Expectativa, realidade e a decepção evitável

Por mais que minha apreciação das obras de autor acima tenha se desgastado
bastante nos últimos anos, acredito que a citação seja pertinente ao tema deste
texto. Falo isso, pois nesta mesma semana de 2015, eu atravessava os vilarejos do
norte da Espanha e adentrava a região da Galícia em cima de minha bicicleta. Era
guiado no caminho pelas conchas de vieira, e estava completamente cego pelo
objetivo de chegar, no menor espaço de tempo possível, à mística catedral da cidade
de Santiago de Compostela.

Já faziam quase duas semanas que comia e dormia mal, muitas vezes passando
a noite em colchonetes no chão de conventos locais. Entretanto, o entendimento
de estar nos quilômetros finais do Camiño Frances me estimulava a continuar. A
música “Eye of the Tiger”, do Rocky Balboa, ecoava incessantemente na minha
cabeça, e estava ansioso para triunfar no último trecho da jornada entre Pallas
del Rei e Santiago. Esperava uma recepção digna de um “iron man”, com toda a
pompa que uma experiência única na vida merecia. O que vi, entretanto, foi uma igreja
relativamente maior que as inúmeras outras que havia visitado nos 850 quilômetros
percorridos, e que, além de completamente desbotada, tinha a sua fachada
encoberta com andaimes. Que decepção.

Há
alguns dias atrás tive a oportunidade de assistir a um vídeo de grande sucesso
nas redes sociais, o qual argumenta que a felicidade é resultado de uma equação
oriunda da subtração da expectativa pela realidade. Por mais que entenda e
concorde com a lógica do raciocínio, não me agrada o fato de atribuir meu
bem-estar a algo tão volátil quanto ao anseio humano. Em uma analogia
materialista, dirigir um Porsche pode lhe parecer ótimo em um primeiro momento,
até que seu vizinho estacione uma Ferrari no box logo ao lado do seu. A
expectativa é um alvo em movimento.

Isso ficou bastante
claro ao atingir o objetivo da minha epopeia: por mais que o resultado final fosse
algo que outrora consideraria bom, naquele determinado momento o desfecho
parecia aquém de meu merecimento. E não era uma consideração tão somente minha,
pois semelhante desapontamento emanava dos demais peregrinos maltrapilhos que se
esparramavam através da Praça do Obradoiro, enquanto fitando a celebre catedral.
Conseguia enxergar em seus olhos a seguinte pergunta: “É pra isso que percorri
todo esse caminho?” A equação de custo e benefício do esforço não estava
fechando.

Inconformado com tal sentimento,
dei início a uma busca para verificar a existência de debates sobre este
paradoxo de triunfar no objetivo inicialmente proposto, mas continuar com o
sentimento de incompletude. Foi quando, entre diversos posts de instruções
preparatórias aos aspirantes, encontrei um tópico dedicado a este desconforto
que acabou se revelando mais comum do que imaginara. Era uma discussão extensa,
com diversas teorias desencontradas sobre qual marco físico gerava um desfecho mais
confortante a trajetória, muitos deles sugerindo até mesmo a necessidade de
prosseguir até a cidade de Finisterra. Entretanto, estes pitacos cessavam no texto
de um viajante veterano que articulou com nítida serenidade: “Vocês estão
procurando explicação no lugar errado. A catedral é somente um ponto de término
físico na travessia. O destino é a jornada”.

O destino é a jornada, e minha expectativa havia sido construída no
capítulo errado da história. Fatos outrora coadjuvantes ganharam força e
viraram protagonistas. Episódios anteriormente percebidos como insignificantes
passaram a ser os mais apreciáveis, e que carrego comigo até hoje. De fato a
felicidade, ou talvez, o sentimento de completude, seja resultado da subtração
da expectativa pela realidade. Mas um
dos grandes erros que cometi é não saber em qual altura da empreitada devia implantar
a primeira variável da equação. O objetivo
final é muito importante como o troféu, como simbolismo de realização. Mas esta
realização, na verdade, não aconteceu no destino, mas sim durante todas as
peripécias que me levaram até o ponto derradeiro. O destino era a jornada.

Este foi um aprendizado que sem dúvida trouxe comigo do “El Camiño”, mas
que volta e meia esqueço, até ser forçado a relembrar por circunstâncias da
vida. As experiências ficam gravadas em nosso disco rígido para futuras consultas
em momentos decisivos, impulsionadas inconscientemente pelo instinto. Na
próxima semana completo um ano de que carreguei minha bagagem com informações únicas
e voltei cheio de expectativa (um pouco mais assertivas e controladas) para usá-las.

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