Fabrizio está em Oslo, na Noruega

A estreia da coluna Do Vale Pelo Mundo, na semana passada, foi bastante positiva, com muitos comentários, elogios e indicações.

Este espaço começou a fazer a conexão de moradores do Vale do Sinos, residindo em outros países, com suas raízes e memórias da região.

Será uma ponte para aproximar histórias e, até mesmo, uma atualização sobre os moradores que levaram hábitos regionais para outros continentes.

A coluna Do Vale Pelo Mundo deverá ter um convidado por semana. As sugestões de convidados podem ser enviadas para o e-mail mbehrend@uol.com.br

Aproveitem esta viagem pelo olhar de quem saiu do Vale do Sinos para fazer história em diferentes destinos do planeta!

DE NOVO HAMBURGO PARA OSLO

Convidado: Fabrizio Camerini, 47 anos

De Novo Hamburgo. Reside em Oslo, na Noruega


Filho de Franco Camerini e Romeine Hack

Esposa e filhos: É casado com Gabriela Mezzanotti, de São Leopoldo. São pais do Eduardo Mezzanotti-Camerini e do Fernando Mezzanotti-Camerini, ambos nascidos em Porto Alegre.

Estudos

Oswaldo Cruz, Fundação Evangélica, Unisinos (graduação em Direito) e UFRGS (mestrado em Direito).

Quando foi morar no exterior

Já havia morado na Inglaterra antes de ingressar na universidade. Na fase mais recente, saímos do Brasil em dezembro de 2015. A oportunidade surgiu em razão do trabalho. Eu desempenhava a função de gerente jurídico na Yara Brasil Fertilizantes, em Porto Alegre. Passei a me envolver com a área de Compliance, em 2014, com uma abrangência que incluía países da América Latina.

Em 2015, fui convidado para vir para a Noruega (sede da Casa Matriz da Yara International ASA) para assumir uma posição de Gerente Regional de Compliance para Europa, Oriente Médio e norte da África. Sempre viajei muito a trabalho por todos os continentes, mas fixamos residência em Oslo em janeiro de 2016.

Qual sua atividade atual?

Vice-Presidente Global de Compliance da Yara International ASA.

A vida em Oslo.

Moro com minha esposa, Gabriela, e nossos filhos Eduardo e Fernando. Minha esposa é professora universitária e foi aprovada em concurso público na Noruega para lecionar em nível de pós-graduação (mestrado e doutorado) na área de Direito Internacional e Direitos Humanos. Nossos filhos se adaptaram muito bem, dominaram o idioma norueguês rapidamente e frequentam uma escola bastante tradicional de Oslo, de orientação cristã.

Qual local sente saudades de frequentar na cidade/região?

Sentimos saudades da família e amigos, claro. Em Novo Hamburgo, sentimos falta dos passeios em Hamburgo Velho e das visitas as casas de familiares, especialmente dos avós e da “nonna Zelia”. Tanto eu como minha esposa temos carinho pelas escolas que frequentamos (ela estudou no Sinodal, em São Leopoldo) e pela Unisinos, pois nos conhecemos no campus e, mais tarde, fomos docentes do curso de Direito. Os tempos de Fundação Evangélica foram especiais para mim e a formação que a escola me proporcionou foi muitíssimo relevante para minha vida em ambos os sentidos, pessoal e profissional.

Qual restaurante/comida/espaço gastronômico da região que sente falta?

Poderia listar páginas aqui (risos). A gastronomia na Escandinávia é diferente da nossa (eu diria bastante inferior para meu gosto). Jamais encontramos algo parecido com a qualidade do buffet do Paulinho Pilatti, por exemplo. Ou um bom galeto (como Capri e Mamma Mia), ou o tradicional Bifão, que sempre frequentamos. Churrascarias aqui são raras, caríssimas e de qualidade inferior as do nosso Brasil. Encontra-se hamburguer, mas nada comparado ao nosso Xis (Pica-Pau e Kings Kão são nossos favoritos).

Ainda que tenhamos algumas cantinas italianas, a comida italiana no Brasil é superior também, salvo as pizzarias italianas, que aqui são boas. Em resumo, em termos de gastronomia, estamos mal servidos (risos). Talvez uma surpresa agradável da gastronomia daqui é a proximidade a vários produtos provenientes dos países europeus. Encontra-se de tudo.

Tem algum hábito/costume/rotina que levou da região para o exterior?

Culturalmente, procuramos manter o interesse cultural pelas tradições intelectuais gaúchas e brasileiras com nossos filhos, já que eles vieram muito cedo (com 11 e 7 anos, respectivamente). Literatura e folclore brasileiros são bastante discutidos em casa, assim como a própria língua portuguesa (fazemos questão que eles não percam a língua, falada e escrita).

A Gabriela e os meninos tomam chimarrão. Fazemos churrasco praticamente todos os finais de semana, entre abril e setembro (quando a temperatura permite). Cozinhamos arroz e feijão frequentemente, algo que os escandinavos não fazem. Também mantivemos a tradição de tomar dois banhos por dia, não importando o clima. Tenho certeza absoluta de que tomamos mais banhos do que a média escandinava, especialmente no inverno (risos).

Nossos filhos gostam muito de música e mostram aos amigos artistas e músicas brasileiras. Gilberto Gil e Tim Maia são obrigatórios nas festas deles. “Descobridor dos 7 mares”, do Tim Maia, é a preferida da galera.

Pensa em voltar para morar na região?

No momento, não. Estamos bem adaptados e colocados profissionalmente. E os filhos já assimilaram o modelo norueguês. Acho que estranhariam bastante a vida no Brasil nesse momento.

Qual atrativo ou destaque da cidade/região onde mora?

O que mais gostamos aqui é o modelo social e cultural. A sociedade é bastante plana, não há desigualdade sistêmica. Sem deixar de ser uma sociedade econômica e socialmente livre (a Noruega é uma social democracia plena), a distância entre o menos e o mais favorecido é menor do que em outros países ocidentais. Isso praticamente elimina problemas sociais como os que temos no Brasil.

Não há pobreza endêmica e marginalização social. O “welfare state” funciona muito bem, a qualidade e o padrão de vida são altíssimos e praticamente todos usufruem disso, mesmo aqueles com renda menor. Os níveis de violência são muito baixos e o povo tem um cultura não hierárquica. Não há um habito de classificar-se socialmente as pessoas.

Há uma espécie de pressuposto social invisível, não declarado, mas presente nas interações sociais em geral (inclusive no trabalho), de que todos são iguais e pertencem a uma sociedade que precisa funcionar bem para todos. Há muito respeito e educação nos interações sociais, desde o trabalhador mais humilde, passando por professores, funcionários públicos em geral, até o CEO da empresa, que é normalmente chamado pelo primeiro nome, sem autocracia nem reverencia, mas com respeito.

Sempre nos sentimos muito bem com isso, pois fomos muito bem recebidos e respeitados nessa sociedade. Uma curiosidade, apenas para exemplificar o quão plana e não hierárquica é a sociedade: nosso filho caçula, Fernando, estudou com uma das netas do rei da Noruega. Em eventos da escola, frequentemente encontramos membros da família real. Eles jamais se conduziram de forma diferente dos demais pais e familiares.

Sempre trataram os demais normalmente, frequentaram a escola sem comportamentos e ritos especiais. E sempre receberam o mesmo tratamento que as demais famílias. Sem prerrogativas nem privilégios. Ate participaram de atividades de limpeza da escola (uma tradição dos pais naquela escola especifica). A piada aqui em casa era de que limpamos o chão da sala de aula do nosso filho juntamente com a princesa da Noruega (quem diria? Risos…)

Qual ensinamento/lição/prática que tem na sua atual cidade e que gostaria de ver se aplicada na cidade onde viveu no Brasil?

Acho que a questão cultural que me referi acima é talvez o principal fator para que o espaço público aqui funcione bem. Se pudéssemos endereçar alguns desses problemas sociais, teríamos talvez menos violência urbana. Poderíamos ter um sistema de transporte publico eficiente, ou talvez um sistema de serviços públicos mais eficientes em geral.

Se pudéssemos desenvolver um pouco mais de coesão social (menos divisão, menos “nos contra eles”) e reduzíssemos (pelo menos um pouco) as desigualdades sociais, talvez pudéssemos construir mais a partir de consensos do que desagregar nas diferenças. Acho que a causa raiz para não conseguirmos implementar melhorias em nossa sociedade está nas nossas questões culturais, na nossa dificuldade de abandonar uma visão autoritária, autocrática e segregada da sociedade.

Estamos demasiadamente inseridos no esquema do “cada um por si”. Eu gostaria de ver uma evolução na nossa sociedade que nos afastasse do modelo excessivamente burocrático, hierárquico, que favorece o privilegio e a corrupção. Infelizmente não tenho a receita desse bolo. Mas experimentei e gostei.

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