“A alma generosa prosperará e quem dá de beber terá a sua sede saciada”. (Provérbios 11:25)
Eu decidi escrever esse artigo de opinião após receber várias mensagens no privado/sigilo de hamburguenses incomodados com uma situação em Novo Hamburgo. As queixas são no mesmo sentido: nada contra as generosas doações que estão ocorrendo num espaço da cidade, mas críticas ao formato de entrega, prejudicando muitas pessoas.
Além disso, chamou a atenção o medo dos leitores se exporem em razão do temor de ataques virtuais ou perseguições. Como jornalista, decidi registrar essa situação que tem gerado prejuízos, dificuldades em tratamentos de saúde, entre outros problemas.
CATÁSTROFE AMBIENTAL
A maior catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul passou a ser um trauma para os gaúchos. Mortes, dor e sofrimento para dezenas de milhares de pessoas. É um episódio que ainda não se tem toda a dimensão da sua gravidade e dos seus desdobramentos – são mais de 250 pessoas entre mortos e desaparecidos.
No meio de dessa enxurrada de água, lama, vidas perdidas e bilhões de reais em prejuízos, estamos assistindo a uma outra enxurrada: a de amor ao próximo, solidariedade e doações.
Pessoas de todo o planeta estão se solidarizando com o que aconteceu no Rio Grande do Sul. As doações de milhares de pessoas anônimas seguem chegando em toneladas e vão sendo distribuídas por um exército de voluntários anônimos.
Está sendo um trabalho incansável para atender dezenas de milhares de desalojados e desabrigados em vários municípios gaúchos.
NOVO HAMBURGO
Em Novo Hamburgo, os grandes pavilhões da Fenac são o ponto central de recebimento de doações, de acolhimento de famílias – são mais de duas mil pessoas -, da mobilização de voluntários e do recebimento de carregamentos. Por exemplo, já chegaram carretas e caminhões de cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.
Na Fenac tem praticamente uma UPA instalada, com farmácia e medicamentos. Tem sessões de cinema e profissionais da saúde para atender as pessoas. Por lá trabalham como voluntários famílias de hamburguenses, estudantes de escolas públicas e particulares, integrantes de entidades empresariais da cidade, servidores da Prefeitura. É um mar de incansáveis voluntários anônimos.
Toneladas de alimentos e materiais de limpeza já foram entregues para milhares de famílias.
Não é uma estrutura perfeita, e há problemas de comunicação, planejamento e celeridade. Mas vem sendo uma indicação para atender milhares de hamburguenses atingidos. O esforço se comprova com as doações que chegam de cidades brasileiras.
HAMBURGO VELHO
Há quase duas semanas, Novo Hamburgo ganhou um outro ponto de entrega e distribuição de doações. Fica numa pavilhão na Avenida General Daltro Filho, no bairro Hamburgo Velho.
É esse local que está gerando reclamações e descontentamento. O problema não são as necessárias doações, mas a forma com o que está ocorrendo.
Neste endereço já chegaram várias carretas. Uma das lideranças dessa mobilização é o empresário e palestrante goiano Pablo Marçal – com algumas situações polêmicas na sua trajetória. Ele esteve visitando o local e é um dos impulsionadores das doações junto a parceiros da iniciativa privada.
Ocorre que esse grande gesto das doações está ocorrendo de uma forma que implica numa série de dificuldades e descontentamentos da comunidade.
Aqui menciono o que muitos hamburguenses se queixam sobre a atuação desse grupo da iniciativa privada.
– Bloqueio da passagem de veículos numa das principais rotas de acesso ao Hospital Unimed VS, Hospital Regina e UPA Canudos – locais fundamentais para a saúde da população.
– É inaceitável, numa catástrofe ambiental de muitos prejuízos, bloquear desnecessariamente uma das principais ligações do Centro com o bairro mais populoso da cidade.
– Deram autoridade/poder para pessoas sem qualquer qualificação bloquear ruas do bairro. Colocaram grades e passaram a decidir quem pode circular na Avenida General Daltro Filho.

– Estabelecimentos que estão tendo prejuízos pelas dificuldades impostas por esse bloqueio sofrem em silêncio com medo de represálias.
– Em dias de chuva e frio, as pessoas precisam esperar por horas no passeio público e sem proteção. E, nos dias de chuva, as doações são descarregadas pegando chuva.
– E o que dizer da falsa autoridade, com status de organizador de trânsito, que insultou pai e filho que buscavam chegar numa consulta médica em razão de tratamento de saúde? Um hamburguense foi chamado de mentiroso na frente do filho por um cidadão que estava de capa e tinha poder de determinar o fluxo de veículos. A criança está há três meses em tratamento com ortopedista e fisioterapeuta, já tinha perdido consulta por causa do bloqueio. Pai e filho hamburguenses foram insultados por estarem tentando chegar numa consulta médica por uma pessoa sem qualquer autoridade.
– Promoção pessoal? Um dos líderes foi erguido no meio das pessoas para discursar e os voluntários usam crachá com imagem da personalidade. É promoção privada em um espaço público de Novo Hamburgo?
– Sobre o controle das entregas, é uma situação que merece outro artigo por tantas coisas que foram ouvidas na fila de espera e no perfil dos veículos que chegam para carregar mercadorias.
– É interessante que algumas pessoas que se queixavam das restrições na Covid-19, agora, estão apoiando ou não reclamam das restrições de liberdade para circular em Novo Hamburgo.
– Por que tirar a liberdade de circulação dos hamburguenses de forma desnecessária?
– Por que tirar o direito de ir e vir, em plena catástrofe, numa das principais ligações do Centro com o bairro Canudos?
DOEM MUITO
Doem. Doem toneladas. Ajudem. Mas o que está acontecendo neste trecho da Avenida General Daltro Filho é um ato de grupo privado com uma série de procedimentos inadequados, intenções difusas e que prejudica muitas pessoas.
Façam como milhares de pessoas anônimas: doem na Fenac, onde chegam carretas de vários locais do Brasil. A Fenac não bloqueia avenidas; a Fenac tem amplo espaço para descarregar em local seco e seguro; a Fenac tem grande área para manobras; aliás, uma ou duas carretas desse grupo privado foram descarregadas na Fenac.
Agora, na Fenac, é trabalho anônimo. É voluntariado na veia. Não tem promoção pessoal. É onde muitas famílias hamburguenses estão ajudando.
Não acham a melhor opção a Fenac? OK, então doem em locais que não prejudiquem mais pessoas. A cidade está cheia de pavilhões. Tem tantas áreas para fazer isso sem tirar a liberdade de circulação das pessoas.
Tem locais da cidade que estão preparando milhares de marmitas por dia. Agora, são locais de trabalho anônimo e onde não se bloqueiam as ruas.
Finalmente, a reflexão: e se fosse a Prefeitura – e aqui uso a Prefeitura como Poder Público – bloqueando uma rota de hospitais? E se fosse o Poder Púbico impedindo a livre circulação em plena catástrofe ambiental? E se fosse o Poder Público insultando a comunidade que precisa cuidar da sua saúde? E se fosse o Poder Público deixando as pessoas no frio e na chuva? E se fosse o Poder Público tirando o direito de ir e vir numa importante artéria de Novo Hamburgo?
Mas não é o Poder Público. É um grupo privado estimulado por um palestrante/empresário. Tomaram conta desse pedaço de cidade e, há quase duas semanas, decidem quem pode circular na Avenida General Daltro Filho.
PREFEITURA E BRIGADA MILITAR
Entrei em contato com a Prefeitura e a Brigada Militar – que está presente no local.
A Prefeitura de Novo Hamburgo informou que foi surpreendida pela ação do grupo, que se instalou no trecho. E que foram cedidos cones e cavaletes para tentar organizar um pouco a situação do local.
A Brigada Militar informou: “O 3°Batalhão de Polícia Militar informa que as questões de trânsito como estacionamento, circulação e parada são atribuições da Guarda Municipal de Novo Hamburgo, sendo assim, o que se refere a questão do bloqueio da via deve ser dirimido junto à Prefeitura Municipal. A Brigada Militar está presente para garantir a segurança de todas as pessoas que estão retirando as doações, voluntários e comunidade de forma geral.”

Termino esse artigo de opinião pedindo: doem, sigam doando e trazendo mais donativos. Doações são gestos de amor.
Agora, garantam a liberdade de circulação dos hamburguenses. Respeitem o direito de ir e vir. Parem de aumentar os prejuízos financeiros e problemas de saúde dos hamburguenses. Liberem a rota de hospitais da cidade – num atendimento médico, cada minuto conta.
Esse artigo não é uma defesa da Prefeitura ou do Poder Público – quem me acompanha, sabe do meu histórico de denúncias e de censuras que já sofri no meu trabalho jornalístico.
A questão é que não é hora de dividir – nem a mobilização e muito menos a cidade. É hora de somar e unir esforços.
Em nome dos hamburguenses que estão inconformados com o controle – ou descontrole dessa parte da cidade -, está feito o registro do que vem ocorrendo em Novo Hamburgo na maior catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul.

























