É como se estivessem tirando pedaços da gente

“É como se estivessem tirando pedaços da gente. E os amigos vão se indo.”

A reflexão acima foi dita pelo meu pai ao telefone. Eu tinha
chegado do velório de um de seus melhores amigos – complicações da Covid-19. Abalado e triste, a voz dele não
tinha a energia de outras conversas.

Meu pai tem 82 anos. Ele está residindo desde antes da
pandemia do novo coronavírus na Região das Hortênsias. Desde março do ano
passado, ele vem reduzindo sensivelmente seu contato com o mundo exterior. Deixou
de abraçar os netos, por exemplo. Então, como dizem e orientam seus filhos, “Fica
aí por cima e não inventa de ficar circulando”.

Mas, então, temos nossos contatos telefônicos. Com o
início da pandemia, algumas ligações passaram a ter um viés
diferente: foram comunicações sobre a perda de amigos pela Covid. Foi o
Oswaldo, o Hugo, o Vitão, o Ramon. Grandes amigos, muitas passagens divertidas,
todos mais jovens que ele.

O Papi – como até hoje os filhos marmanjos se referem ao
patriarca – queria ter vindo ao velório do amigo, mas naturalmente impedimos. Precisa
se resguardar. Não teve o último adeus, não teve tempo para a última
brincadeira nem o último gole.

O coronavírus foi abreviando a vida de… pedaços de vida do
meu pai. O joalheiro, o mecânico, o ex-atleta, o amigão do vinho e de Grêmio. Todos
partiram cedo demais, deixando queridos amigos enlutados.

Neste tempo, ainda ocorreram outras perdas – por outros
motivos – do Beto, do Paulo Roberto, do Mário, do Feijó, entre outros amigos e conhecidos.
Todos com passagens importantes na vida do meu pai. Pedaços que fazem parte da
sua caminhada e que ele não conseguiu se despedir.

Assim vem sendo uma triste rotina. Tenho até receio de pegar
o telefone quando preciso informar alguma situação. Felizmente, ele está
resistindo e se comportando, mas não vem sendo fácil. É um processo
desgastante, sofrido. Um desmanche emocional.

Com 82 anos, meu pai ainda não foi vacinado. A esperança é que
isso ocorra nas próximas semanas. Se tivéssemos um governo federal competente, dezenas
de milhões já estariam protegidos. Menos mal que, aos poucos, as doses estão chegando.

Queremos a vacina. Precisamos da vacina. Ela não é a cura, mas vai gerar uma proteção gigantesca. Não quero que esse vírus tire mais pedaços do
meu pai – e das famílias dos nossos amigos. Até porque uma hora vai passar. A vida seguirá. E temos muito para viver e conviver.

Cuidem-se! Protejam-se!

Estamos no auge da pandemia no Rio Grande do Sul. Só circule o necessário. Não contamine pedaços de sua história.

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