Eu sou um viciado, não posso negar. Acordo todos os dias de supetão, e saio de um estado de alfa diretamente para o alerta total, lutando pela minha vida. Não existe uma curva de transição gradativa, é uma sensação de corrida contra o tempo com a ampulheta já pela metade. Disparo para a cozinha, batendo os ombros em praticamente todos os marcos de porta que encontro pelo caminho, e coloco uma capsula aleatória na minha máquina de café expresso. A luz do aparelho começa a piscar sem fim até que, enfim, posso apertar o botão “start” e ter a sensação que a abstinência esta chegando ao final. Sim, sou viciado em cafeína mais alto grau possível.
Já parei para analisar diversas vezes qual o motivo do prazer que o café me traz. Seria o gosto? Alguma interação química? Ou talvez o aumento de produtividade? Levando em consideração que não gostaria de atribuir meu vício a algo tão leviano quanto o sabor da bebida, muito menos admitir que não tenho o controle sobre meu próprio corpo, me condicionei a acreditar que o café me deixa mais produtivo e, consequentemente, sou viciado em produtividade. É mais bonito e me deixa em paz com meu próprio ego. Entretanto, para evitar uma exposição tal qual “ele está tentando se convencer disso”, tento embasar minha crença em números. Algo factível que consiga sustentar minha tese de que realmente existe uma correlação direta entre café e produtividade, e não seja somente o meu vício falando.
Uma vez que me convencer foi fácil devido a minha parcialidade no assunto, tento corroborar minha tese persuadindo você também a acreditar que o café gera riqueza não somente através de sua exportação e comercialização, mas também aumentando a produtividade de quem o consome. O World Resources Institute, uma organização ambientalista baseada em Washington, disponibiliza online uma tabela do consumo de café por habitante nos mais diversos países. Quando colocamos esta informação lado a lado com o PIB per capita destes locais, acabamos encontrando um padrão: quanto maior a riqueza, maior o consumo de café de cada pessoa. Os que encabeçam a lista são:
|
País |
Consumo per capita de café (em KG) |
PIB per capita (Milhares USD) |
|
Finlândia |
12 |
35,90 |
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Noruega |
9,9 |
55,40 |
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Islandia |
9 |
40,70 |
|
Dinamarca |
8,7 |
37,80 |
|
Holanda |
8,4 |
43,30 |
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Suécia |
8,2 |
40,90 |
|
Suíça |
7,9 |
54,80 |
|
Bélgica |
6,8 |
37,80 |
|
Luxemburgo |
6,8 |
77,90 |
|
Canada |
6,5 |
43,10 |
|
Alemanha |
6,4 |
39,50 |
|
Bosnia Herzegovina |
6,1 |
8,30 |
|
Austria |
6,1 |
42,60 |
|
Italia |
5,9 |
29,60 |
|
Eslovenia |
5,8 |
27,40 |
Resta então a pergunta: o café ajuda na geração de riqueza ou é a riqueza que impulsiona o consumo de café? É uma pergunta justa, uma vez que quanto mais dinheiro disponível para compras, maior o consumo de qualquer produto em números absolutos. Entretanto, precisamos manter em mente que o café é uma commodity relativamente barata, ou seja, todas as classes sociais tem acesso a ele. Uma vez sendo baixo custo, ele tende a substituir produtos mais caros e de difícil acesso em países menos desenvolvidos.
Em uma analogia simplista, uma banana supostamente tem uma maior participação na dieta dos indianos do que dos franceses, já que os europeus têm recursos suficientes para substituir a fruta por um croissant em seu lanche da tarde. O consumo de café deveria se comportar similarmente, mas não é o que acontece de acordo com a tabela acima. Sendo assim, em condições normais de temperatura e pressão, sou direcionado a concluir que o café tem uma correlação direta com produtividade, e produtividade com riqueza.
Não sou somente eu que acredito (ou quero acreditar) nestes benefícios da bebida. Em uma pesquisa do site Career Builder, dos Estados Unidos, 46% dos trabalhadores que participaram da enquete responderam serem menos produtivos quando não tomam seu cafezinho de cada dia. Indo um pouco além, uma reportagem do Plos One, um jornal científico californiano, afirma que o consumo de 200mg de cafeína auxilia o cérebro a identificar palavras e frases mais rapidamente, além de desenvolver a memória de curto prazo e a habilidade de resolver problemas racionais (puzzles). Juntando a ciência dos universitários com os dados estatísticos dos economistas, tenho uma tese defensável para não sair à procura dos cafólatras anônimos.
Vou para aqui para não me enrolar. Já estou convencido que meu vício é benéfico, que me traz riqueza, e também já construí uma tese para atestar tal ideia. A partir daqui, tudo é ladeira abaixo. Espero que meus amigos e familiares não me abandonem depois desta confissão publica de um intoxicado, que pelos argumentos dispendidos esta obviamente no estado de negação. Entretanto convido a todos nos aprofundarmos mais no assunto, lhes convidando para um café-debate lá em casa.
