gastal (P.F. Gastal), Gino Perine e Claudio Behrend – ligados ao Conselho Municipal de Turismo (Comtur) de Gramado – formam um quarteto de pessoas fundamentais para a realização da 1ª Mostra de Cinema de Gramado. Foram eles que movimentaram e articularam a vinda de artistas para participar de um evento de cinema em Gramado durante a 6ª Festa das Hortênsias.

A mensagem abaixo é de Luciano Peccin. Ele foi o idealizador do Natal Luz, na década de 1980, e secretário de Turismo de Gramado. O abraço foi postado no Facebook, em 2020, em razão do aniversário de 82 anos de Claudio Behrend.

Do lado político, o grupo acima teve o suporte e o apoio do prefeito José Francisco Perine, do vice-prefeito Almeris Peccin (também presidente do Comtur de Gramado) e do presidente da 6ª Festa das Hortênsias, Nailor Balzaretti.

Em janeiro de 1969, “Gramado foi por três dias capital do nosso cinema” – manchete de matéria produzida por Luís Carlos Lisboa. Estiveram na cidade, por exemplo, o casal Eva Wilma e John Herbert. Eles compareceram na primeira festa do evento, realizada na casa de Werner e Clarice Behrend.

As fotos abaixo são do acervo da família Behrend e também estão no Museu do Festival de Cinema. Ambas são registros feitos na casa de Werner e Clarice Behrend. Na primeira, estão John Herbert e Eva Wilma. Na segunda, Eva Wilma, o figurinista Nazaré, Claudio Behrend, Tania Carvalho e Mara Behrend Schuck.

E assim, fruto do empenho e da dedicação de sobrenomes como Lisboa, Gastal, Perine e Behrend, a história do cinema de Gramado mudaria para sempre. É por causa das duas Mostras de Cinema de Gramado que, hoje, aplaudimos com entusiasmo o 50º Festival de Cinema de Gramado.

Na foto abaixo, mais um registro da Mostra de Cinema de Gramado. Estão na imagem Silvia Willrich Zorzanello (in memoriam), Luís Carlos Lisboa – faleceu há poucos meses, conforme registrado pelo Portal Martin Behrend – https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… -, Claudio Behrend, Dante de Laitano e Gino Perine.

DESCASO

Como jornalista que acompanha Gramado há muitos anos e como filho de Claudio Behrend, eu tenho essa história muito presente.

Já contei, por exemplo, o dia em que entrei de braços dados com Eva Wilma no Palácio dos Festivais. Foi quando consegui agendar um reencontro da atriz com meu pai – estes episódios podem ser relembrados nesta matéria: https://martinbehrend.com.br/noticias/noticia/… .

Então, por saber que, em 2022, seriam celebradas os 50 festivais, no retorno das edições presenciais após dois anos de formato híbrido em razão da pandemia, procurei a direção da Gramadotur para sugerir uma homenagem aos responsáveis pela 1ª Mostra de Cinema de Gramado, o evento que dá origem ao Festival.

Fiz o contato com a sugestão de homenagem em setembro do ano passado. A mensagem chegou, recebi a confirmação. Tinha a nítida percepção de que haveria a sensibilidade da organização em levar ao palco do Palácio dos Festivais os responsáveis por tal feito.

Neste ano, comecei a receber os releases e as pautas do Festival de Cinema de Gramado, evento que já realizei a cobertura jornalística por vários anos. A programação foi chegando. E nada de homenagens para a 1ª Mostra de Cinema de Gramado. Então, decidi fazer contato com a assessoria de imprensa.

Após alguns dias, veio a resposta: “Não há nada previsto para ocorrer no palco do Palácio em referência às mostras de 69 e 71.”

A primeira palavra que veio a cabeça foi descaso. A segunda também foi descaso. Depois, vieram mais algumas. Mas a sensação é de um grande descaso com uma geração responsável por uma grande transformação na vida turística de Gramado.

Fiquei refletindo sobre o que fazer. Decidi ir até o Museu do Festival de Cinema de Gramado e ao Palácio dos Festivais. No museu, felizmente, existem breves citações às Mostras de Cinema de Gramado. Ufa, ao menos ali está registrada a origem do Festival.

Num dos áudios do museu recontando a história do Festival, tem o seguinte texto: “Se a Serra não vai ao cinema, o cinema vai até a Serra. Assim iniciou o mais antigo festival de cinema do Brasil. Para conhecer o início da história, devemos retornar até o ano de 1969, quando a tradicional Festa das Hortênsias incluiu na programação uma mostra de filmes brasileiros, toque cultural para um festa de grande apelo popular. A experiência deu certo e se repetiu dois anos depois. A ideia parecia promissora, evoluiu e ganhou vida própria. Em 1973, a Mostra foi transformada em Festival.”

Isso está no Museu do Festival de Cinema de Gramado.

O trecho abaixo está na reportagem do jornal ABC Domingo já citada acima.

HOMENAGENS

Infelizmente, a organização do evento não quis dar o devido reconhecimento à Mostra. Haverá homenagens merecidas, sim, na abertura do Festival deste ano, no dia 12 de agosto.

Conforme divulgado pela assessoria de imprensa, o Festival de Gramado vai homenagear figuras da cidade que
auxiliaram na construção e na manutenção do evento nas últimas cinco
décadas. A primeira delas é Horst Volk, um dos principais incentivadores.

Além dele, serão homenageados os presidentes do Festival de Cinema de Gramado Enoir Zorzanello, Esdras Rubim e Alemir Coletto e os prefeitos João Alfredo de Castilhos Bertolucci, Nestor Tissot, Pedro Henrique Bertolucci, Waldemar Frederico Weber (in memoriam) e Nelson Dinnebier (in memoriam) com o Troféu Reverência Horst Volk.

“Esses troféus são uma releitura da
história. Vamos homenagear gramadenses que dedicaram anos de trabalho
para que nós pudéssemos estar aqui hoje, preparando essa edição
histórica”, afirma Diego Scariot, diretor de eventos da Gramadotur,
autarquia municipal responsável pelos eventos da cidade. Os homenageados receberão um Kikito
de madeira – conforme era na origem do evento.

Para os desbravadores da Mostra de Cinema de Gramado sobrou a indiferença. Aliás, pelo saguão do Palácio dos Festivais existem dezenas de placas com homenagens muito justas. Inclusive, tem placas homenageando P.F.Gastal, Gino Perine e Odilon Cardoso, por exemplo.

O nome de meu pai, Claudio Behrend, e da geração que realizou a 1ª Mostra de Cinema de Gramado, não foi merecedora, até o momento, de um reconhecimento no Palácio dos Festivais. Mesmo que a direção da Gramadotur tivesse sido lembrada com bastante antecedência do momento oportuno.

Quem sabe, um dia, o Festival faça esse reconhecimento com um Kikito especial ou com o Troféu Cidade de Gramado, que homenageia nomes que tiveram ligação com Gramado e com o Festival de Cinema, e que contribuíram com o crescimento e a divulgação da cidade e do evento.


Espero que ainda seja com meu pai vivo para que seus filhos e netos possam aplaudir aquele que, para muitos gramadenses, é o IDEALIZADOR DO FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO.

Finalizo esse artigo-homenagem-reportagem com mais alguns registros.

O Certificado abaixo, de 2004, é assinado pelo ex-prefeito Pedro Bertolucci e pelo presidente da Comissão Organizadora dos 50 anos de Gramado, Luia Barbacovi. É um reconhecimento a Claudio Behrend pela 1ª Mostra de Cinema de Gramado.

Curiosidade: Luia Barbacovi é o atual vice-prefeito da cidade, e o atual prefeito de Gramado, Nestor Tissot, era o vice-prefeito de Pedro Bertolucci quando o Certificado foi concedido.

Já na foto abaixo, o momento em que ocorre o reencontro de Claudio Behrend e Eva Wilma, num restaurante de Gramado. Eles tinham se encontrado em 1969, na 1ª Mostra de Cinema, e voltaram a se encontrar em 2005, num momento especial na Taverna del Nonno.


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