No sofá com meus amigos Gisele e David

Nesse período de pseudoférias, em que dividimos o tempo
entre os dias escaldantes de trabalho e alguns dias de descanso no litoral
norte e seu refrescante nordestão, pude engatar duas leituras à parte da minha
pilha de livros e artigos que ando cumprindo no decorrer dos meus estudos. Dois
livros que guardam, obviamente, muitas diferenças, mas trazem também
semelhanças. “Aprendizados”, de Gisele Bündchen, e “Hoje Venci o Câncer”, de
David Coimbra.

Ela é modelo; ele, jornalista. Ambos gaúchos. Os dois
atualmente moram em Boston, nos Estados Unidos: ela, por conta do marido
atleta; já David por conta de um tratamento de saúde que, até agora, tem
driblado o câncer agressivo com o qual ele convive. O objetivo é a cura, a
batalha está em curso.

Os dois livros, daqueles leves e rápidos de ler, são
escritos em primeira pessoa, trazendo a visão de cada um dos autores sobre suas
trajetórias. Eles compartilham histórias, revelam passagens íntimas, expõem
sentimentos, forças e fraquezas.

Os aprendizados que Gisele divide em seu livro foram sendo adquiridos
na nem sempre fácil vida da modelo: se hoje ela é a mais bem paga do mundo, já passou
por dificuldades no começo da carreira, trabalhos negados, grana curta,
distância da família, insegurança, solidão. Era uma adolescente que equilibrava
dúvidas sobre sua aparência (muito alta, muito magra, nariz grande, olhos
pequenos) com uma força de vontade e maturidade que a impulsionaram nas
escolhas certas.

O título deste texto, claro, é uma brincadeira: não sou
amiga nem de Gisele nem de David, embora, depois das leituras, a gente acabe
sentindo quase que sim. Mas cheguei a conversar muito rapidamente com ambos em
algum momento do meu trabalho como jornalista. Conheci o David numa visita à
redação da Zero Hora que fiz com meu então colega Maneco, quando trabalhávamos
em assessoria de imprensa. Cara cordial, humorado. Já Gisele, encontrei numa
coletiva de imprensa em São Paulo quando ela lançava sua coleção de sandálias
para a Ipanema, marca da Grendene.

Pausa para contextualizar. No universo da moda e
celebridades, já estive em alguma dezena de entrevistas coletivas por conta do
meu trabalho, em uma época em que youtubers, instagrammers e blogueiros ainda
não existiam e você precisava ser de algum veículo de imprensa para entrar.
Então, ali, muitos jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas se acumulavam em
torno do entrevistado. Celebridades são seres que às vezes se comportam como se
estivessem no Olimpo, vi isso acontecer em algumas ocasiões.

No caso de Gisele, ela ainda não era tuuuuudo que se tornou
mais tarde, mas já era número um do Brasil, sem dúvida. O evento, no pavilhão
da Bienal, estava lotado. Rede Globo, revista Veja, Folha de S.Paulo… eu
representava a Revista Lançamentos, do Grupo Sinos, uma publicação “pequena” em
comparação às outras ali, mas a única entre as presentes que era especializada
em calçados. Pedi o microfone para fazer uma pergunta e eu estava no meio de um
grande bolo de pessoas, meio sumida. Me apresentei: “Cristina, da revista
Lançamentos, do Rio Grande do Sul”. Ela pediu: “espera, não pergunta ainda, não
estou te vendo”. Aí o bolo se abriu um pouco, ela viu de onde partia a
pergunta, eu prossegui, ela escutou e respondeu o tempo todo olhando para mim,
com calma e atenção. Fez isso comigo e com todos os repórteres. Foi um gesto
simples, singelo, mas que exemplifica uma atitude de respeito e consideração.

Isso senti no livro de Gisele, uma modelo que chegou no
ponto mais alto que qualquer modelo chegou no mundo, mas ali, naquelas páginas,
apresenta o ser humano por trás da “persona”.

Nesse ponto, também David se abre de uma forma sensível. Do
colunista de tom provocante e sagaz, ele passa a ser um sujeito com
fragilidades expostas, alguém que recebe um diagnóstico avassalador e traz o
relato de como vive cada etapa deste processo. Um tema pesado, mas que o texto
direto e fluido faz aliviar. Por mais de uma vez, o autor se depara com a
contagem regressiva de tempo de vida chegando no final… e então encontra
tratamentos, médicos, possibilidades novas e esperança.

Há um trecho em que David, reproduzindo uma crônica sua de
2013 publicada em Zero Hora, chamada “O que o homem gosta na mulher”, usa
Gisele como exemplo:

“Uma modelo é muda. Não está
acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a
Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz
dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo
ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as
modelos.”

Considero o livro de David ótimo e acho uma pena esse trecho
– e o livro de Gisele está aí para justamente mostrar o quanto ela pode ter a
dizer. Está há muitas semanas no topo dos rankings dos livros mais vendidos do
país, inclusive. Talvez em 2013, há seis anos, portanto, quem sabe Gisele
estivesse menos preparada para levantar sua voz e compartilhar com propriedade
seus aprendizados, sua visão de vida, família, sua ligação com a natureza e com
o trabalho.

Talvez, em 2013, David fosse, quem sabe, um pouco pretensioso para julgar
que alguém não raciocina ou não pensa. Talvez hoje eles já tenham se cruzado
por Boston, agora que são vizinhos. Talvez o fato de serem gaúchos já os tenha
colocado a conversar em algum momento. Talvez virem amigos. Talvez eles possam
ler o livro um do outro. Talvez possam gostar da leitura, assim como eu gostei.

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