Um irmão mora em Caxias do Sul. Outro, na Alemanha. O irmão mais
novo outrora não tinha carteira de motorista, mais adiante viajava muito em
razão de trabalhos profissionais e, recentemente, foi morar em Campo Bom. Sendo
assim, um dos rituais de Natal na casa dos meus pais, nos últimos 20 anos, ficou
sob minha responsabilidade.
A colocação do pinheirinho de Natal na sala é algo que vem
passando de geração em geração. Ei, alto lá: pinheirinho natural! Nada daqueles
galhos amarrotados que ficam 11 meses numa caixa de papelão. Nada disso. Lá no
apartamento dos meus pais não tem essa de árvore artificial!
Assim como as homenagens a Jesus Cristo (o grande
aniversariante da data!), os quatro domingos de Avento, a Coroa de Advento, o
culto na Igreja da Ascensão na noite de 24 de dezembro, os biscoitos e bolos
especiais, os cânticos natalinos – “Oh Tannenbaum” e “Noite Feliz” não faltam! –
os sacos de presentes e a ceia farta, o pinheirinho natural é fundamental para
o Natal ser completo.
Alguém aí sabe ou tem noção de como é colocar um pinheirinho
natural de quase 2,5 metros num apartamento? Ah, se não sabe ou nunca passou
por essa experiência, eu garanto que vocês não conhecem o verdadeiro espírito
de Natal.
Por muitos anos, comprávamos nosso pinheirinho no bairro
Vila Rosa. Também teve um tempo em que eles eram comercializados quase em
frente à Sociedade Aliança, onde hoje existe o Residencial Aliança. Atualmente,
nosso fornecedor fica no bairro São José, passando pela ERS-239. A tarefa
começa se embrenhando na plantação de pinheirinhos. É rechonchudo? É alto? Tem
galhos novos? Preenche o espaço?
Após esse momento crucial, se corta a árvore. No embalo, já
se coloca o tripé. Ah, não sabe como é? O caule vai dentro de um tripé de ferro e meio enferrujado – que deve
ter meio século. Esse tripé, mais adiante, será colocado dentro de uma lata de
tinta. E ali dentro, pra firmar a árvore, se coloca água pra manter o
pinheirinho vivo.
Mas pulei etapas. E como se transporta o pinheirinho de mais
de dois metros? Não é qualquer carro. Pega caminhonete do pai, deixa o carro no
edifício, troca de veículo e está lá o veículo “especializado”. Acomodar o
pinheirinho no veículo é outro momento tenso. Jamais, em hipótese alguma, nunca
quebre a ponta da árvore. Sei lá, dizem que isso traz uma negatividade eterna.
Lembre-se: JAMAIS quebre a ponta da árvore.
Uma observação sobre a procura pelos pinheirinhos naturais: vem diminuindo. A dona do terreno, que planta de forma planejada as árvores, diz que as novas gerações têm preguiça e preferem os de plástico. Já um familiar diz que não compra os naturais para proteger o meio ambiente. Mas esse argumento não se sustenta, pois quem planta os pinheiros não desmata e replanta a cada novo ano. A gurizada das novas gerações quer mais rapidez mesmo.
Com o pinheiro no carro, com aquele caule atravessado por
cima do câmbio/marchas do carro, esteja preparado para sangrar. Mesmo sendo
carro automático, é inevitável um espinho abençoar sua mão na hora de engatar a
marcha. Dica de viagem: leve toalhas! Elas serão decisivas pra segurar o
pinheiro se grandes dores.
Chegando em casa, hora de tirar o pinheiro do carro.
Devagar, muito devagar pra nenhum galho quebrar na retirada. Duas pessoas podem
ser valiosas pra esse movimento. Depois, escada com o pinheirinho. Devagar nas
curvas, olha a ponta!!!!
Finalmente, a chegada no apartamento. Os móveis estão
arredados, a lata está posicionada, as pedras ao redor, é hora de posicionar.
Com jeito, o tripé encaixa na lata. E aí vem o pai com seu olhar de quase 80
Natais: gira 5 graus pra direita, avança 10 centímetros, roda pra esquerda,
mais 7 centímetros e está perfeito. A essa altura, suo tanto que pareço ter
feito sauna de roupa.
Entáo, o gran finale! Hora de colocar água e, FUNDAMENTAL:
aspirina! Jamais coloque Tylenol. Embora os dois combatam a dor de cabeça, o
produto que o pinheiro precisa para se manter firme e forte está na Aspirina.
Teve um dos primeiros Natais que toquei uns 30 comprimidos de Tylenol e o pobre
do pinheiro só murchava. Lições da vida.
Então, com ele devidamente posicionado, me movimento até o
fundo da sala. Fico contemplando aquela árvore. Aliás, considero esse pinheirinho magico: há muito tempo ele tem a capacidade de reunir nossa família a cada final de ano para uma noite especial. A Mami – minha Mamãe Noel – começa
a colocar as luzinhas e temos bolinhas de Natal ainda do tempo da Oma Clarice, a querida Oma Kiki –
são bolinhas com mais de meio século de vida! Aos poucos, o pinheirinho vai
ganhando colorido. As luzes piscam, enfeites são pendurados e, abaixo, o
presépio com Jesus Cristo brilhando no presépio. Ele é o aniversariante.
Saio de casa pensando: e como será o Natal sem o pinheirinho
natural? Ah, isso é pra depois. Por hora, agradeço por cada novo final de ano
com meus pais por perto, num ritual que nossa família mantém há décadas. Obrigada,
Mamãe Noel. Vamos ter pinheirinho natural de novo!
